domingo, 5 de junho de 2016

HOJE HÁ SOL NA PAISAGEM


Hoje entronizo o sol no meu acampamento. Quero-o, livre e dominador, cada hora das vinte e quatro do alto da torre-de-menagem. Eu sei que sombras letais povoam, como aves agoirentas, os pulmões do planeta. Eu vejo os monstros do Apocalipse atravessar os meridianos que nos comprimem, vejo-os esmagar vítimas inocentes, aqui, acolá, mais além.
Mas hoje tenho de abrir as portas e janelas da minha tenda e deixar entrar toda a luz que dança à minha porta.
Porque hoje é o dia de respirar o verde, o Dia do Ambiente, entender a melopeia serena do ribeiro que corre, mergulhar na água agridoce que inunda a terra e os corpos. Imagino-me mais um entre os pássaros volitantes, mais um entre os peixes multicolores, meus braços feitos barbatanas iguais a esse reino oceânico, na sua nudez azul  que me chega de graça ao portal do meu terreiro. E, tal como  o “Guardador de Rebanhos”, estiro-me ao longo da relva e sinto-me irmão de todos os seres que contemplam o mesmo sol.
Porque hoje, o 5 de Junho estende  a cândida alcatifa que as mãos e as vozes das Crianças prepararam desde o seu Dia, 1 de Junho, em defesa das Crianças  inocentes Vítimas da Agressão que todo o mundo assinalou ontem, 4 de Junho. O protesto de ontem quero vê-lo, hoje,  mudado em palmas e cânticos.
Porque hoje, nesta capitania primeira, viveu-se em pleno o nascer do sol  para a história desta ilha, no Mercado Quinhentista. Mais uma vez, a escola, mais uma vez as crianças e os seus mestres, ensinando sempre a respirar as brisas de outrora.
Porque hoje guardo as novas vidas de jovens, homens e mulheres, que nasceram dos  que há quase cinquenta anos venceram as minas e as injustiças para que foram arremessados. Guardo comigo as emoções do convívio de ontem, sábado, em terras continentais. O sol das plainas orientais voltou a deitar filhos e netos em solo pátrio.
Porque hoje,  Crianças de alma pura tiveram o seu Dia Novo da Comunhão Infantil, a Primeira,  juntamente com os colegas que se lhes associaram,  realizando a Comunhão da Adolescência, no ambiente franco e aberto do templo da sua Ribeira - Seca, de nome, mas alagada de sol e alegria.
Deixem entrar a luz e só ela na minha tenda, onde acampo e luto todos os dias para que a noite se faça manhã.
Hoje ficarei vigilante, de pé, esperando a aurora boreal que me sustenta e me conduz!

05.Jun.16
Martins Júnior