sábado, 5 de novembro de 2016

…”TEM MAIS ENCANTO NA HORA DA DESPEDIDA”…


Teve pouca dura um sonho americano nascido naquela manhã de outono de 2008. Não mais que oito anos, um pingo de ouro caído na quase- -tricentenária  planície dos Estados Unidos da América!
Quem poderá olvidar o sol nascente desse dia memorável em que o jovem Obama, oriundo da negritude, ascendeu à majestosa cúpula branca do Capitólio. Em todo o mundo, estruturalmente civilizado, alvoroçaram-se os espíritos, estralejaram no firmamento os morteiros de festa enlaçados nas oliveiras da paz, enfim, uma alma nova vestiu o corpo inteiro do planeta Terra. Parecia ouvir-se um coro angelical descido das nuvens altas, melodiando o cantar de outros tempos: ”Paz aos Homens de Boa-Vontade”. Recordo-me da ovação de todo o Portugal, na voz proclamatória de Mário Soares, saudando o Dia Novo. Era para o povo americano o eco do que fora  para os portugueses  o “25 de Abril”.
Ainda não se mediu assaz o clarão fulgurante dessa eleição, o seu alcance semântico, político e social: Um Homem do Povo, estranho fenómeno emergente das classes mais  descriminadas, pelas quais tanto lutou e pagou com a vida o eloquente e pacífico revolucionário Martin  Luther King. Pode bem dizer-se que Obama foi a incarnação futura do antigo sonho de King –“I have a dream”.
Mas a eleição de um afro-americano para o mais alto cargo da Magistratura Americana foi também   o regresso às origens da Constituição Fundacional da grande Nação, expressa na Carta de Direitos,  de 1791, mais tarde assumida pela Declaração Universal, de 10 de Dezembro de 1948: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos…  Podem invocar os direitos e  liberdades, sem distinção alguma de raça, cor, sexo, religião, opiniões políticas  ou outras”…
Pingo de ouro – disse eu. E provou-o.
Registo apenas o Prémio Nobel da Paz, no início do mandato, prenúncio de um programa a cumprir, como se viu no histórico aperto de mão a Raul de Castro, aquando do funeral de Nelson Mandela, gesto que culminou no Acordo de Paz com Cuba e levantamento das sanções – um objectivo que o mundo julgava impossível de alcançar.
A batalha por um outro sistema geral de saúde pública, o “Affordable Care Act” - que veio pôr termo à desumana descriminação entre saúde imediata  para os ricos e morte sem remédio para os pobres – constituiu talvez o maior feito em prol da igualdade social.
Humana e intelectualmente, Obama deixa um património de eloquência magistral, única em toda a história americana. O pensamento discursivo, a imponência gestual, o olhar penetrante  e, sobretudo, o timbre altissonante e poderoso da sua voz deixam a léguas de distância os aprendizes da retórica política que hoje nos debitam os governantes brancos. Se Frank Sinatra era “The Voiçe” da canção, Obama foi  “The Voice” da palavra, facto indesmentível que levou o articulista de “ The Washington Post”, Greg Jaffe, a defini-lo como um “tornado divino”. Vamos ter saudades dos seus discursos, ao vivo. A correcção cívica, a finura de trato, a elegância da representação vemo-las na diferença abissal entre Obama e o candidato republicano Trump, nas prestações desta campanha eleitoral.
Na hora de abandonar a Casa Branca, Barack Obama deve levar consigo um fio de tristeza sem termo por não ter cumprido todo o seu sonho, especificamente no enigmático Guantanamo. Bem concluiu Gothe, no famoso “Fausto”:  Ars longa vita brevis – “ é imensa a arte (o plano) mas a  vida é breve”. Em casos como este, é que se questiona  a lei da Limitação de Mandatos. Quantos erros  não corrigiria   e quanto não aperfeiçoaria a Política Americana se Obama fizesse mais um mandato!  Para exprimir este desiderato, não encontrei melhor forma que o desabafo de um basquetebolista americano, nesta altura atleta do basquetebol madeirense, mas com direito a voto: “Se Obama continuasse, era absolutamente para ele o meu voto. Mesmo assim, votarei Hillary”.
A Barack Obama podemos dedicar e identificar a sua personalidade única com a canção coimbrã do V Ano Médico: … “Tem mais encanto na hora da despedida”. Prefiro, porém, guardar na retina e colar para sempre aos meus tímpanos aquele cântico de valentia e de esperança de há oito anos, como herança mobilizadora para a metamorfose dos nossos tempos: Yes, We Can – “Sim, Nós Podemos”. A que acrescento militantemente: “Sim, Nós Queremos” transformar o nosso Lugar, a nossa Região, o nosso País!

05.Nov.16
Martins Júnior