sábado, 27 de agosto de 2016

O DEMOLIDOR E A SUA TRIBO


Longe estava eu de chegar ao Funchal e, de repente, cair da ponte abaixo. Por ironia, chamava-se a Ponte da Saúde. Bem me lembro de atravessá-la uma e muitas vezes, há quase setenta anos, quando descíamos do Seminário da Encarnação rumo aos “Viveiros”, à Fundoa e demais estâncias circunvizinhas nos nossos passeios pedestres de domingo.
Caí da ponte abaixo pela simples razão-sem razão de ver que fora ela esquartejada, desventrada, engolida pela fúria dos crânios pontiagudos que se passeiam na Quinta-Vigia. Eis como os novos “vigias da Quinta” vigiam a nossa Saúde e a saúde dos ombros que suportavam o arco da ponte centenária!
Venho associar-me à consciência vigilante  daqueles que  amam a cidade mais que a Quinta. Vozes patrióticas que não se deixaram trair pelo mais fácil, pelo verniz que luz mas não é ouro. Danilo Matos, Violante Saramago, Raimundo Quintal, Costa Neves, João Baptista, José Luís Rodrigues, André Escórcio e outros madeirenses de gema, funchalenses de fibra, para quem Ouro é a pedra secular, as mãos invisíveis dos construtores de outrora, o testamento vivo das “Pedras que Falam”! São estas as salvas diamantinas onde repousam os nossos pergaminhos. Mas aos herdeiros gratuitos e desnaturados turva-se-lhes a vista e embota-se-lhes a sensibilidade  para não verem que “um Povo sem Passado é um Povo sem Futuro”.
Custa-me, creiam, custa-me muito ter de recorrer a  um  estranho magnata Al – Bu - Keq  das arábias para definir e abjurar a surdez tacanha e a cegueira contumaz dos demolidores sem lei. Sem cultura. É caso para bater à porta da Quinta e abrir o protesto: De que serviu mudar o inquilino se é a mesma cama inculta e arrogante  em que se deitam?... Que insensatez foi essa de fazer orelhas de mercador aos mestres, técnicos, professores, arqueólogos, historiadores, que têm a nobre missão de ver mais longe que os decisores de bancada?!...  Recordo-me de um já deposto demolidor  que um dia em Machico, em zona histórica, ter-me  sentenciado com supina prosápia: “Devia-se tirar essa pedra daqui e deitar alcatrão em cima”. Escusado  será dizer que não lho permiti. É deprimente ver gente responsável – tão irresponsável e cega – que preza mais o betuminoso inaugurado na véspera do que a passadeira em pedra roliça que os nossos antepassados nos deixaram como legado inter-geracional. Ao menos, nos cenários que ainda restam do nosso passado histórico.
Do pouco que deixei escrito subentende-se o muito mais que tinha para dizer. Por isso, aqui me quedo. Desiludido. Concluo agora a sábia filosofia do ditado popular: “Por melhor ninguém espere”. É pena. Cultura não é só o cosmopolita festival de jazz ou os linguados parlamentares do fastio. É também a preservação do património construído, o qual segundo Pedro Serra, “é o passado que se torna presença e substantivação do presente”.
Perante atitudes tão grosseiras quanto incompreensíveis numa democracia cultural, não tenho outras palavras senão as de Almeida Garrett, já em 1835, quando nas  Viagens na minha Terra zurzia violentamente contra o vandalismo de certos administradores do país (e o caso da Ponte da Saúde está no mesmo índex)  culpando os governantes de Santarém pela destruição do seu património histórico  e  acusando-os de cederem ao “fanático camartelo da ignorância” . Lamentavelmente, ontem como hoje.
Ponte da Saúde que tornou mais doente a Cidade!

27.Ago.16
Martins Júnior