domingo, 11 de setembro de 2016

CUMPRIU-SE A HISTÓRIA: Ano CCCXXIV – Povos pequenos com histórias grandes

Considerem uma vulgar crónica do quotidiano aquilo que vou contar. Mas para quem penetra o invólucro das coisas banais encontrará mais do que o linguajar do quotidiano. Pelo contrário, descobrirá raízes centenares   que  ultrapassam todos os circunstancialismos aparentes e tocará com os seus dedos a vastidão do passado e a lonjura do futuro. É o que me proponho fazer.
Não tenho melhor introdução que o subtítulo em epígrafe. Todo o Povo tem a sua história. Longa ou breve, todos a têm. E quantas vezes é um Povo pequeno (ou o que o mundo assim considera) quem tem uma história maior!  O que há – copiando Fernando Pessoa no paralelismo que fez da Vénus de Milo e do binómio de Newton – o que há é pouca gente que dê por isso. E isso, para mal de todos, é o que corre na praça. Particularmente nas festas populares, em que se esgota o ritual na vulgaridade, no estouro ululante  a afrontar as orelhas dos mortais  e as nuvens quietas, enfim, a alienação suave como droga leve que não mata mas anestesia as multidões.
Na mensagem anterior anunciei um dos momentos altos de um Povo que o mundo ignaro considera povo baixo. A anunciação da Festa neste rincão suburbano de Machico contou com milhares de olhos - e oxalá tivesse penetrado na mente de quem dela teve notícia.
Cumpriu-se a História – com maiúscula! – a  deste Povo rural que  há 324 anos viu alevantar-se o seu monumento mais apelativo, na altura polo aglutinador de uma comunidade de “servos da gleba” curvados ao jugo dos senhorios: foi a vetusta Capela da Senhora do Amparo, mandada construir por Francisco Dias Franco nos idos de 1692. Diante do alçado frontal do pequeno templo, foi exaltado o património cultual da população da Ribeira Seca que, por ser tricentenário, está acima da  pré-centenária  Cova da Iria e das bicentenárias Senhora de Lourdes, em França, e   Senhor dos Milagres, em Machico. Não é, portanto, a gordura das superstições ou a manipulação das gentes que torna grande um Povo, no seu significado mais íntimo e num passado comum, como direi no final deste texto.
Mas a Festa cumpriu-se. Com descontracção e júbilo, mas também com conhecimento. No discurso da celebração litúrgica, o  Padre Mário Tavares Figueira,  historiou o lugar do Homem na visão holística do mundo, a partir da sensibilidade universalista  do “Guardador de Rebanhos”. No palco, também se cumpriu a História, no espectáculo de  crianças, jovens e adultos  desfilando as cantigas e bailados originais, evocativos dos passos mais marcantes da vida deste Povo.
         Mas não se ficou por aqui o guião existencial dos habitantes da  Ribeira Seca. Recordou-se a época de Quinhentos, nos alvores do povoamento, quando neste vale, incrustado no grande vale de Machico, se desenvolveu o cultivo da matéria prima para colorir os tecidos. É então aqui  que surge o nome de um famoso comerciante italiano, Paulo da Noia,  que fez proliferar as plantas produtoras do pastel,  afim de proporcionar matéria-prima para a indústria tintureira. Era produto de luxo e tão próspero  o negócio que  o próprio Rei D: Manuel I  incidiu tributos avultados, por parte de Paulo da Noia, em benefício da Coroa.
         Para surpresa geral, tive oportunidade de desenhar perante a população presente este tríptico sócio-económico-cultural – Paulo da Noia, pastel, indústria tintureira – fazendo-o coincidir com a nomenclatura, desde tempos imemoriais, de três sítios da Ribeira Seca: a Noia, o Pastel e o Tintureiro, todos justapostos na zona nor-nordeste do território “ribeirense”. As reminiscências ainda vivas da era de Quinhentos e a memória tricentenária da Capela do Amparo, orago da actual circunscrição religiosa da Ribeira Seca,  vieram sobredoirar a Festa, subvencionando aos participantes, a par da alegria contagiante, um acréscimo cultural de imprescindível relevância para a psicologia de um Povo que, embora pisado e excluído da roda dos grandes, tem um passado maior, no seu conteúdo factual , mas  sobretudo como estímulo para as gerações de hoje e de amanhã, afim de continuarem a escrever as páginas do Futuro, assim como as gerações de outrora deixaram escrita a História que nos foi legada.
Mais uma vez, no Ano CCCXXIV cumpriu-se a História!
E voltaremos a cumpri-la no Ano CCCXXV, a próxima Festa do Amparo, em 2017.

11.Set.16

Martins Júnior