domingo, 31 de julho de 2016

GOSTOSO BRINDE DE FÉRIAS ESTIVAIS


É o verão em pleno: a estação do “ver”, viajar, olhar para fora -  tudo composto num único vocábulo, o “voyeurismo” - que, descontando o transporte abusivo do galicismo para o nosso idioma,  significará, no seu sentido mais amplo, o abandono do consciente pessoal para dispersar-se e perder-se no colorido vácuo da paisagem exterior.
Mas nem sempre é assim. No festival do batuque envolvente de cruzeiros, paradas musicais, corridas e arraiais, há sempre alguém que nos convida para a nossa própria cabana, abre-nos a porta e faz-nos olhar uma outra paisagem – o nosso mundo interior – que a azáfama impertinente do ano inteiro não nos deixa ver. Há sempre quem nos ensine a viajar para dentro de nós. E é o que mais  falta faz ao viajante-vigilante, que habita nas paredes que somos.
Pois bem: foi exactamente este convite que me foi dado a mim e a todos quantos estiveram na exposição que a escola das artes, dirigida pela singular artista Alexandra Carvalho, apresentou no salão de actividade culturais da Junta de Freguesia de Machico neste fim-de-semana e fim-de- ano didáctico. O tema não podia ser mais adequado: o retrato. E dentro dele, o mais apetecido: o auto-retrato. Ao espectador desprevenido deverá ter causado – foi o meu caso - um sentimento de intriga e espanto pois, além de cinco ou seis imagens figurativas, os quadros apresentados saltavam da tela como línguas de fogo numa embriaguez de cor e vida. Outras, mais profundas, primavam pela penumbra de um verde tropical sob um sol recatado. O friso de imagens deste teor mais emotivo e concentracionário apresentava-se sob a nomenclatura comum de “auto-retrato”.
Foram estas,  as “paisagens interiores”, que me agarraram pelo tronco e me mantiveram estaticamente activo (passe a antítese) na busca incessante do rosto, da alma - do psiquismo enigmático que se desentranhasse daqueles traços aparentemente desconexos, daqueles retorcidos braços em flor, daquele complexo jogo de caras e cores, a um tempo harmoniosas e contraditórias. No entanto, uma mensagem tão subtil como eloquente enchia-me os olhos e o espírito. A tal ponto que tive de recorrer aos próprios autores para decifrar a leitura mais fidedigna da mensagem. Que beleza e que sabor indizível disfrutar da fogosidade e do sonho daqueles jovens artistas  retratando na tela as coordenadas invisíveis do planisfério que lhes vai na alma!


Gostaria de reproduzir aqui todos os quadros, o que me é impossível. E com muita pena minha, pois merecem ser partilhados, interpretados e assimilados por quem tenha olhos de ver. Continuam em exposição até 19 de Agosto. “Vai valer a pena”!
Achei importante que lá estivessem os responsáveis autárquicos da freguesia e do concelho, fornecedores das instalações onde decorreu o ano didáctico, bem como os apoios logísticos dispensados. É o seu dever. E é a sua honra. À professora Alexandra Carvalho e seus pupilos, as congratulações e o reconhecimento pelo brinde de férias estivais que nos ofereceram.
Olhar para dentro, viajar dentro de nós, enfim - na esteira pedagógica de Freud e  Carl Jung– que gostoso estar neste laboratório de psicanálise plasmada em arte!

 31.Jul-1Ago.16

Martins Júnior