domingo, 27 de novembro de 2016

QUE DIREITOS QUERES TU ?...

     
    Quantos quilómetros de rolos e quantas toneladas de tinta terão de fazer gemer as rotativas diárias sobre o corpo gigante de um homem que hoje não é mais que um punhado de cinzas ambulantes!... É impossível ficar abúlico e  inerte perante um fenómeno que, sendo o mais comum e banal entre os mortais, ganha outro tamanho e provoca outro ruído, outra trepidação à sua volta. Porque o que conta não é o objecto físico que somos no espaço, mas a força que transmitimos ao ar que os outros respiram. Por outras palavras, é a obra que avalia o Homem/Mulher que vem a este mundo.
Por isso, eis-me aqui, alinhado na fila dos ditos e escritos sobre a morte de Fidel de Castro. Debruçado à janela de mim mesmo, vejo  “ a banda passar”, os jornais, os tele-noticiários, as opiniões  que vão desde o fundo mais fundo da maledicência voraz até aos píncaros dos montes heróicos.  Deixo para outra altura a apreciação sobre o mar revolto das críticas e dos panegíricos inspirados no “Comandante”. Hoje, descansarei a cabeça em cima da voz que ouvi a um septuagenário cubano, residente em Havana, a respeito dos atentados aos direitos humanos, praticados pelo regime.
Ao jornalista respondia o homem: “É verdade que não tínhamos
 os direitos de protestar, de falar ou escrever contra o governo. Mas há outros direitos humanos mais importantes, como a saúde, o ensino, a segurança, a alimentação. E esses tínhamos mais que os outros países”.
         É neste binómio que se situa o código supremo da condução dos povos. Sem dúvida que o ideal seria ganhar o melhor dos dois mundos: a liberdade de expressão e a satisfação dos direitos inerentes ao crescimento integrado do indivíduo e da sociedade. Chegados, porém, a estra encruzilhada – direito à falar ou direito à auto-realização – por onde iremos?
         Já tivemos conhecimento da cadeia em que viveram os nossos antepassados no regime salazarista. Era o tempo da mordaça e da sentença fatal:  “o trabalhador só precisa de duas camisas -  uma no coiro e outra no lavadoiro”.  Emancipados, porém, dos ferozes sistemas  ditatoriais  para o plano da democracia, justo seria recuperar os dois patamares ou direitos enunciados acima. Entretanto, a transição é sempre uma passagem de nível entre duas margens, entre dois campos opostos, é a  fuga vitoriosa das garras daquele que nos sangrava cruelmente, que nos manietava e matava. Nesta fuga, há que acautelar-se o futuro da população, enfim, livre, nunca esquecendo  que os sequestradores de ontem, os opressores, estão sempre à espreita, para vingar-se da derrota. E quando esse “inimigo” organizado se chama “capitalismo selvagem”, insaciável do sangue dos inocentes, então aí é preciso segurar, organizar a defesa eficaz contra o invasor sem tréguas.
         É nessas circunstâncias que se torna premente escolher. E perguntar: De que serve a liberdade de falar se daí em nada altera o regime: se as populações continuam sem escolas, sem assistência médica e medicamentosa, sem o direito ao pão e à segurança?
         Dei comigo a excogitar sobre a resposta do septuagenário cubano. E, não obstante a lógica do seu pensamento, volto a confrontar-me se a liberdade de expressão não se sobrepõe a todos os outros direitos humanos. Porque há regimes e titulares, os da área capitalista, que compram as pessoas, os jornais, a comunicação social toda, as igrejas, as colectividades para, depois, silenciar e reprimir todo um país ou toda uma região!... Não sei se os madeirenses se revêem neste cenário.
         Ingente tarefa esta para os líderes e para os liderados, qual é a de evitar dois perigosos escolhos: por um lado, a ingenuidade “revolucionária” que abre  portas e postigos  aos invasores e, por outro, o imperativo de devolver a liberdade e o respeito às comunidades libertadas.  
         O menos ou o mais que se pode dizer é que, se em determinados picos da transição são inadiáveis medidas–válvula de segurança e apertada vigilância, a verdade é que  no curso normal da vida não se pode viver em permanente estado de transição.

         27.Nov.16

Martins Júnior