domingo, 9 de outubro de 2016

MACHICO - NESTE SEU DIA - ESTÁ EM FESTA


Bem sei que há outros assuntos de maior projecção no horizonte do mundo actual e, daí, de superior e abrangente mais-valia para a comunidade global. Mas não podia deixar em branco este dia, pelo peso histórico daquele que foi o Pórtico das Descobertas da era quinhentista e, mais intensivamente, pelo que falta escrever no roteiro futuro deste concelho. O mote, quem fundamentadamente o deu foi o Secretário
Regional Sérgio Marques, quando iniciou o seu discurso:  “Se há lugar que se possa chamar berço da Madeira é Machico e a sua baía”.
Na mesma linha e obedecendo às minhas raízes, escrevo este afectivo  “auto de notícia”,  saboreando aquela quadra de sabor tipicamente popular, até na (des)concordância gramatical:
                            Sou daqui, não sou dali
                            A minha terra não nego
                             Minha terra é  Machico
                             Onde os meus olhos navego

É, pois, um tributo à terra-mãe este feixe de notas, em forma de reportagem para memória futura. Refiro-me, tão-só, à efeméride “Dia do Concelho”, deixando para o foro íntimo de cada crente a celebração religiosa do “Dia do Senhor dos Milagres”.  E o miradouro de onde melhor se avista este dia é a sessão solene, cujas intervenções reflectem o palpitar do coração de Machico  no panorama ecléctico - leia-se, democrático - dos intervenientes, enquanto legítimos representantes da população.
Logo à partida, será justo assinalar a retoma de uma tradição iniciada pelo signatário destas linhas: libertar dos recintos fechados e reservados a pseudo-élites a comemoração e devolvê-la ao grande público num amplo espaço aberto, neste caso, os jardins do Solar do Ribeirinho, de ancestrais pergaminhos da nossa história local.
Identificando-se com esta abertura social, é da maior relevância democrática a iniciativa do actual “Corpus” autárquico em dar a palavra a todas as formações partidárias com assento na Assembleia Municipal – este, um gesto nobre e um direito indeclinável que, durante quase 40 anos, foram negados  até na própria Assembleia Legislativa Regional da Madeira. Mais uma vez, Machico foi pioneiro nesta marcha para a Democracia plena que motivou da parte do deputado, representante do CDS-PP,  um rasgado elogio ao presidente da Assembleia Municipal.
No domínio das intervenções, apraz-me salientar o discurso de Alberto Olim, presidente da Junta de Freguesia  e deputado municipal pelo PS, que levantou uma esperançosa onda de força e optimismo, rumo ao futuro do concelho, convocando para isso todos os responsáveis a entrar na mesma nau de compromisso em prol de Machico.
A dialéctica político-operacional coube aos dois representantes, cujas formações partidárias  (PSD-PS) têm alternado na gestão camarária. Sem sombra de dúvida, o extenso – mas excelente - discurso de Ricardo Franco, presidente do município, marcou o solene evento,  exercendo ali  o seu magistério  de líder e pedagogo e explanando, ponto por ponto, o estado das finanças e os planos de acção, os já vencidos e os vincendos.
 Coube a Sérgio Marques, em nome do governo regional, trazer a boa-nova do Funchal, anunciando obras no concelho, no valor de 15 milhões,  para o próximo ano. Sendo pública e notória a reiterada retaliação dos governos da Quinta Vigia em relação a Machico, as promessas douradas trazidas hoje à ribalta do “Dia do Concelho” dificilmente escamoteavam objectivos eleitoralistas, o que, no fim da sessão e em ambiente cordial,  fez-me observar ao orador: “Com que então, Senhor Secretário, para o ano o ‘Senhor dos Milagres’ vem mais cedo: antes  das eleições”…
A encerrar, o Representante da República para a Madeira, Ireneu Barreto, muito pertinentemente julgou, do alto da sua cátedra de juiz, o Povo de Machico, cognominando-o  de “gente rebelde” e porfiada na defesa da sua dignidade, citando como paradigma das gerações vindouras o grande Francisco Álvares de Nóbrega, “Camões Pequeno”, paladino dos ideais do seu e de todos os tempos: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.
Enfim, uma rara manhã de sol primaveril em pleno outono, que culminou com a entrega de insígnias aos trabalhadores que, por limite de idade, terminaram funções. Neste item, será justo relevar a oportuna homenagem à Banda Municipal de Machico, na pessoa do seu director, professor Manuel Spínola, pela comemoração, em 1 de Novembro p.f., dos 120 anos de serviço à cultura de Machico e da Madeira. Merecido preito de louvor a uma colectividade que continua sempre segura da sua missão e sempre revigorada com novos executantes! Esta aclamação da Banda Municipal de Machico, por parte  da edilidade, ganha tanto mais brilho e sentido quanto se sabe da marginalização (que eu considero tribal e criminosa) a que tem sido votada pela instituição eclesiástica local e diocesana, numa outra mostra de “racismo” unilateral,  arcaico e deseducativo  para toda a população. Enfim, infantil e ridículo.


Impossível esquecer a aragem musical,  fresca e matinal, do coro infantil das “Flores de Maio” do Porto da Cruz, a quem o nosso exímio Grupo Coral de Machico deu lugar, na abertura e no encerramento da sessão solene  -  prova inequívoca de descentralização e abrangência cultural, onde todas as freguesias têm assento por direito próprio.
Longe vai este apontamento de reportagem para memória futura. Entretanto, permitam-me expressar um voto que me parece correcto e útil. Faço-o através de uma pergunta: “Quando chegará o dia em que o ‘Dia do Concelho’ seja colocado no seu  pedestal autónomo e condigno? É que a história de Machico  é mais profunda e antiga que os 213 anos da trágica  aluvião de 1803, origem do “Dia dos Milagres”.  Machico  está à beira dos 600 anos de afirmação na historiografia regional e nacional. É uma velha questão que, na metodologia sociológica que vislumbro, bem poderia ser solucionada, para bem de todos. Por motivos históricos e por outros considerandos que não cabem nesta já longa nota evocativa.
Não me apetecia terminar. Porque quem ama verdadeiramente não se cansa de amar:  a sua terra, a sua história, a sua gente. Como denominador comum de tudo o que foi condensado na sessão comemorativa de hoje, ficou bem escrita, ao longo dos discursos, a melhor e mais bela investidura que Machico merece: “Machico, Terra de Abril”!

        09.Out.16
      Martins Júnior