domingo, 19 de junho de 2016

ENTRE DOIS SÓIS, VEJO PASSAR GANDHI, FRANCISCO E OS ABUTRES


Quanto me consolaria hoje abrir as persianas da vida e deixar entrar o sol aos borbotões nesta sala oval que é o nosso  planeta, através do SENSO&CONSENSO deste dia ímpar! E acabo de constatar que o 19 de Junho traz-me, no antes e depois, tudo quanto preciso para cantar o Sol. Antes - o 18 de Junho - marca um ano da publicação da Magna Carta do Papa Francisco sobre a questão ambiental, a encíclica Laudato Si, “Sejas Louvado”, Senhor!  Amanhã - 20 de Junho - chega-nos o solstício do Verão - e faz a  entrada triunfal, em toda a sua força e esplendor.
É ao primeiro aniversário dessa luz projectada do coração e da mão do Argentino que vou dedicar o encontro de hoje. Que olhar potente e iluminante o do nosso líder sócio-religioso! Com a preciosa colaboração dos cientistas,  ele desceu ás profundezas dos oceanos, calcorreou os caminhos sinuosos da terra que habitamos, subiu até às galáxias do pensamento humano e trouxe-nos o lume dos deuses, a interpretação do universo, enfim, a chave do futuro – esse futuro que inevitavelmente temos de passar para as mãos das gerações vindouras.
Remeto os meus amigos para a leitura desse texto histórico, para o toque a rebate que ele significa e para as exigências do Homem perante o solo, o subsolo, a indústria transformadora, a higiene alimentar, o ar que respiramos. À mensagem de Laudato Si junto os oásis de frescura que as incontáveis atitudes do Pontífice nos têm aberto e, em consequência, os vulcões libertadores que as suas palavras  têm projectado para expelir as excrescências com que os humanos inquilinos têm poluído a terra e cerceado vidas. Recorto algumas das últimas dessas lavas positivamente incendiárias, porque purificadoras, sobretudo quando Francisco se refere ao estilo parabólico da criação de Adão e Eva. Na mesma linha estão as declarações sobre esse mito aterrador (que povoou a nossa infância religiosa e continua a atordoar os espíritos incautos de hoje) conhecido por fogo eterno do inferno. Que dignidade, que honestidade intelectual e  que coragem, plenamente demonstrativas de alguém que veio, como Novo Messias, neutralizar o stress endémico que a Igreja  criminosamente injectou nos ossos e nas consciências dos cristãos.
Tão cedo, o mundo conhecerá outro igual!
E, como em tudo, onde há luz também há sombras, dou comigo a bater com a cabeça na parede a perguntar: Mas, afinal, onde estão os seus seguidores, aqueles que têm por dever de ofício caminhar nas pegadas do seu “protótipo e líder”?... Onde se acoitam os mais próximos?... É desolador e revoltante constatar que a grande maioria das estirpes eclesiásticas anda anestesiada, propositadamente a assobiar para o lado oposto e até militantemente hostil à campanha  heróica deste Papa. O jornal “El Mundo” traz hoje uma reportagem sobre (cito este, entre muitos) o “atrasadíssimo cardeal de Valência, Espanha, António Cañizares, a quem chama  um ‘Cardeal de Pedra’, tal a hostilidade e a insensibilidade  para os problemas do mundo de hoje”.
Falo de Cañizares, como poderia falar de outros chamados dignitários eclesiásticos à nossa porta, desses que o grande teólogo Bernard Haring coerentemente invectivava, classificando-os de “bispos e padres-polícias, moralistas e moralizantes, fiscais, curandeiros, os ritualistas, de “observância escrupulosa, até aos pontos e vírgulas, que causam a morte da alegria”.  Mais acutilante foi o Papa Francisco quando chamou aos cardeais, “os corvos do Vaticano”.
Ao contemplar esta surda conspiração contra este Homem, único, em vinte e um séculos da Igreja, retenho as palavras de Gandhi: “Adoro Cristo, mas odeio os cristãos”. Poderia acrescentar: Curvo-me, “adoro” este Papa, mas detesto cardeais, bispos e padres que estão a dificultar-lhe e a minar  este caminho de luz e libertação que ele traz ao mundo. Porque continuam a cegar-nos  os olhos, a fomentar a compra de Deus com velas, missas pelas almas do Purgatório, bentinhos e quejandos, como se a Divindade fosse vendável e estivesse à espera de execráveis subornos.
Só os cristãos de base poderão abrir clareiras na escuridão para fazer passar o Libertador. Como? Intervindo activamente nas suas comunidades e dioceses  ou, em contrapartida,  deixando desertos os templos, como já está  acontecendo. A responsabilidade é nossa!
Entre a  Laudate Si e o solstício de verão, deixo  esta homenagem e ajudo a passar por aqui, brilhante e criador, o Sol de Francisco Papa!

19.Jun.16
Martins Júnior