segunda-feira, 23 de maio de 2016

VITÓRIAS DO TRABALHO SOBRE A PREPOTÊNCIA


                                                      
“Porque nada de humano me é estranho”, muito menos sê-lo-á o que à minha volta se passa. E é  só por isso que hoje fico na bancada a olhar as últimas fintas do campeonato  2015/2016.  De entre as 297 mensagens do SENSO&CONSENSO, esta é a segunda vez que deixo entrar o futebol na minha praia. E tanto chega para o meu registo de interesses nesta matéria: amo o desporto naquilo que canaliza de  saúde e bem-estar global, mas detesto essa máquina sádica de moer cabeças e consciências que é, afinal. no que se tornou o futebol profissional. Mais que moer, triturar! O que aí vai de trapaça, imundície, “malas de jogo… jogo duplo… guarda-redes a vender frangos por 1.500 euros”, enfim, de despejo de água-suja e de offshores lavados em lixívia do Panamá e arredores! O que mais repugna é ver tomar conta dos nossos ecrãs produtos manipulados e cenas degradadas sobre uma actividade humana que se deseja – e para isso foi feita – como uma alavanca saudável para corpo e espírito.
É a morbidez atávica dos instintos: onde há dinheiro, aí está tudo: o mal disfarçado de bem, o desempenho à mistura de corrupção, a política embebida nas caneleiras dos estádios. E a encharca de comentadores e analista, gente grada e de  importância engravatada, que ora se emociona ora se exalta até ao tutano, a discutir a mão na bola ou a bola na mão, o milímetro do tornozelo do adversário em cima da linha, o apito do árbitro e as aleivosias à mãe do homem-de-preto. Chega! Ainda bem que, por algum tempo, os nossos televisores terão algo de diferente a servir-nos nas noites de domingo, manhãs e tarde de segunda-feira.
         Mas o impulso maior que me leva a abrir esta página ao futebol é o resultado das duas principais competições nacionais: a vitória do Vitório (o Rui) e a Taça de Portugal para o Paulo Fonseca. Definindo melhor: o triunfo dos atletas  contra a arrogância dos donos-do clube. Talvez mais precisamente:  a palma de ouro para os trabalhadores contra as ambições inconfessáveis dos exploradores. Nada mais bem feito!  Eu que não mexo um dedo de paixão clubista  (os que lá estão têm menos amor à camisola que os sócios e adeptos)  soube-me essa surpreendente  gesta, excitante, inimaginável e invejada pelos orgulhosos “Trump’s” cá do burgo, os que destilavam desprezo por “quem não era treinador nenhum”, os que mandaram para a prateleira o tal que agora lhes arrebatou o Troféu, com todo o mérito.  Aliás, sempre admirei a postura inquebrável,  realista e serena  de Rui Vitória e a cativante humildade de Paulo Fonseca, protótipos de lideranças firmes, vencedores no rectângulo e fora dele, sem nunca ripostar às provocações “sub-10” dos “rebenta-minas” que, desde o início,  julgavam-se já com o pássaro na mão.
Que passe de mestres e que estrondosa finta! Memorável lição para os dirigentes deste irregular rectângulo insular, em que germina a erva de certos dirigentes desportivos, arfando de protagonismo, senão mesmo candidatos falhados na cena política regional!
Não será preciso esclarecer  – mas faço-o expressamente – que o que escrevi nada tem a ver com as simpatias clubísticas de quem quer que seja. Os simpatizantes, acho eu, não partilham dos vícios dos dirigentes. Mas,
desta vez, parafraseando um antigo programa desportivo – “No estádio e no Estúdio” – também se pode afirmar que os estádios portugueses transformaram-se num estúdio e numa cátedra para o desportivismo e para a vida.

23.Mai.16
Martins Júnior