quarta-feira, 13 de julho de 2016

ÉS BOA ALUNA?...LEVAS!

          Que resposta mais absurda para uma pergunta tão pertinente!
Qual o professor e de qual colégio seria capaz de chegar agora ao fim do ano lectivo e desfechar tamanho murro em cima de um aluno ou de uma aluno, pelo único crime de terem sido reconhecidos, na opinião do próprio mestre, como exemplares perfeitos durante o ano inteiro?  Esse não era um colégio: era um manicómio.
E, no entanto, ele existe. Junto de nós. Aliás, todos nós andamos nesse colégio. Matricularam-nos, sem o nosso inteiro consentimento, nesse internato de lunáticos.
Vou ser breve na decifração desta charada pegada, porque não se fala de outra coisa nos jornais, no audiovisual, nas redes sociais. Outros analistas, tecnicamente  competentes e seguros, têm apontado para a injustiça de que Portugal está a ser vítima. Faço-o conscientemente,  para ser mais um a solidarizar-se com a causa e para traduzir numa linguagem mais empírica e acessível a incongruência desse absurdo.
Refiro-me a essa espada de Dâmocles com que do terraço mais alto de Bruxelas os agiotas sem lei ameaçam os portugueses. É a ameaça das sanções que a Comissão Europeia  descarrega contra nós e contra este governo porque o governo anterior excedeu, em duas décimas, a quota do deficit orçamental.
A nossa contra-argumentação já foi largamente expendida pelos governantes e pelos observadores. Afinal, quem mais do que o governo anterior, às ordens da Troika, sorveu até ao tutano o sangue, o suor e as lágrimas de Portugal?... Quem é que mandou um vice-Primeiro Ministro bradar até à exaustão que só faltava uns dias para nos vermos livres da Troika?... E que, após a saída dela, tudo correria na mais pacífica normalidade?... Afinal, repito  (e assim esclareço o título) quem chamou à nossa  ministra das Finanças “uma boa aluna, uma aluna exemplar”? Quem? O Mestre da “economia que mata”, o sr. Schauble , o todo-poderoso ministro germânico da guerra-fria financeira!... E é agora, ele mesmo, assessorado pelos seus pares europeus, que vem desfechar um murro cego e surdo em cima da “aluna perfeita”. Nela não. Em todos os portugueses de hoje e de amanhã! Não há critérios de equidade,  de mínima  justiça, nesse tentacular colégio europeu.
Sempre me apercebi de que o polvo de Bruxelas traz-nos no bojo como uma mãe desnaturada sente prazer em amarrar no ventre um nado-morto ou um hipotético nascituro, sempre moribundo e mal formado , sem esperança de ver-se livre e saudável,  respirando a luz do dia. Dizem que nos ajudam, mas com uma cláusula imperativa: a de ficarmos sempre na maldita condição de pedintes devedores.
 O queixume que sentimos transforma-se em grito de revolta. Não terá este Povo  o direito de “tomar uma refeição quente”, como recompensa de quatro longos anos de gélida ementa “a pão e água”?...  Está visto que os talhantes de carne humana, espojados no divã do capital sem rosto,   não nos querem ver em paz dentro da nossa própria casa, dando as mãos, separadas que estavam há quarenta anos. Preferiam um parlamento irremediavelmente dividido, para reinarem a seu indomável instinto.
Que desorganizada União é esta, traidora dos ideais de Monnet, Shuman e Adenauer,  os pais fundadores do nobre projecto europeu! De que servem cimeiras, tratados, Livro Verde e Livro Branco,  convénios, turbilhões de fortunas, arrancadas ao Povo, para envernizar palácios,  faustosos hemiciclos,  viagens intercontinentais, “voos cegos a nada”?... Rasguem esse campanudo rolo de papel que dá  pelo pomposo  nome de “Estratégia Europa 20/20”, onde (cinicamente, digo eu) se apregoa o tríplice “Crescimento:  inteligente, sustentável, inclusivo”.  Que inteligência, que sustentabilidade e que inclusão, quando comprometem legítimas expectativas,  destroem a economia e o nosso prestígio perante os investidores?!    
         Uma situação explosiva esta, que nos leva a uma dupla tentação. A primeira, a saída, na esteira do Brexit. A segunda, positiva e militante: participar nas Eleições Europeias, aquelas em que a abstenção costuma ser rainha. Agora é que vemos a força decisória da nossa atitude. Que saibam os avaros funcionários do capitalismo  sediados em Bruxelas e saibam-no os juízes metalizados  do Ecofin:  Em Portugal há um Povo firme, vigilante, participativo!   

13.Jul.16
Martins Júnior