terça-feira, 11 de outubro de 2016

O GENERAL, O PROFETA E O MERCENÁRIO – Um filme desde a Síria de há 3.000 anos até à ilha de hoje


       Foi deslumbrante, de 8 para 9 de Outubro, ver a noite em Machico transfigurada pelas luminárias, tantas, que até ofuscaram a rede pública da Empresa de Electricidade. Lembram, todos os anos, os nocturnos da longínqua idade medieval, povoada de fantasmas e mistérios. Mas o epicentro de toda essa galáxia de cera mole foi a palavra redonda, redonda e vermelha, vermelha, da cor da túnica oriental, saída  do “sol” diocesano: Bem vindos vós, romeiros, que viestes pagar ao Senhor dos Milagres as vossas promessas.
         Nesse mesmo domingo, 9 de Outubro, anteontem, as leituras bíblicas desdobravam diante dos nossos olhos um filme heróico e comovente: a cura do comandante-em-chefe das Forças Armadas da Síria (lá, onde hoje agoniza a martirizada Alepo) o general Naamã. Vem no 2º Livro dos Reis, capítulo V.  Tentarei resumi-la neste breve (?) esboço, de uma possível peça de teatro.  
  
ACTO  I
Sala escura, cheirando a carne moída e malsã.  Ao fundo, encovado no divã,  jaz Naamã, com a lepra a tomar conta dos braços e do rosto. Entra o lugar-tenente.

 LUGAR-TENENTE
Mau general, acabou-se a maldição. Cedo serás livre da fatal doença, se fores ter a Israel com um tal Eliseu,  o homem  de  Deus. Profeta e curandeiro.

NAAMÃ
Juro que não irei a Israel. Será esse profeta maior e mais sábio que os físicos do nosso Império Sírio? Não vou

LUGAR.TENENTE
Tente V.Senhoria, meu general. Toda a corte irá consigo.

ACTO II
     Santuário de Ihaveh: um humilde casebre onde se acoita Eliseu. Na liteira, suportada por quatro eunucas da corte, entra  o general, suplicante.

ELISEU
Não fales mais. Tem confiança. Vai mais além,  ao rio Jordão e mergulha sete vezes.

NAAMÃ dando ordem de retirada aos eunucos
Juro que não vou. Temos na Síria rios mais famosos que esse reato Jordão de Israel. Não vou.

LUGAR-TENENTE
Nosso general, atenda a este vosso servo. Siga o caminho do homem de Deus.

NAAMÃ
Não vou. Esperava eu que esse profeta fizesse oração, que me deitasse a bênção a este corpo que se desfaz. E manda-me lavar ao rio! Está dito, não vou. Palavra de general.

LUGAR-TENENTE
Por vós, Senhor. Pelo poderoso exército sírio. Por todo o povo do nosso reino. Vamos todos. Avante, eunucos.

ACTO III
Rio Jordão. Manhã clara, sol de primavera. Aias e eunucos envolvem o corpo de Naamã, pousam-no na margem do rio que, entretanto, o  afasta para o leito da corrente mansa. Mergulha uma vez. E outra. E a terceira. Na ponte do rio, a comitiva agita-se, ansiosa, num crescente entusiasmo.

VOZES
Será possível? …Que vemos nós?...  A carne toma cor… os braços a abrir. Outro mergulho. E mais dois. E com que energia estranha! … Só falta mais um… E já nada sozinho. Palmas, hossanas ao Profeta de Deus, ao Deus de Israel.

AS AIAS
Quero ser a primeira a tocá-lo… E eu quero beijar aquela pele, agora macia e leve como uma criança recém-nascida.
Naamã sai das águas do rio. Parece acordar de um sonho. As aias e os subalternos trazem vestes novas, limpas, reluzentes. Todos gritam de alegria incontida.

NAAMÃ  
Fora de si, instintivamente  ajoelha, ergue os braços ao alto

Não há outro Deus, senão Iahweh de Israel. Levantemo-nos todos, vamos ao santuário de Eliseu. Trazei-me os cofres das moedas de ouro, os sacos das moedas de prata, as vestes especiosas do mais rico tecido  de Damasco.

ACTO  IV

Casebre-santuário de Eliseu. Ao chão térreo chega, primeiro, Naamã.  Depois, todo o seu séquito, as aias, os eunucos que deixaram fora a liteira, o lugar-tenente. Manda aos oficiais subalternos que  tragam  os presente. Há vivas e cantares. Prostrado por terra, o general, em altos brados, diante de Eliseu.

