quinta-feira, 13 de outubro de 2016

“MISSÃO IMPOSSÍVEL” PARA UM FUTURO NOBEL DA PAZ – Ele passou por aqui!


Imperdoável seria deixar bater as vinte e quatro badaladas deste 13 de Outubro sem convidar para o coração da nossa cidade o aclamado hoje, em Nova Iork, Secretário Geral das Nações Unidas, António Guterres. Não pelo patrioteiro rótulo de ser português, mas pelo clarão de esperança que ele traz ao mundo. Antes de chegar à magna Assembleia da ONU, já ele passara por cá, como a foto documenta.
Mais que palmas e panegíricos, apraz-me reter desta aclamação as ilações que dela derivam.
Primeiro, a oportunidade de ouro, sabiamente aproveitada pelos países eleitores para prestigiar a Sociedade das Nações, numa altura periclitante em que  ia resvalando  na mais repugnante promiscuidade de interesses, quando a Srª Merkel atirou para a cena a candidata Kristalina Georgieva. Felizmente a transparência e a honestidade impuseram-se aos oportunismos nacionalistas.
      Já foram internacionalmente elencados os altos predicados de António Guterres que o tornaram o supremo candidato ao majestoso trono para que foi eleito. Eloquentes foram as duas palavras com que subiu à tribuna: “Humildade e gratidão”. Relevo, porém, a primeira. Se este deve ser o estado de alma de quem é designado para o mais  modesto pódio de uma autarquia, junta, câmara, governo regional ou nacional, quanto mais para quem lhe cai aos ombros toda a estrutura do planeta. Não é apenas de finanças que lhe impende a responsabilidade, nem da fome, nem da saúde, nem das alterações climáticas, nem da crise identitária, nem da religião, nem dos conflitos rácicos, nem das multinacionais. É de tudo  isso, ao mesmo tempo  que  será amassado o seu pão-de-cada-dia. Podem cognominá-lo de “Senhor dos Anéis”, Dono do Mundo, Juiz das Nações. Mas nada disso o conforta ou acende sequer um lampejo de dominadora ambição. O conteúdo funcional e final de cinco anos de mandato é o de um Arcanjo Pacificador, quase que um  Extra-terrestre,  que irrompe entre as hostes do ódio e da guerra e aí serena ventos e furacões, cala as armas e transforma-as em altifalantes da Paz.
         O quanto de labor insano, dias e noites aos pés de guerrilheiros e refugiados, o quanto de paciência expectante e, aí, frustradas expectativas, enfim, uma odisseia imparável que nem uma vida inteira seria capaz de levar a bom porto! A diplomacia, com toda a habilidade que lhe é reconhecida,  não vai chegar. Virão os meridianos inultrapassáveis em que será inadiável fazer opções, decidir. E é neste nó crítico – a hora de decidir - que, dizem os analistas, Guterres não brilha. Abandonou o poder, quando Primeiro-Ministro, antes que  Portugal se tornasse num “pântano”, disse então.  Mas o que ele vai encontrar não é um pântano, mas um bravio vulcão incandescente. E não queremos vê-lo no papel intransitivo de um Ban Ki-moon ou nas diplomáticas indefinições de um  Kofi Annan. Segundo a visão dos especialistas internacionais, assumir-se como  Secretário Das Nações Unidas é, hoje, muito mais problemático e penoso que nos tempos da Guerra-Fria, em que o mundo estava identificado no confronto de dois blocos: URSS e EUA. Não assim, agora, porque os focos de rebelião deixaram de ser entre duas potências, para se tornarem em guerras regionais, conflitos dispersos no terreno, reacendendo-se em locais antes imprevisíveis.
         Restam-nos as auspiciosas qualificações que vêm de longe, desde os tempos de estudante universitário em que ocupava as férias no apoio aos bairros da periferia lisboeta. Conforta-nos a simpatia do Papa Francisco  com esta eleição. Tenho para mim que António Guterres será o braço civil do Papa Francisco, o seu estratega operativo no mundo actual. Será ele, António Guterres, no final do mandato, o mais convincente Prémio Nobel da Paz.
         Quando chegar esse dia, Machico poderá aclamar e proclamar: ELE ESTEVE AQUI, no coração da nossa cidade!

         13.Out.16
         Martins Júnior