segunda-feira, 21 de novembro de 2016

HERBERTO HELDER TODO! – De Regresso a Casa

Dividido, hoje,  entre a Casa das Leis e a Casa das Letras, optei pela Casa das Letras. Da Ciência. Do Saber. Do Estar aqui e agora e sempre.
Enquanto na Assembleia Legislativa Regional se perorava sobre 40 anos de Autonomia, medida a metro pelas altas instâncias da Nação e da Região, nas paredes do velho  Colégio dos Jesuítas reflectia-se, sonhava-se e sofria-se, sentindo-se a mão de HH passar pelo dentro de todos nós, desde o alto da cabeça até à planta dos pés. Lá, eram 40 anos de esgrima política. Aqui era o mundo todo, o Homem-Todo, o corpo, a alma, a génese e o fim, a vida e a morte – a nossa história inteira, que nos pegava e nos levava a atravessar muralhas e pontes na barca carregada dos mais de 40 livros do poeta.
Começou o “Congresso Internacional de Herberto Hélder” coincidentemente  no lugar-sem lugar onde nascera em 1930 e de onde tão depressa se libertara. São cerca de 20 os comunicadores nacionais e estrangeiros que, após o longo e doloroso itinerário por entre a floresta espessa e funda da obra de HH, estão connosco para nos ensinar os trilhos, em todas as direcções, desse  percurso. A preciosa presença da viúva e do seu filho veio colocar no meio da sala a face omnímoda e misteriosa do autor do “Ofício Cantante”.
Estamos perante o universo planetário que nos comprime e desperta e explode em assomos de exaltação, fúria, incógnitas e revolta. Deste primeiro dia, recolhemos os labirintos da alma, quedamo-nos assustados e saímos transfigurados - um triplo salto no abismo do multipolar pensamento herbertiano.  Apercebemo-nos da chama ardente que o devora e, de imediato, o reanima, quando descobre que o “Poema é o teorema da violência” ou que “a poesia  é a recusa à sintaxe das boas maneiras” ou, ainda, que “é a excepção que dá beleza à regra”. Difícil entender que um ateu (como ele próprio se identifica) é capaz de dizer que “é preciso amar a Deus eroticamente”… A evocação do Marquês de Sade, saudado como o grande poeta, remete-nos para a essência do “mal” e do seu relativismo na escala dos valores oficiais, tocando as raias do “herético” (ele o diz) ao propor que o crime e a impureza  traduzem-se, no glossário do criminoso, como prova da “inocência e da pureza”.

A conquista do auto-domínio estóico, espartano, aprende-se com HH, na sua substantiva definição de “Soberania”,  que “não é objecto que se alcança, mas que sempre se procura” – Obra Aberta, sempre Inacabada! Ao ver desfiar a concentracionária mundividência de HH, ocorreu-me a enigmática profundidade de Leonardo Cohen. Tal como o génio da canção hipnótica, redentora, também HH exclamou: “Amanhã morrerei”!
Neste primeiro apontamento sobre a Grande Notícia que é este Congresso (genuinamente imperdível!) concluí que HH, à semelhança de Antero de Quental, tinha uma alma que não cabia na estreiteza da ilha. Teve de “emigrar” para  voar mais alto. E se “um fraco rei faz fraca a forte gente”, a terra pequena torna escassa a estatura do gigante. Ainda bem que voltou, não “num caixãozinho de pinho”, mas no trono da glória que, assumidamente, sempre abjurou em vida. Mas que o merece. Para que da nossa  pequenez renasce “a ânsia de subir e a cobiça de  transpor”, como queria Goethe, no seu “Fausto”.
  Parabéns e gratidão à Organização, na pessoa da Profª. Diana Pimentel.

21.Nov.16

Martins Júnior