sábado, 9 de julho de 2016

DOS EMPATES ÀS VITÓRIAS!


Cá vou eu, de malas aviadas, correndo asinha,  ansioso por chegar a  Paris. Confesso que não estava nos meus planos. Mas o coercivo acelerador  das    telefonias, dos  telefones, televisões, telejornais e tele-multidões, enfim, o vendaval da pressão pública e publicada arrastou-me. E lá vou eu, olhando o grande teatro do estádio de França, onde nos querem convencer do futuro de Portugal. Na Torre Eiffel começa o grande cordão verde-rubro que abraça Versailles, Les Champs  Elysées e avança desabrido pelos vastos continentes onde vive um português. Digamos que o cordão ibérico amarra todo o planeta. E um potente e tracejado trissílabo, “POR-TU-GAL”, faz tremer o universo.
Quem ousará negar o assombro que nos traz o futebol, mais precisamente a Euro copa? Não há quem lhe resista ou lhe seja sequer  indiferente. Em Portugal e no estrangeiro. Vejo uma enorme página do super-gaulês Le Monde, .dedicada  à nossa selecção e onde se classifica o capitão como “Le sauveur du Portugal” (o salvador da pátria portuguesa), enquanto “nuestro hermano” El País põe-lhe água na fervura e diz que “há mais ruído que futebol… e que França já se bateu com um campeão, Portugal ainda não se bateu com nenhum”. Dos jornais portugueses, é “A BOLA” que vai à frente quando, sobre Ronaldo, escreve assim “UM DEUS PORTUGUÊS”. E os protagonistas do estádio não fazem por menos. Foi impressionante ouvir Quaresma, após marcar o penalty: “Ao avançar para a bola, senti Portugal todo aos ombros”. Talvez fosse anatomicamente mais “científico” se dissesse que sentiu o pais inteiro nos pés.
Há quem veja em tudo isto um testemunho eloquente de patriotismo, de genuína portugalidade arvorada em todo o mundo. Entretanto, um espectador do programa televisivo questionava: “Será que se Portugal ganhar o Euro Futebol,  a Comissão Europeia ou o Ecofin  dispensar-nos-ão das sanções com que nos ameaçam a todas as horas?”. Ironia subtil esta pergunta, que nos remete para  outra maior: Será este o patriotismo que faz falta a Portugal? Não estaremos perante um momentâneo pico de alienação colectiva, o qual, 24 horas volvidas, obrigar-nos-á à mesma lassidão, à mesma modorra de sempre, sem força para reagir aos abusos do poderio  do Banco Central Europeu, do FMI, dos salteadores bancários?”...
É belo, belíssimo ver os estádios, as praças, as esplanadas, as avenidas regurgitarem de gente alvoroçada. E, sem querer esfriar o entusiasmo das multidões, perguntaria: Teríamos o mesmo ânimo em massa para protestar contra os monstros dos offshores, do desemprego, da doença, da incultura?
Relevemos, no entanto, a coesão uníssona dos portugueses no aplauso aos valentes guerreiros do rectângulo. Não há divisões, nem Benfiquistas, nem Portistas, nem Sportinguistas. Isso fica para depois de amanhã. Agora, o lema é: “Um por todos e todos por um”! Isto também é patriotismo. Mas já não é patriotismo, senão paranóia pegada, ouvir as ondas sonoras em cachão, “esclarecendo” e arrastando o público na rádio e TV: “Qual Cabo Bojador, qual Batalha de Aljubarrota, qual Revolução dos Cravos, em comparação com o Portugal-França?”… Ridicule, mais charmant, sublinhe-se. A prova por excesso vale tanto como a prova por defeito, ditado antigo.
Moral desta historiazinha inofensiva:  Que a transição dos empates iniciais da nossa Selecção  para as vitórias finais sirva para alcançarmos ganhos efectivos no grande estádio onde em cada dia se defronta Portugal na Europa e no Mundo!
Com este desejo, vou-me deixar ficar por cá, à espera que Paris passe à minha porta...

  09.Jul.16
 Martins Júnior