sexta-feira, 21 de outubro de 2016

183 VELAS EM CIMA DO BOLO DE DINAMITE – recordando Nobel, o benemérito Mecenas da Humanidade



Quem seria capaz de provar desse bolo?
E quem teria fôlego de apagar uma só vela que fosse, suspeitando que ela lhe rebentasse nos olhos?
No entanto, está meio mundo – e talvez mais -  dependurado no pavio dessa vela e na farinha desse bolo. Não pensem que venho hoje decifrar algum enigma da espionagem clássica, tipo de Sherlock Holmes, ou servir à vossa mesa algum episódio de um estranho “thriller”.
Não. Venho apenas partilhar convosco uma data assinalável: o 183º aniversário de Alfred Nobel, sim, o mesmo que criou o generoso, o prestimoso, o glorioso Prémio Nobel, o cobiçado troféu com o respectivo montante, para o qual se dirigem os olhos da fina-flor dos criadores mundiais. O que, decerto, muita gente desconhece é o “pai da criança”, de tão fenomenal e milionária criança. Inscrevam no vosso catálogo das “Curiosidades” esta prosa que hoje vos trago.
Quem foi Alfredo NOBEL?... Um químico sueco, filho de químico, autodidacta, aventureiro, excêntrico, visionário, idealista profundo, ateu e panteísta. Supermilionário!  E supermilionário, porquê?... Por ter inventado a dinamite. Esse, o seu troféu vitorioso, a sua bandeira mortífera “em prol da Humanidade”! O sucesso financeiro da família Nobel teve o apogeu na guerra da Crimeia (1854-1856) vendendo à Rússia minas submarinas e explosivos militares. Com o fim da guerra, sobreveio-lhe a falência, Percorre, então, a Europa e tenta vender a patente aos banqueiros que, aterrorizados com o  anúncio publicitário  (“o invento é capaz de  destruir o mundo todo”) voltam-lhe as costas. Quem o apoia é o imperador francês Napoleão, a troco de uma avultada fortuna.
No fim da vida, em San Remo, Itália, e a sugestão da mulher, faz a decisiva e histórica doação – orçada em 40 milhões de francos – em testamento datado de 27 de Novembro de 1895 e aberto em 30 de Dezembro de 1896, ano da sua morte.  Inextrincável contradição: ele, “um pacifista, poeta incarnado num homem de negócios”, diz o escritor sueco Gustav  Cellstrom.  E que negócio? – o vil fabricante de armamento! No entanto, no seu testamento deixa todos os rendimentos da imensa fortuna “para serem aplicados na manutenção de cinco prémios anuais destinados a recompensar os benfeitores da Humanidade,  o espírito e a paz nas suas mais sublimes expressões”.
Ficar-me-ia por aqui, deixando campo aberto a quem me acompanha por este meio. Sintetizo a minha ( e nossa, poderei dizer) estupefacção na seguinte exclamação de um seu biógrafo: “Ele, que no século XIX fora o maior inimigo do género humano, esfacelando-o com os seus terríveis explosivos, acaba por mostrar-se o seu maior amigo”!
Dá que pensar esta constatação quase desconhecida, de tão pouco lembrada. Teria sido arrebatado o químico sueco, já perto de morrer, por um inelutável rebate de consciência e tentado remediar com volumoso cheque bancário os crimes humanitários que cometeu com o fabrico de  armas assassinas?
Tenho para mim que muitos dos laureados, sobretudo com o Prémio Nobel da Paz, sentirão  escorrer ainda nas mãos vestígios do sangue de milhares de vítimas tombadas - no passado, no presente e no futuro – pelos fabricantes de armamento.
E o meu pensamento discorre e aperta-se-me perante tantos magnatas das finanças que, por descargo de consciência ou ambição de fama, apresentam-se como Mecenas da Humanidade, com doações e fundações que mais não são que o ressarcimento (tardio demais!) pela exploração danosa e cruel que infligiram às gerações anteriores.  Em vez de generosas caridades de hoje, não seria  melhor ter pago o justo salário e as necessárias indemnizações àqueles que directamente trabalharam para tamanhas fortunas?... Lembro-me aqui do nosso arguto Almeida Garrett: “Quantos pobres serão precisos para fazer um rico”?...
Em todo o caso, cantemos os parabéns sobre as 183 velas do aniversário de Alfredo Nobel. E de todos os Gulbenkian’s, Champalimaud’s, Rockefeller’s, que os há em todo o mundo. Para bem da Humanidade. Maior bem, contudo,  seria o da “Justiça na hora” – e não ao retardador. Só leis justas farão o mundo justo. Aqui e agora!

21.Out.16
Martins Júnior