sexta-feira, 23 de setembro de 2016

PAZ DE PAPEL vs. PAZ DE CORPO E ALMA


Nunca a Paz viajou tanto,  como na semana que acabámos de viver. Em aeroplanos vip, a abóbada planetária viu cruzar-se no firmamento azul do seu seio a branca pomba da Paz pousada nas asas  dos aviões-de-bandeira.  Foi a Assembleia das Nações Unidas, foi a Assembleia inter-religiosa em Assis, foi a Conferencia de Bratislava, foi o Acordo de cessar-fogo na Síria e outros "sínodos" político-religiosos, desde Nova York a Paris, desde Assis ao Médio Oriente e, ainda no coração da América Latina. Se acrescentarmos  a apoteose de braços e cores dos Jogos Olímpicos, dir-se-ia que estamos no melhor dos mundos, no advento da Pax  Universalis, pomposamente lavrada e autenticada em sumptuosos salões.  
  Mas as juras de amor fraterno não fazem a viagem de retorno, quase sempre não passam dos pergaminhos que ficaram ciosamente embalsamados no berço onde nasceram, tal como  a primeira pedra enterrada no terreno expropriado para projectos que nunca de lá sairão. Caso mais fremente não há do que a pax síria, onde a fé muçulmana de El Assad versus rebeldes de Alepo  se embrulha nas “fés” russo-americana, ambas de sentido radicalmente oposto,  para fabricarem as bombas que tudo destroem e matam vítimas indefesas. É que ninguém quer abdicar dos seus paiós, uns capciosamente camuflados, outros ostensivamente abertos, sejam as finanças, sejam as alianças espúrias, as hegemonias, sejam enfim  as armas – a que  tudo se reconduz.
Esta breve reflexão serve para  pôr ao rubro o contraste entre as encenações  vistosas  dos “teatros  da paz” ( leia-se “teatro de guerra”) e os caminhos e as veredas pedregosas que conduzem à verdadeira Paz, fruto de muito sangue e maior sofrimento de décadas, senão mesmo de séculos. E abro logo os dois cenários contratantes:
Por muito que brade ao mundo o Papa Francisco em Assis de Itália o pregão –  quente e eloquente como nenhum outro! –  do Consenso Mundial sob o sinal da Fé, dificilmente os primeiros destinatários, cardeais, bispos e similares alistar-se-ão na sua generosa cruzada. Digo o mesmo (até com maioria de razão) das 400 religiões que se assentaram na grande Assembleia em terras do Poverello. Porque os magnatas-donos  da religião não estão sós. A fé num  mundo institucionalizado dificilmente se liberta das vestes do poder e dos interesses mundanos. Permitam-me a expressão, mas tenho que dizê-lo: de manhã servem a Deus na liturgia pontifical, mas à tarde e à noite servem o Maligno sentado nas cadeiras dos poderosos. Como pode uma Igreja oficial chinesa, comandada pelo Estado, juntar-se a uma Igreja livre, crística, despida da prepotência dos ditadores? O que trago dito aplica-se exactamente à Igreja Ortodoxa moscovita. E a outras crenças multiplicadas como cogumelos  por esse mundo fora. “Ninguém pode servir a dois senhores”.  Por isso – a não ser que se trate de  gente de Fé inquebrável e assumidamente sacrificial, como nalguns casos, depois proscritos pela aliança Igreja-Governo – sou um céptico, militante descrente de magnas assembleias religiosas em que os tratados de Paz vêm curtidos com as sotainas escarlate dos seus subscritores.  Com quem conta Francisco Papa para a Via Crucis, a caminho do Gólgota,  de onde ressurgirá a “Misericórdia”, o Perdão, o Consenso, os nomes duradouros da Paz?!
. Por outro lado, cruzo-me com  a “Festa da Reconciliação” nas pampas da Colômbia. Cinquenta e dois anos de ódios irreconciliáveis foram definitivamente transformados no abraço impossível para o mundo, mas sentido, amado, proclamado entre os guerrilheiros  camponeses das aldeias e as urbanas tropas governamentais, com o expresso exemplo pessoal do  comandante “Timochenko”, pelas FARC, e o  presidente José Manuel Santos, pela Colômbia.   A “bênção” que selou este milagre foi o sangue  perdidamente derramado  e hoje reconhecido como o percurso definitivo para a concórdia das gerações futuras. Os acordos de Paz não são feitos de papel, mas de homens e mulheres, conscientes, pela dura experiência, de que precisam, não de balas e canhões, mas de pão para a boca e cultura, a tal fé, para o espírito. A gravura-supra bem podia ter por legenda: “Abaixo as armas – Acima a Paz”!
Quererá  qualquer de entre nós, no seu próprio meio,  alistar-se nesta campanha?

25.Set.16

Martins Júnior