terça-feira, 25 de outubro de 2016

SEMINÁRIO DE PSICOLOGIA: A INTERVENÇÃO EM MULTIPLOS CONTEXTOS - um Sábado cheio em Machico


Vinte e dois de Outubro, sábado cheio de Machico à procura de si mesmo. Que disse eu?... De Machico?... Mais, muito mais.. Foi um sábado pleno de cada homem e  de cada mulher à descoberta do seu mundo.
         Já me referi na última conversa convosco à obra de arte, sonhada pelo Criador – o efémero e frágil ser humano – em constante confronto dialéctico com o seu Autor, no percurso atribulado da História. Foi a prodigiosa saga cénica da peça “OPUS”.
         Antes disso, porém, passou-se todo o dia a mergulhar nos fundos marinhos, sem termo, da psicologia humana, entre dois polos: o da antiga Grécia, a do filósofo Sócrates (“Gnóti sè autón”- conhece-te a ti próprio) - , e a definição do homem-em-situação (“O homem é aquilo que é, mais a sua circunstância”). A circunstância do lugar, da génese, do temperamento e do carácter, da relação com o outro.
         Este longo e abissal roteiro aconteceu no “Seminário de Psicologia”, desde a manhã até à tarde do último sábado, para os mais de cem participantes, professores, alunos, educadores, que encheram  o nosso  “Forum”. Dou a mão à palmatória pelo cepticismo com que encarei a iniciativa. Nunca pensei que as jovens psicólogas de Machico fossem capazes de tamanho feito. Está visto e comprovado que a descentralização da cultura terá de ser sempre tarefa dos que habitam as periferias  da capital. Esta é a primeira lição.
          Quem compulsar o Programa verá que se tratou de um manual enciclopédico que abarcou matérias tão distintas, na área da Psicologia, destacando-se o melindroso âmbito da “Psicologia Forense e as Perícias Psicológicas”,  na esclarecedora exposição inicial, da responsabilidade do Prof. Dr. Rui Abrunhosa Gonçalves. da Universidade do Minho. Ao mesmo nível, o estudo da “Violência Doméstica, após 20 anos de investigação”, da Prof. Dra. Marlene Matos, da mesma Universidade, desvendou-nos os meandros labirínticos de um sub-mundo cada vez mais a descoberto nos nossos dias, gerador  de chagas sociais, tantas vezes insanáveis e destruidoras de uma sociedade presente e futura, que se pretende feliz e harmoniosa. “A Importância de uma Abordagem  Muitidisciplinar em Saúde Mental, ou a interdependência entre Psicologia e Psiquiatria”, uma dissertação de índole académica, a cargo da Dra. Carla Spínola, médica psiquiatra do Centro Hospitalar de Lisboa Ocidental, abriu-nos as muitas variáveis por que se pautam os nossos comportamentos, confirmando o velho axioma de que “não há doenças, há doentes”.
         Duas classes profissionais estiveram em foco, com o tal “saber de experiência feito” – a do Subcomissário Adelino Camacho, sobre a “Importância da figura do Psicólogo na PSP” e a da Dra. Filipa Oliveira, da UMa, trazendo à colação o síndroma “Bournot” nos profissionais da Educação, ou seja, o depauperamento psíquica do docente, devido à intensividade do espinhoso cargo de ensinar, um drama tão ignorado quanto menosprezado por utentes e responsáveis públicos.
Testemunhos experienciais, ao vivo, completaram um dia inteiro que passou tão rápido, como se de uma hora se tratasse. Neste “item”, atrevi-me a observar que, na grande constelação dos educadores, deveriam figurar os animadores sócio-culturais e religiosos das diversas comunidades locais (ninguém apareceu) visto que, por inerência indissociável da sua acção pastoral, deveriam ali estar, para ouvir, mais que para falar, pois  o saudável crescimento psicossomático do ser humano  - “alma sã em corpo são“ - deve alicerçar-se em conhecimentos científicos e não  em mitos e mèzinhas devocionais.
Bravo, jovens psicólogas que, com o apoio da PSICAF ( Serviço de Psicologia e Avaliação Forense) e da Câmara Municipal de Machico, levastes a cabo tão prestimosa iniciativa, reveladora de um autêntico serviço público!
Queria eu terminar com esta saudação positiva e reconfortante.
Mas não posso. Por dois motivos. 
Primeiro, ao abrir ontem a imprensa diária deparo-me com uma machadada no grande feito de sábado passado: a Secretaria Regional da Educação  retira  os  psicólogos de quatro escolas, deixando dois mil alunos sem apoio. Comentários, para quê? Tome-se  nota: os tripulantes remam para a frente, os comandantes puxam para trás!  Segunda decepção: estranhei a ausência de um representante do governo num acontecimento que primariamente lhe impende. Afinal, mais tarde soube-se particularmente  que  foi convidado, mas recusou porque do Programa não constava a sua intervenção. Arranjem-lhe um pedopsiquiatra, depressa!
Aos organizadores, entusiasticamente  recomendo e aguardo a cereja em cima do bolo: o II Seminário de Psicologia em 2017.

25.Out.16

Martins Júnior