sábado, 19 de novembro de 2016

CRISTO…MONÁRQUICO (?)


Sim ou não? Aceitam-se respostas.
Para a maior parte dos crentes e não crentes, o título deste sábado, véspera de domingo, provocará de imediato comentários assim: Desta vez o SENSO perdeu o senso e o consenso. E eu vos garanto que não. Prova do que vos afianço é o dia de amanhã, domingo, em que por tudo quanto é nicho de culto católico se levanta, airosa e triunfal, a bandeira do “Dia de Cristo-Rei”!  A Igreja quis firmar claramente a nobreza da Coroa Real na cabeça do seu Fundador, situando-a no encerramento do ano religioso, como chave de ouro de toda a arquitectura cultual dos 365 ou 366 dias. Amanhã, é o última fase do Ano Litúrgico. No domingo seguinte, 27 de Novembro, abre-se um novo ciclo, o Advento. Não deixa de ser curioso e assumidamente semântico este contraste: a trajectória cultual começa com um Cristo-sem abrigo e termina com um Cristo-Rei e Imperador!
Terá muitas e contraditórias interpretações o Estatuto Real atribuído ao Nazareno (Ele próprio o confirmou diante de Pilatos), mas o que importa aqui indagar é a investidura que lhe foi dada pelos auto-proclamados representantes exclusivos do “Mestre da Galileia”.
Partindo dos imponentes pontificais das grandes catedrais, adornados de vermelhas alfaias revestidas de ouro e prata, a que se adereçam umas barras de seda fina bordadas a renda da mais requintada “lingerie” , logo nos apercebemos que a homenagem a J:Cristo goza de toda a grandeza da entronização real, rivalizando com o luxoso  protocolo das cortes imperiais. Aliás, desde o século IV, com a Paz dada aos cristãos pelo Imperador Constantino de Roma, os titulares dos cargos eclesiásticos copiaram (e até ultrapassaram) os figurinos monárquicos, os baldaquinos, os enxovais, os anéis e a tríplice coroa cravejada de pedras preciosas,  que os Papas cognominaram de “Tiara Pontifícia”. Era o tempo em que a Igreja, Império e Reino  de Deus entre os homens, pertencia ao grémio dos reinos deste mundo, em aberrante contradição com o seu Fundador, que definiu sem sombra de ambiguidade: “O Meu Reino não é deste mundo”.
Hoje é dia de ser militante do verdadeiro reino que tem apenas duas vestes: Justiça e Verdade. Dispenso-me, pois, de refazer o historial de uma Igreja que manietou, violentou e torturou a identidade de Jesus, desfigurando-lhe a face, o corpo e o espírito.  De Alguém que “não tinha uma pedra onde reclinar a cabeça”, livre, lutador, doador da própria vida, os usurpadores sem escrúpulo transformaram-no num prisioneiro extático, ajoujado de cordões de ouro, amarraram-no com cinturões de diamante, puseram-lhe na mão o pesado ceptro dos poderosos, fecharam-no num oratório transparente e rodearam-no de um cartaz comicieiro onde ficou escrito: “Ecce Homo”, eis o Homem, eis o Rei!!!
Não estou exagerando, não. Só me rompem as orelhas e me estremecem os sentidos  os verrinosos alexandrinos de Guerra Junqueiro, em 1887:  Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz/ Que andais pelo universo, há mil e tantos anos/ Exibindo, explorando o corpo de Jesus.
Séculos passados, ainda hoje permanecem marcas bem salientes dessa maquiavélica mistificação, a maior das quais, como tantas vezes tenho dito, reside no Estado do Vaticano – uma estepe  pantanosa, onde  se engendrou o parto quase-incestuoso entre os dois poderes, os dois reinos – o de Deus e o do Mundo - não se sabendo onde acaba um e começa o outro. O Vaticano como está - plasmado à moda de um Estado, com um Rei, Secretários, Embaixadores -  apresenta-se como contra-testemunho do seu Fundador. A maior prova da redescoberta de Cristo e da sua Identidade estará na renúncia do Vaticano ao privilégio mundano de Estado. Por outras palavras, que o Papa abdicasse do híbrido estatuto de Chefe de Estado.  Chegará Francisco Papa a tempo de reconstruir o verdadeiro reino que, sendo aqui, não é daqui?... Mas – Àqui d’El Rei! – lá se vão os Secretários, os Núncios-Embaixadores em todo o mundo, lá se vão as comendas,  os  palácios, os brasões-de-armas, as comitivas…
Aceita-me, ó Cristo – a mim e a quantos me acompanham – como voluntários militantes, alistados  no programa constitucional do Teu Reino, não o da Monarquia que os homens fabricaram, mas o do chão seguro da Justiça e da Verdade!

19.Nov.16

Martins Júnior