sábado, 3 de dezembro de 2016

EM MACHICO --- FEZ-SE JUSTIÇA!


Não é na barafunda publicitária que navega a Justiça, porque  quando o estouro é grande, a chama é parca e fugaz. Gestos há que, no recôndito do seu “habitat” sentem e fazem sentir ao redor o perfume da Justiça e da Beleza.
Aconteceu em Machico, 30 de Novembro.
Há 243 anos nascia nesta freguesia Francisco André Álvares de Nóbrega. A terra primeira da Descoberta da Ilha trazia no seu seio os genes prematuros que mais tarde produziriam troncos e génios de todos os “Camões”, do maior ao mais pequeno. Porque ser  “Camões”,  mesmo pequeno,  sobrepuja o comum dos mortais. E foi em 30 de Novembro de 2016  que Machico voltou a erguer  nos seus braços esse que, sendo “Pequeno”, foi seu filho maior. Comemorou-se o nascimento do grande vate - não só de Machico, mas da Madeira – com a dignidade e o calor humano que merece. Aliás, há cerca de meio século, conterrâneos seus, abertos à Luz e sensíveis a tão singular Personalidade, têm batido à porta do “sítio dos Moinhos”, onde nasceu, chamam-no à mesa da saudade e aí reaprendem, em verso e canto, os seus sonetos.
Neste ano, Francisco Álvares de Nóbrega desceu à cidade e à sua volta reuniu “amigos” de longa data, cultores seus. Agregou os poderes autárquicos e viu fazer-se-lhe Justiça. Câmara Municipal, Junta de Freguesia e “EFAN-Estudos Nobricenses”  deram-se as mãos e levantaram--lhe um justo  pedestal. Não o do espectáculo gratuito, de encher a vista, mas o do profundo, que penetra e inunda o espírito Refiro-me à homenagem que lhe foi prestada pela edilidade,  com o novo título dado à Biblioteca – “Biblioteca Municipal Francisco Álvares de Nóbrega”. É o seu meio ecológico, a Biblioteca. É aí que jovens, adultos e até anciãos vão beber da água cristalina da Cultura, de cujo manancial se alimentou outrora  o nosso poeta, pensador e tradutor.
A Junta de Freguesia franqueou o Salão de Actividades Culturais para fazer reviver Francisco Álvares de Nóbrega, na recitação de alguns sonetos, em paralelismo com os do seu  companheiro de cela,  Manuel Maria Barbosa du Bocage, cujo 250º aniversário Portugal acaba de comemorar. Ambos foram presos pela Inquisição, nas masmorras do Limoeiro. Registo emotivo para o Grupo Coral de Machico que interpretou, em polifonia a quatro vozes, dois sonetos das “Rimas”,  composição  do maestro Nélio Martins.

Prestimoso brinde de aniversário ganhou a “EFAN-Estudos Nobricenses” com a cedência, pelo Município, de uma sede (sonho antigo), onde ficarão expostas ao público as publicações editadas por esta Associação, fundada em 30 de Novembro de 2005. Fiel ao seu objecto social, o estudo e divulgação da vida e obra de Francisco Álvares de Nóbrega, já deu à estampa as “Actas do Bicentenário” (2006-2007), o “Processo nº 15764” do Tribunal  da Inquisição e a peça de teatro “Camões Pequeno” do escritor e dramaturgo madeirenses João França.
Não podia passar  o 30 de Novembro sem que fosse evocada a memória do presidente da Assembleia Geral da “EFAN” e grande impulsionador desta efeméride,  Manuel Rufino Teixeira, recentemente falecido.
Fez-se Justiça. À “maior alma que Machico deitou ao mundo”, repito, parafraseando Almeida Garrett quando se  referiu  ao nosso épico  Luís Vaz de Camões. Mas a maior prova, a única  que  Francisco Álvares de Nóbrega, o “Nosso Camões”, mais apreciaria, consiste  no conhecimento dos ideais que ele  cultivou e pelos quais  deu a própria vida –  Liberdade,  Igualdade,  Fraternidade!

03.Dez.16
Martins Júnior