terça-feira, 23 de agosto de 2016

FESTAS TROCADAS POR AMORES: o “milagre” das quatro igrejas do Funchal


          Hoje continuo a escrever ao sabor do que os olhos alcançam em meu redor.  Hoje só quero ter todo o  bom senso e consenso do mundo para tecer um hino em tom maior  a esse tronco bicéfalo que sustenta o planeta: a inteligência e a solidariedade. Mas também sei que este cântico não se escreve com partituras e poemas: faz-se, mostra-se na acção, na produção de factos concretos.
         Foi o que pude ver e tocar, anteontem,  aquando da rápida subida a São Roque do Funchal, onde os mordomos da festa do seu orago transformaram o programa de arraial num almoço solidário em apoio às vítimas dos incêndios. Impressionou-me a convicção e mais me surpreendeu o manifesto sentido de dever cumprido, estampado no rosto sorridente de todos os participantes. É a isto que chamo inteligência e solidariedade.
         E porque era meu desejo saudar  o líder daquela comunidade, o Padre José Luís Rodrigues, fui encontrá-lo a colaborar na celebração da solenidade litúrgica do orago da igreja do Imaculado. E aí deparei-me com idêntico cântico à inteligência e à solidariedade: o Padre João Carlos explica ao auditório a permuta do arraial exterior pela doação de todas as verbas do orçamento festivo, precisamente, às vítimas dos incêndios.  O Padre João Carlos  Gomes é pároco do Imaculado e, cumulativamente, da igreja do Livramento.
         Estes gestos inteligentes e solidários juntaram-se ao caso exemplar do 15 de Agosto, o famoso dia do Monte. Insisto no binómio inteligência-solidariedade, porque nem sempre é fácil conciliá-los e fazê-los interiorizar num colectivo  de múltiplas e divergentes motivações. Aí está a nata civilizacional de um Povo! E dos seus líderes.
         E aqui está a presença efectiva da Igreja, a denominação (que deveria ser comum) do seu  princípio activo. Fermento na massa, alma dinâmica de um corpo em marcha, enfim, o seu código constitucional, o único, transcrito em  Mateus 25, 31 e sgs., e  mais tarde  empiricamente explanado por Tiago,2,18, em resposta frontal a um devoto fideísta: “Mostra-me a tua fé e eu mostro-te as minhas obras”.
         À Igreja-Instituição, para não trair a sua essência constitutiva, não lhe  resta senão entrar em campo, “sujar as mãos na lama, cheirar ao ‘perfume’ da ovelhas dos currais”, como ordena o seu actual Pastor Universal. A Diocese não pode refugiar-se apenas no pomposo biombo da Caritas “diocesana”, pois esta é fruto exclusivo dos bens públicos e privados. E onde está o contributo efectivo da Diocese? Que tem proventos nossos à sua guarda. E tem casas, prédios rústicos e urbanos que poderia ceder aos filhos seus, refugiados sem abrigo. É agora – é a hora da solidariedade inteligente. E, como se ouve a muita gente, não é com sermões e entrevistas publicitárias à Rádio do Vaticano.
Devo aqui manifestar a minha estranheza quando ouvi que do Santuário de Fátima viria o contributo para as vítimas dos incêndios da Madeira: 50.000 euros. Ó senhores da religião mariana, saibam que a igreja do Padre José Luís Rodrigues, só ela,  recolheu 10.000 euros. E quantos “São Roque” caberão numa só noite da Cova da Iria?... Mil, dez mil?... O negócio das velas provém da devoção, bem ou mal interpretada, a Maria-Mãe. Não seria um imperativo indeclinável reverter tudo dessa noite  em prol dos seus filhos aflitos, indefesos?... A que religião vos referis quando falais em religião de proximidade?...
Transformar a Festa em Amor! As Festas em Amores reprodutivos. Bem hajam, nobres pastores das zonas altas do Funchal. Tal como a Rainha Santa, transformastes as rosas em pão.

23.Ago.16
Martins Júnior