domingo, 3 de julho de 2016

CÁ VAMOS CANTANDO, PAGANDO E RINDO : Breve radiografia das festas na Ilha


“Lá vamos cantando e rindo”…
         Era assim que nos tempos de Salazar se impunha  o  hino patriótico aos jovens, forçosamente agrupados  na  falange denominada  “Mocidade Portuguesa”. Os irreverentes estudantes de Coimbra nos cortejos de fim-de-curso, as  famosas latadas, ironizavam com a variante Lá vamos, pagando e rindo…
         Cantando e pagando cá vamos nós também, embarcados nos porões dos arraiais que pululam agora por toda a ilha. Finados os “Santos Populares”,  passamos aos Senhores e às Senhoras, oragos das mais 100 paróquias e capelas madeirenses. Tenho para mim que a invocação ou o título dos eventos é o que menos interessa para a comunicação social e, daí, para o  grosso da população. A avaliar pelas notícias e reclamos, tanto faz chamar-se  Festa de São João, António ou Pedro como apelidá-las de festas da cebola, do caramujo ou do mexilhão. O que é preciso é entrar na excursão, cantando, pagando e rindo.
         Foi o que me chaparam nos olhos as imagens e os comentários televisivos  de ontem acerca do São Pedro na Ribeira Brava. Os feirantes, as carradas de carne, os barris de poncha e, como cereja no bolo, a caixa: o lucro, o negócio - objectivo legítimo de quem arrisca, mas francamente redutor para quem faz reportagem. Então, a delícia e o “faro” do jornalista atiram o microfone para os laboriosos trabalhadores das barracas, com as ridículas e enfastiadas perguntas, do género “como é que vai o negócio, têm vendido muito, as pessoas aparecem mais que no ano passado?”… Até na religião: “Quantas girândolas de  foguetes, há  muitas velas de promessa, muitas cabeças e pernas de cera nas procissões?”… Tudo negócio! Do tamanho dele depende o brilho ou o escuro da reportagem. Factores culturais, vertentes artísticas, algo mais que os comes-bebes-e-pagas são os ausentes  e esquecidos dos comunicadores públicos.
         Ninguém pretenderá fazer das festas populares tertúlias académicas. Mas se, porventura, ocorrem determinados eventos em que o povo e a cultura assumem-se como protagonistas deveria dar-se-lhes o devido apreço.
         Refiro-me àquilo que vi nestes dias em Machico. Houve o cortejo de São Pedro, a que já aludi noutro texto, com  participações de qualidade, genuinamente endémicas. Associadas ao São Pedro seguiram-se outras actividades, integradas no Dia da Freguesia, sobressaindo o programa denominado Arte e Pesca na enseada leste da baía, desde provas náuticas, “24 horas a voleibolar”, padel,  construções na areia, passeios de veleiro e catamarã, atelier de artes plásticas, pintores ao vivo. Um teclado multiforme, de diversas tonalidades, extenso e sugestivo é como pode classificar-se o que se passou no palco. Música para todos os gostos: “Vozes do Concelho”,  Grupo Folclórico, Banda Municipal, grupo de fados e do “Prestige Dance”, António Câmara e a sua Guitarra, “Cantares da Ribeira” com o desfile coreográfico intergeracional da Ribeira Seca e outros artistas locais, a que se juntaram bandas convidadas (“Aoakaso”, “Punk D’Amour” “Fitness Team”, “Feed back”, “Dull N’Nouk White”, “Major Cafeina”) e os DJ’s no encerramento de cada um dos cinco dias que durou a 2ª edição da  Arte e Pesca, uma homenagem da Junta de Freguesia de Machico aos pescadores da localidade.na zona do Caus do Desembarcadouro, o seu meio ecológico.
         Todos quantos ali passaram, de diversos escalões etários e culturais, todos tiveram oportunidade de abastecer-se nas barracas em redor, mas ao mesmo tempo alimentaram a mente e a sensibilidade com uma ementa diferente. No regresso a casa, subia a vida em tom maior, por causa do ambiente pacífico, saudável e construtivo que encontraram na baia. Porque a Arte e Pesca  não serve para alienar e esvaziar o ser, mas para libertá-lo e dar-lhe força de interpretar e vencer as barreiras do quotidiano.
Há mais festa para além do cantar, pagar e rir!

         03.Jul.16

         Martins Júnior