quarta-feira, 15 de junho de 2016

O REVERSO DO “MILAGRE”


Antes que me embrenhe em temas e problemas que todos os dias nos caem diante dos olhos – e há-os tantos nestas últimas horas – vou cumprir o acordado desde o dia 9 .p., ou seja, mostrar o reverso da medalha no tocante àquilo a que costumamos designar por “milagre”. Nesse texto, procurei  analisar as inexploradas potencialidades do Homem, detectando nalguns casos fenómenos abissais, merecedores daquela designação. No cérebro e na mão dos humanos mortais está o segredo de “ver o invisível” e, com o próprio esforço, transformar em realidades concretas o que julgávamos antes sonhos impossíveis, milagrosos.
Mas há o tal reverso da medalha. A par das estrondosas  evidências que a ciência nos tem revelado, subsiste em certas mentalidades e com a mesma dimensão a apetência doentia pelo sensacional, quase até ao absurdo, enfim, a obsessão pelo “milagre”. Fabrica-se-o, por tudo e por nada, incentiva-se-o, sobretudo em épocas de crise ou em situações amotinadas de conflitos de interesses, alguns deles tão ridículos quanto inimagináveis.
Longe de mim usar esta página para ampliar as risadas que certas atitudes provocam ao público minimamente esclarecido. Pelo contrário, como já o declarei noutras ocasiões, respeito as fés de cada qual, seja o europeu, o asiático, o hindu, o muçulmano ou o empoladamente  agnóstico. Mas tal reverência gratuita não me impede de verificar e frontalmente exprimir que, na maior parte dos sedentos de milagres, o que neles está em causa é uma demissão da fé na força energética do Universo, obra do Criador. E, daí, a devota submissão ao culto do menor esforço.
E porque não pretendo convencer ninguém, apenas mostrar a realidade, citarei dois casos - frescos da hora – ridiculamente demonstrativos da irracionalidade deste “reverso da medalha” e da ofensa feita a pessoas e coisas que se requerem sagradas.
Da imprensa espanhola de hoje, recortei a gravura supra-transcrita. Imaginem a legenda. Pois eu digo-vos. “Um jovem votante na sala da sua casa em Almonte onde montou um altar à Virgem”.  No corpo do texto, o repórter descreve a fé ardente daquele eleitor em Nossa Senhora para dar vitória ao seu partido. Deprimente, ridículo, direis. Mas existe. E com honras de 1ª página num periódico diário de grande tiragem nacional. Escuso-me de acrescentar comentários que quem me lê, certamente,  já os fez contra tamanha blasfémia de palmatória! Será que entre nós haverá cenas tão desajeitadas quanto insultuosas à Fé?
Então agarrem-se à cadeira que lá vai esta, transcrita da 1ª página, com direito a foto (que tenho vergonha de reproduzir) num dos diários portugueses. ”Vim pagar uma promessa”. Uma senhora, com dois netinhos a seu lado, ostentava  um vistoso “círio de altura”. E  acrescentava a notícia: “Vim rezar pela nossa selecção”. O título não escondia nada e identificava: “Dona Dolores em Fátima”.
Para cúmulo, dois dias depois, nem o melhor do mundo marcou nem  a selecção ganhou aos caloiros da Islândia. Também sem comentários. Alguém ao meu lado sorria: “O melhor será a portuguesa Nossa Senhora de Fátima jogar contra a francesa Nossa Senhora de Lourdes”…
A tanto chega a deturpação da Fé, o esfarrapar do “milagre”!
         Para provar que, neste capítulo das crenças, há quem não tenha a coragem de dar um passo em frente, adiciono a surpresa que tomou conta de mim, na Senhora da Aparecida, Brasil, em 1972, quando no salão expositor de “promessas” vi uma enorme cruz de madeira, 5 metros de comprido,  e um cartão junto: “Eu,…. carreguei aos ombros esta cruz desde…, porque  a  prometi à Aparecida do Norte se o Brasil ganhasse  a copa do mundo”.  Nem queria acreditar no que via. E há séculos que andamos nisto…
Ridendo castigo mores – vem de longe o sábio aforismo. Oxalá que o evidente sarcasmo de certas atitudes, em Portugal, em Espanha, no Brasil, por esse mundo fora, nos areje o cérebro e o faça caminhar à conquista da Verdade Plena!

15.Jun.16
Martins Júnior