quinta-feira, 3 de novembro de 2016

“COOPERAÇÃO OU COMPETIÇÃO DE GÉNEROS” ? – No dia da Igualdade salarial


Ao evocar hoje o  Dia da Igualdade Salarial entre Homens e Mulheres, está a colocar-se no centro de debate a outra questão, essa estrutural e originária:  a da igualdade de género. A desigualdade salarial (em Portugal, as mulheres têm um salário 16% abaixo dos homens) não é mais que o reflexo do estatuto da Mulher na hierarquia social, tema escaldante nos dias que correm, em virtude da emancipação e afirmação pública da condição feminina.
A subalternização da Mulher já vem de muito longe. Tem raízes milenares   no “Livro” . a Bíblia. A partir do momento em que Moisés, cedendo à mentalidade da época, afirmou categoricamente que Eva foi criada a partir de uma costela de Adão, aí consagrou-se para as civilizações monoteístas do “Livro” a desigualdade de género que perdura até hoje, sobretudo nos meios orientais, onde a escala de valores não deixa margem para dúvida: a Mulher vale apenas uma costela do Homem.
Rios de tinta e “tsunamis” de canhões se arremessaram de um lado para outro da barricada, sendo certo e inequívoco que a própria Mulher, afora raras excepções,  abdicou do seu real direito de conquista à Igualdade. Em muitas circunstâncias (perdoem-me, senhoras) a Mulher é a maior opositora da Mulher nesta luta pela Igualdade. A sensibilidade submissa, a resignação religiosa, o excesso de pudor e, mais ainda, uma atávica  pressão social fá-la contentar-se em ser a “ancila” (a serva, a escrava) do machismo reinante. Felizmente, nos dias de hoje, a Mulher,  mercê de um  labor persistente e por direito próprio, ascende aos mais altos cargos da sociedade, mormente em ribaltas antes consideradas monopólio exclusivo dos Homens.
Aproveito a oportunidade para jogar ao tablado verde da discussão  uma pergunta e uma declaração, a que serve de título a estas linhas. A primeira é a constatação pública de um  arcaico absurdo indexado à Igreja Católica, quando dogmatiza que as mulheres não podem chegar ao sacerdócio, muito menos ao episcopado. Muita barafunda se tem desgarrado sobre esta questão, recorrendo os canonistas a argumentos, ditos bíblicos e apologéticos, tão inconsistentes e esfarrapados como a resposta a esta pergunta: serão apenas os humanos machos o eco exclusivista, super-monárquico, da voz da Divindade?... A resposta “está na cara”.
Passo adiante e atrevo-.me à questão principal: E se houvesse Mulheres ordenadas Padres e Bispos, como acontece noutras religiões? … Que mais valia, para o mundo e para a religião,  acrescentaria um tal estatuto?... Diante de tanto protesto contra o machismo “apostólico” na Igreja e pesando a luta de teólogas e teólogas, sociólogos, escritores muitos sobre a matéria, ouso claramente definir-me: Senhoras, para integrar a hierarquia da Igreja, tal como está, não vos gabo nem a sorte nem a legítima pretensão. Para uma Igreja-espectáculo, émula dos poderosos do mundo, de mãos sujas de dinheiro do Banco Vaticano, à custa das velas e “promessas” (que designação sacrílega!) dos pobres crentes – então eu vos digo sem rodeios: NÃO VALE A PENA! Ao contrário, se vierdes para restituir à Igreja-Instituição a verdadeira face de Cristo e de Sua Mãe, então bem-vindas sereis!  A intuição e a sensibilidade femininas poderiam realizar a catarse  de um catolicismo anti-evangélico e revertê-lo à sua pureza original. E é, precisamente, por essa razão e por esse medo, que o machismo dogmático da estrutura eclesiástica  veda-vos o caminho.
Para acabar com esta questão tacanha, medieval até, outra via não acho senão uma das mais brilhante páginas do livro ”DO MEDO À ESPERANÇA” que Raquel Varela lançou ontem em Machico: “Entre Homens e Mulheres não deve imperar a Competição, mas sim a Cooperação”, o ideal da perfeita complementaridade de género, não só salarial, mas global.. E com esta reflexão, presto o agradecimento e o preito de homenagem de Machico pela presença “ao vivo” entre nós de uma Grande Mulher que tem feito da sua vida a mais enérgica defesa da Igualdade.

03.Nov.16
Martins Júnior