segunda-feira, 25 de julho de 2016

GRITOS E TRAIÇÕES NO BERÇO ONDE NASCERAM OS PORTUGUESES


Por azar ou sorte ou ironia do destino, o dia 25 do mês tem deixado marcas indeléveis no calendário de Portugal. Num passado recente, conhecemos o 25 de Abril e o 25 de Novembro. Estranhamente, porém, o mesmo sucedeu noutro 25 – o de 1140.
Faz hoje 876 anos!
O filho do  francês  Conde D. Henrique de Borgonha firmou, pela primeira vez, o seu nome como “Rei de Portugal”. O Tratado de Zamora, cujo conteúdo muitos historiadores põem em causa, mais não foi que a confirmação em 1143, do arrojado feito de 1140.
Passados que foram quase nove séculos, que cheiro terão as cinzas encarceradas no mausoléu de Santa Cruz de Coimbra? E que baladas cantará a poeira deitada daquele que brandiu a espada de fogo em brasa contra todos quantos se lhe opunham, inclusive contra a própria mãe?...
Terá ele orgulho da paternidade que deitou ao mundo os passageiros desta jangada-rectângulo mal presa ao ancoradouro europeu?...  Moçárabes e lusos, seios de castelhanas parindo em solo português, migrantes e refugiados, príncipes e párias, santos e assassinos, senhores e escravos… Poderá o Grande  Conquistador  proclamar com Fernando Pessoa: “Valeu a pena”? Não teria sido melhor  continuar unido  à estirpe de sua mãe Teresa, a Leão e Castela?
Incógnitas que outros antes de mim já formularam, alcançando uns o cume do sucesso histórico em tantos vultos gloriosos, derivando outros para o pessimismo deprimente em que nos fizeram ou fazem-nos  afogar timoneiros sem rumo, líderes sem amor pátrio, vendidos ao capital sem ética dos insaciáveis polvos bancários e aos interesses de potências estranhas!
Não só o 1º de Dezembro, não só o 5 de Outubro, não só o 25 de Abril e não só as pomposas encenações do “Estado da Nação” deveriam fazer-nos cair no real e perfurarmos até às profundezas do Inconsciente Nacional o chão onde nascemos e vivemos. Também o “25 de Julho”, o de mais longe, o nosso cordão de nascença, puxa-nos para essa retrospectiva responsável e responsabilizante do lugar que ocupamos.
No entanto, o primeiro  Rei de Portugal não ficaria em nada surpreendido com o que visse no rasto do seu país. Ele, mais que nenhum outro português, nasceu sob o signo de lutas encarniçadas, traições, guerras matricidas, enfim, um antro de maldades e contradições que foi o berço onde se fez rei. Chamo o insuspeito e austero  Alexandre Herculano que disto nos informa na sua monumental História de Portugal, sobretudo na análise do seu reinado e em cujas palavras vagueia o perverso enunciado de Machiavel, “o fim justifica os meios”:
“O pensamento de firmar a independência portuguesa subjugava no espírito dele (Afonso Henriques) outras quaisquer considerações, ainda talvez, com ofensa de algumas que deveriam ser respeitadas. É realmente àquela ideia que vão ligar-se muitos dos seus actos, os quais, avaliados separadamente, dariam direito a acusá-lo de pouca fé e ambição desmedida. Além da rebelião com sua mãe, a quebra do Tratado feito com o Imperador em 1137, o engano imaginado para colher desprevenida a guarnição de Santarém, as crueldades praticadas com os sarracenos, a maneira, enfim,  como se houve com o rei de Leão seu genro, cujo nobre e generoso carácter não pode deixar de fazer sombra ao de Afonso I, foram acções que, avaliadas em si unicamente, serão sempre dignas de repreensão”.
Eis a factura degradante que muitas vítimas tiveram de pagar para garantir o título de rei ao Pai da Portugalidade. Será esta a sina que deixou em herança à sua prole para todo o sempre? De forma alguma. A nós, compete-nos “cumprir Portugal”. No nosso tempo e na nossa circunstância.
Permitam-me terminar esta  breve mas útil incursão sobre os nossos primórdios, recorrendo ao belo texto de Herculano:
“O afecto que lhe dedicou o povo chegou a atribuir a D. Afonso Henriques a auréola dos santos e a pretender que Roma desse ao fero conquistador a coroa que pertence à resignação do mártir, o que não aconteceu. Outra religião, porém, também venerada, a da pátria,  nos ensina que, ao passarmos pelo pálido e carcomido portal da igreja de Santa Cruz, vamos saudar as cinzas daquele homem, sem o qual  não existiria hoje a nação portuguesa e, porventura, nem sequer o nome de Portugal”.

25.Jul.16
Martins Júnior