NAAMÃ
Jamais curvarei meu corpo diante de outros deuses.  A Iahweh, o Deus de Israel adorarei e só a Ele para sempre servirei.  (Sem parar, fala a Eliseu). Profeta de Deus, eu te saúdo e dou-te graças. Rogo-te que dês a este teu servo o dom de aceitares estes presentes que te trago.

ELISEU – dando as mãos a Naamã.
Pelo Deus vivo que tenho servido, sou eu agora que te juro: Não aceitarei, seja o que for que trouxeres. Levanta-te, segue o teu caminho, cumpre os mandamentos do Deus de Israel.

NAAMÃ
Não, Profeta de Deus. Eu agora sou o teu vassalo e Iahweh o meu soberano. Só irei em paz para a minha amada Síria, se aceitares estes singelos presentes.

ELISEU
Não aceitarei. Nem eu, nem o meu ajudante Giesi. Está dito. Palavra de Profeta. Segue o teu caminho.

ACTO V

Perante a recusa, o general pede para  transportar um pouco de terra de Israel, para levantar em Damasco um templo ao Deus de Eliseu. A despedida de Naamã e de todo o séquito faz-se entre lágrimas, clamores e cânticos de festa. Entretanto, recolheu-se o Profeta em oração. E Giesi, sempre  atento e de olhar sequiosos em todo o Acto anterior, deixou que a comitiva dobrasse uma das dunas do deserto e, às escondidas de Eliseu, galopou a toda a brida no encalce de Naamã, que mandou parar a sua escolta.  

GIESI
General do Grande Império! Digna-te perdoar a este teu servo… O meu amo e senhor Eliseu acaba de receber em sua casa dois mancebos, filhos de profetas  da montanha de Efraim.  E não tem nada que lhes dar.  Poderá V. Senhoria dispensar uma ou duas porções do presente  que ele recusou?... Iahweh te agradece e o Profeta te abençoa.

NAAMÃ
Viva o Deus de Israel! Aias e eunucos, oficiais meus subalternos, devolvei a Giesi  todo o ouro, toda a prata, as vestes reais e tudo o mais que eu trouxera  ao Profeta.  (Para Giési).  Não te esquecerás de dizer ao teu amo e senhor quanta honra e felicidade  destes  a este seu vassalo e para sempre  sequaz do Deus do Profeta de Israel.

ACTO VI
Giesi, radiante como nunca, depois de guardar ciosamente em casa a fabulosa oferta de Naamã, apresenta-se, nesse fim de tarde, a Eliseu, no templo-casebre onde ficara.

ELISEU
Giesi, dizei-me  por onde andou este meu servo bom e fiel, toda a tarde deste dia.

GIESI
Por lado nenhum, meu amo e senhor

ELISEUEm tom severo e ameaçador.
Pensas, acaso, que o meu coração não foi contigo., quando saíste na tua montada?...  Pensas que eu não te vi receber desse homem riquezas sem conto?... Pensas que o Deus de Israel não te viu quando  as escondeste  em casa?... Recebeste dinheiro e mudas de roupa real em nome do Deus vivo, que eu sirvo!!!
(Giesi, transido de pavor, escondia-se no desvão da escada).

ELISEU(No mesmo tom de voz)
Não fujas, Giesi, hás-de ouvir-me até ao fim. Hás-de saber a sentença que te reserva  Iahweh. Agora, estás rico, riquíssimo. Podes  à vontade comprar terras, vinhas, gados, bois, carneiros. Terás tudo o que Naamã  te  deixou. Mas, ficarás com algo mais. (expressão mais grave e austera). Sim, ficarás com algo mais. Ficarás  com a lepra de Naamã!... Tu e toda a tua geração!

                                   (Cai o pano)
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O texto do 2º Livro dos Reis, capítulo V, versículo 27, termina assim :
“E naquela hora Giesi retirou-se, com o corpo coberto de lepra”.
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 E agora termino eu:
“Vem, Eliseu Profeta de Deus, olha em teu redor e em nosso redor. Hás-de encontrar, decerto,  muitos Giesi’s, locupletados . à custa do Deus de Jesus  e Sua Mãe, comprando quintas e quintais, carros e carruagens, bolsos e bolsas bancárias. Não com o dinheiro de generais, mas com as promessas ‘pagas a Deus’ pelos pobres crentes,  explorados no corpo e na alma”.
 Será que o mundo anda todo leproso sem darmos por isso?!

11.Out.16

Martins Júnior