segunda-feira, 19 de setembro de 2016

DIA DE ANO NOVO NA MADEIRA – Alvíssaras pelo novo ano escolar!

        
        Também pensei  ajuntar o subtítulo “A primavera voltou  no Outono”. Olhando para os mais novinhos, até lembram o chilrear da passarada pousando timidamente sobre o chão cinzento dos pátios  escolares.
         Será  tudo isto e muito mais o que estava anunciado por toda essa ilha fora,  incluindo o Porto Santo. Um dia grande e um Grande Dia! Quantos de nós sentimos o convite – e, mais que convite, o apelo – de demorar o nosso olhar, pouco que fosse, diante dessa revoada saltitante de milhares de crianças, adolescentes e jovens ( 48.000, dizem as estatísticas) e apreender-lhe o imenso mundo circular que se esconde por detrás da ribalta do palco aberto deste 19 de Setembro?!... Certamente milhares ou milhões ficarão presos, hoje à noite,  nos estádios de luz e  sombras dos televisores, devorando avidamente os volteios e rodeios do esférico de couro que não tem sentimentos  nem autonomia. Mas  o dia de hoje é maior, mais belo, mais emotivo que as piruetas fugazes de uma hora e meia de entretenimento. Chamo-lhe DIA DE ANO NOVO NA MADEIRA!  Porque é todo o mundo, é toda a história do amanhã, é toda a vida que recomeça. E re-começar é partir de novo, com redobrado ânimo e sobredourada esperança no futuro.
Abeiro-me do varandim que dá para aquela escola – quando digo aquela escola quero dizer todas as escolas. E fico expectante com um misto de sonho em chama e, ao mesmo tempo, de arrepiante pavor de mergulhar naquele lago dos novos inquilinos que ali chegam. Corajosamente seguro-me no parapeito  do terraço   e  que vejo eu?
      Naquelas crianças buliçosas toco a candura da flor que se abre ao sol… leio os cromossomas hereditários dos progenitores… deparo-me com as arestas assimétricas da sociedade, com as carências congénitas de umas famílias  e os  saudáveis ambientes de outras… consigo lobrigar a ingenuidade pura dos infantis caloiros e os instintos desviantes de “veteranos”,  prontos a envenenar o ar que os incautos respiram… entontece-me a vista e o cérebro ver aquela babilónia desigual em turbilhão massificado… o transplante de “bebés” arrancados à família e à sua anterior  sala de aula que ficou vazia… incomoda-me a sensibilidade (ou a falta dela) de pais e responsáveis que vêem na reabertura do ano lectivo o alívio de quem entra em férias domésticas… E à pergunta “que vão ali fazer aqueles milhares de seres humanos?”, adivinhar o eco imediato da resposta: “estão ali para aprender o  Código da Grande Estrada da Vida”… Tudo isto me faz entender que estou (estamos) perante o “macrocosmos” da história do futuro. Tratados de sociologia, hereditariedade, economia, psicanálise, pedagogia, história de civilizações ---  está tudo ali!
E como reagem os adultos perante a vastidão e complexidade deste caleidoscópio humano ? – eis o meu maior pesadelo. Chega o “dono” do prédio, (chamam-lhe secretário) enfatuado de proa e com  ar afivelado, espera as ensaiadas palmas dos seus “feitores” e, sem uma nesga de sensibilidade, passa sobre todo este campo de flores, como um tractor sobre calhaus amorfos. E manda, austero,  corta salas, desertifica os centros rurais, divide cabeças de alunos pelo coeficiente compulsivo de cabeças de tais ou quais professores, encaixota-os em armazéns superlotados, impõe programas descarnados, talhados nos subterrâneos da vida concreta e, por fim, obriga professores ( também eles, pais e mães) a formatar flores primaveris  até fazê-las autómatas, máquinas de calcular, sem alegria, sem autonomia, sem saúde global.
O que trago escrito no parágrafo anterior  pode (e deve!) encontrar, de uma forma explícita e mais impressiva, em artigo publicado no “Funchal-Notícias”, da autoria do Prof. André Escórcio. Aí, numa linguagem que só  fala quem “tem um saber de experiência feito”, encontrará um repositório exaustivo sobre a renovação necessária de todo o sistema educativo. Obrigado, Professor!   
No entanto, hoje é dia de festa e o sol nasce na fímbria do horizonte.
 Mas a festa só haverá quando interiorizarmos  nós, os adultos,  a verdadeira semântica do primeiro dia da reabertura das aulas.. Ela é maior e, de longe, mais determinativa que os fogos fátuos dos foguetes que rompem a noite de São Silvestre.  Para toda a comunidade escolar, votos infinitos de empenho e amor à Nobre Causa de erguer Homens e Mulheres do amanhã!
Por isso,  para a construção do Futuro que sonhámos,  escrevo – e repito - HOJE É DIA DE ANO NOVO NA MADEIRA.

19.Set.16
Martins Júnior