sábado, 3 de setembro de 2016

AINDA OS INCÊNDIOS NAS ESCOLAS E O CASO DA SERTÃ


Quem poderá ficar mudo e quedo perante o retalhar de uma comunidade inteira, consequência directa do êxodo dos seus filhos na mais tenra idade?   E como deixar impunes os talhantes avaros que, a troco de meia dúzia de cifras, pegam nas crianças e, logo nos primeiros passos da vida escolar,  as obrigam a deixar mais deserta a casa-mãe onde foram nadas e criadas?!
         Nas vésperas do início das aulas, outra preocupação maior  não terá quem vive no seio desse agregado populacional e lhe sente os problemas familiares, afectivos, sociais.  Por isso, não me cansarei de afrontar publicamente  ( porque de reunir e conversar já estamos fartos) este insensível governo regional  que usa e abusa do que mais de sagrado tem um povo: o ensino, a educação, a cultura. A frieza e o à-vontade do adejar de braços com que trata as pessoas como números, não pode passar impune no julgamento da história.
         Professores – são números. É só cortar. “Só me deram este punhado de docentes – dizem mecanicamente  as comparsas do talho,  directoras escolares ou algo que o valho. “É com estes que tenho de dividir os alunos”.
         Alunos – números são, os mais frágeis, quando deviam ser respeitados como elos mais fortes da cadeia educativa. É medir, talhar, encaixotar e “sigam à minha frente”.
         Pais e encarregados de educação - números também, voluntários à força. Roça a mais vil hipocrisia dizer-se – como já sei a cartilha – que  as directoras reuniram com os pais e com as crianças. Como se não soubéssemos o papel manipulador da directora: “são ordens que recebi do sr. secretário”. E o secretário faz eco: “São ordens que recebi do presidente do governo”  ou de um secretário, sempre  em transe, de olhar ausente no dinheiro sempre presente. Lembra isto o ferrugento veio de transmissão hierárquica dos antigos regimes: O secretário é obediente cego ao presidente e a directora é  obedientíssima interesseira (e ambiciosa!) ao secretário. Quem paga? … As crianças, os mais fracos.
         Há uma deficiência, para não dizer perversão, de fundo: reduzir a escola a quatro paredes de armazém onde arrumar cabeças. Não entendem nem sentem os talhantes que a escola  é um dos maiores antídotos contra a desertificação rural. E que, por isso, vale tudo defendê-la.  Ponham num dos  pratos da balança os malefícios da desertificação  e, no outro, os custos de um professor ou de uma turma. Depois, façam as contas. E respondam-me, se souberem: quanto pesaria no orçamento regional a colocação de mais um professor nesta ou naquela escola que pretendem fundir e aniquilar?... Bastaria esquecer meia dúzia de balonas do fogo de artifício e ficaríamos todos a ganhar. Quem dá por falta de meia-dúzia de bombas de fim-de-ano? Ninguém. Sabem quantos dão por falta de uma escola ou de uma turma que dissolvem? Toda a comunidade.
         Perguntar-me-ão por que circunstância inédita trago hoje, mais uma vez, este tema à liça. Pois eu digo-vos: Fiquei intimamente tocado e intensamente galvanizado com a decisão que ontem anunciou o Presidente da Câmara da Sertã, a qual é tão sintética quanto eloquente: a edilidade do município vai inscrever no orçamento de 2017 a verba de 200.000 euros para manter em funcionamento quatro turmas em risco de dissolução numa das freguesias daquele concelho do distrito de Coimbra.
          Tem muitos e distintos contornos esta notícia, mas o que dignifica e exalta o município da Sertã é a justificação expressa da medida adoptada: impedir a desertificação daquela área. A isto chama-se mentalidade superior, sensibilidade inteligente, numa palavra, a isto chama-se  autêntica Autonomia do Poder Local, ao serviço dos seus constituintes.
         Este problema que, como eiró entre o lodo da maré, enrola-se primeiro como fusão administrativa até desovar na dissolução da primitiva escola,  não pode ficar por aqui. Quer se ganhe ou se perca este debate-combate,  é dever nosso denunciar, como já o fiz anteriormente,   que enquanto os incêndios destroem as serras os incendiários do governo ardem as escolas. E desertificam os nossos campos.
         UM VOTO: que os autarcas madeirenses sigam o município da Sertã.

         03.Set.16
        Martins Júnior