sábado, 17 de setembro de 2016

HERÓIS VIVOS…”MAIS DO QUE PROMETIA A FORÇA HUMANA"

Era um poema de Sofia…era uma sinfonia de Mozart,, uma escultura de Rodin, um quadro de Rembrandt… era tudo isso e muito mais que eu queria plasmar nesta noite tropical.  Estando aqui perto, também estou lá longe, no Rio, em Guanabara, no apoteótico Maracanã.
E o poema é a dança em espiral dos corpos ondulantes… a sinfonia é o ritmo cadenciado de quem corre ligeiro nas pistas do estádio… a escultura é a bola multicolor do voleibol sentado, enfim, o quadro é o Olimpo dos deuses onde brilham como coroas de estrelas todos aqueles que souberam mudar a fatalidade  em oportunidade, fizeram do seu pranto um cântico de magia…  e  o que fora uma inexorável descida aos abismos transformaram num voo triunfal directo às alturas!
           Olho os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro. E  penetram em mim duas correntes  de ar puro – uma, fria de gelar e a outra, quente de sonhar. Num relance superficial e fugaz estremeço perante os corpos que desfilam,  fisicamente  diminuídos, parcialmente  amputados daquela pujança homérica  dos corpos perfeitos. Um deles poderia ser o meu… Mas no decurso do certame, uma onda maior traz-me o calor contagiante do quanto pode a força humana, sacode-me os neurónios o milagre vivo – mais um! – da energia anímica que dá asas aos membros decepados e faz abrir dentro de nós a fonte da esperança renascida, daquela que não se deixa enrodilhar na manta escura do desânimo, senão mesmo da depressão sem retorno. Confesso que me enternecem e, ao mesmo tempo, me alavancam o subconsciente latente activo as diversas provas em que participam os heróis paralímpicos. Chamo HERÓIS, estes maiores que os outros que os precederam. nos  JO/16.  Porque foi preciso um poder cerebral muito maior  e uma vontade indómita para superar os obstáculos das fatalidades supervenientes no dealbar da juventude. Bem andou, pois,  o governo português fazendo-se representar pelo ministro Tiago Brandão Rodrigues e pela Secretária de Estado da Inclusão das Pessoas com deficiência, Ana Sofia Antunes, a primeira governante invisual do país.
Mais vasto, porém, é o mundo dos Paralímpicos de outras esferas do saber humano. Trago ao universal Maracanã da História tantos outros que investiram o melhor de si próprios, “mais do que prometia a força humana” (Lusíadas, Canto I). Nas praias da Grécia Antiga lá estava Demóstenes, tartamudo de nascença, metendo calhaus na boca para vencer a gaguez e  tornar-se mais tarde  no Príncipe da Oratória Helénica. Vejo passar Beethoven que, no tormento da surdez, compôs a magnífica “Quinta Sinfonia”. Penso no poeta Jorge Luis Borges, cuja cegueira lhe abriu paisagens infinitas. Dou mais uns passos e, aí perto no Brasil, contemplo em 1972, extasiado e mudo,  (estou a vê-las) as estátuas monumentais em pedra-sabão que os braços paralisados do “Alejadinho” (António Francisco de Lisboa), filho de mãe escrava e atacado de doença degenerativa fatal,   deixaram imortalizadas, desde o séc.XVIII, no átrio do templo de Congonhas, São José do Ouro Preto. Actualmente, emerge, sem sombra de dúvida, o conhecido físico e cosmólogo britânico Stephen Hawking, a quem a esclerose lateral amiotrófica não impediu de alcançar o topo dos cientistas vivos.
         E aqui na Madeira, vejo o nosso dramaturgo Baltazar Dias que, mesmo pobre e cego, nos legou, desde  o séc.XVI, as peças de teatro, sobretudo os Autos, largamente representados em Portugal e no Brasil.             Mais forte e impressivo, porque junto de nós, aqui e agora, agiganta-se, como um facho olímpico, a beleza coreográfica do “DANÇANDO COM  A DIFERENÇA””,  do grande criativo Henrique Amoedo, benemérito da Ilha, que ajudou a vencer barreiras inatas e projectá-las em espectáculos de estética impar correndo mundo!
É incomensurável o estádio dos  Paralímpicos ao longo da História, inesgotáveis são as suas pistas, indescritíveis os seus segredos energéticos. Por isso, curvo-me, emocionado e, mais do que isso, agradeço, o mundo inteiro agradece e irresistivelmente interioriza a lição memorável dos Heróis – Todos, particularmente Os Não Medalhados – Paralímpicos/16, deuses do Olimpo regenerador dos nossos tempos!

17.Set.16
Martins Júnior