segunda-feira, 17 de outubro de 2016

COCA, PEPSI E IGREJA


Se há temas que suscitam mais impressivamente o confronto na praça pública é quando a questão social vem à ribalta pela voz de alguém ligado à Igreja. Aí é o campo de guerra, onde  não há tácticas nem evasivas de espécie alguma: uns abraçam apaixonadamente, outros atiram-se numa fúria cega contra  o “pregador”,  tal como  a raiva irracional do touro diante do pano vermelho. É o que se tem visto, de alto a baixo, no tablado da vida.  Aqui e mais além. A título de exemplo, procurei na net as opiniões  sobre o vibrante apelo do bispo Angélico Sândalo Bernardino, citado no meu escrito anterior, e confirmei, de um lado, o aplauso do povo crente  e, do outro, o ataque feroz de certos clérigos – a pele anémica à roda de uns olhos furibundos –  vociferando, de código canónico na mão, contra o ilustre ancião Angélico Sândalo, sem o mínimo escrúpulo de atirar-lhe em  rosto a foice e o martelo de “comunista”.
         É sempre assim. No meio de tanta ‘histeria religiosa’, coloca-se-me diante dos olhos esta incontornável pergunta: Porquê tanto descontrolo, tanta praga, tanto anátema quando alguém aborda com realismo a missão da Igreja face aos desequilíbrios sociais do nosso tempo?... E a pergunta avoluma-se em tom mais agudo e lancinante, sobretudo hoje, 17 de Outubro,  “Dia Mundial da Erradicação da Pobreza”.
Velha e ponderosa questão que vem de longe e para longe vai, desde que há humanos sobre o planeta e que só se extinguirá quando definitivamente  sair de cena o último habitante terráqueo! Incontáveis são as prestações filosófico-teológicas, os argumentos, as proclamações “urbi et orbi” que se têm multiplicado sobre o tema, Na minha mesa de trabalho, tenho diante de mim, neste momento, nada menos que vinte volumes de autores diversos, desde Leonardo Boff (Grito da Terra, Grito dos Pobes) até Albert Gelin (Les Pauvres de Yahvh). Após consulta acurada, venho a ancorar o pensamento neste ponto de chegada que é, simultaneamente, o ponto de partida:
A história do mundo desenha-se  na arena encarniçada, onde frente-a-frente, degladiam-se interesses conflituantes que, no  limite, se resumem à luta do esquadrão dos poderosos contra a multidão dos pobres,  párias abandonados à sua sorte, sem hipótese de vitória: a dignidade e a igualdade de oportunidades.
O combate feroz vem do princípio do mundo: o astuto Caim contra o justo e frágil Abel, assassinado pelo próprio irmão, sem ter ninguém que lhe valesse. No mundo de hoje, os descendentes de Caim não pararam de construir o império do mais forte sobre o mais fraco: latifúndios, castelos, canhões e “offshores”,  “bunckers” e paióis. Mas quem aparece a defender os degradados “herdeiros” do justo Abel, os operários, os sem-terra, os servos da gleba, os escravos, os refugiados?... Com quem poderão estes contar para fazer ouvir os seus gemidos e protestos?... Os Estados, que só se aferram ao poder… os armeiros, cujo objectivo é a terra queimada… os banqueiros de alma feita de metal sonante…  os clubes “suciais” dependurados nos subsídios dos governos… os medrosos, quando não mafiosos, devotos que se acoitam debaixo do burel piedoso… as multinacionais,  “que aos pobres  dão um chouriço para lhes sacarem um porco” ????... Leio em El País que a Coca y Pepsi, para aumentar as vendas, financiam ao mesmo tempo organizações que recomendam a redução do açúcar nas bebidas. Requinte de cinismo – comenta o autor.
 Só uma autoridade digna, imune às ambições do poder, desinibida e livre de sair à rua, sem medo de perder as benesses e as boas-graças dos magnatas governantes – alguém, tocado pelo timbre dos verdadeiros heróis, prontos a dar a vida pela sua palavra,  gente de espírito e sensibilidade. Esse Alguém é a Igreja de Cristo. Não o tabernáculo dourado dos homens. E sim a grande cúpula reservada aos que, nada  tendo nas mãos, trazem a alma cheia da maior riqueza que o mundo ruim desconhece: dar a vida pela Justiça e pela Verdade. Erradicar a pobreza!
Os que propugnam  o espectáculo deslumbrante e, por via disso,  não querem  uma Igreja reduzida aos muros do templo e da sacristia, são os mesmos que não deixam, amaldiçoam até, uma Igreja autêntica que sai à rua em defesa da justa repartição do bem comum.  Mas se lhes tocarem nas subvenções aos  colégios, “Aqui d’El Rei”, vamos, criancinhas,  à Cruzada contra os Infiéis!
Preferem na rua os pendões, as velas, as procissões arrebanhadas, movidas a vapor  sem chama, porque manipuladas e anestesiadas, cantando alegremente enquanto pisam o asfalto negro, que me traz à mente o símbolo  das  vítimas que sucumbem aos “bulldozers” dos justiceiros-senhores do mundo.
Chega de uma “Igreja-Coca-Cola”!
  
17.Out.16
Martins júnior