terça-feira, 27 de dezembro de 2016

OS DEZ MAIS – OS CEM MAIS – OS MIL MAIS – OS INFINITAMENTE MAIS


         Vem nas revistas da especialidade e vem nos diários de bairro, pula das eólicas às parabólicas, passa nas redes sociais e nos ecrãs panorâmicos das TV’s.  É a praxe de fim-de-ano, com o volumoso cardápio das figuras de proa que mexeram com os 366 dias de 2016. Foram os donos da tinta e do papel publicado, “pivot’s” dos noticiários sensacionais, enfim, foram os cometas estrondosos que riscaram a abóbada planetária do ano bissexto.
         Pertencem aos segregados do Olimpo, umas vezes por mérito próprio, outras porque apanharam o comboio das oportunidades que lhes passou à ilharga da vida. Eles são os da alta finança, eles são os “Trump’s” emersos da bebedeira de um “povo de carneiros”, eles são os verdugos da bola – e todos, por junto,  são parto da fama que hoje se levanta e amanhã se esfuma. A história, sempre se disse, é a praia dos vencedores.
         Hoje, porém, esqueço as estrelas e baixo os olhos para o chão rasteiro por onde caminhamos todos os dias e saboreio o cheiro gostoso dos alecrineiros, das violetas, do musgo e do rosmaninho que alcatifam o terro do quotidiano sem nome, como vicejam entre as pedras do presépio.  Mergulho nos regatos órfãos de brilho mas prenhes da seiva fecundante que alimenta as raízes seculares e as leguminosas efémeras, sem as quais o cérebro asfixia  e o coração colapsa. Hoje esconjuro o espectáculo e o tsunami dos  brasonados da corte – de tão poucos, são tão fáceis de encontrar – e deleito-me com os protozoários quase invisíveis da vida, os artífices infinitamente pequenos mas portentosamente grandes porque são eles os portadores e sustentadores do equilíbrio dos elementos e das pessoas, os que acompanham pela mão o viajante do mundo que cada um de nós traz consigo.
         Não tenho nenhum “Nobel” à minha beira, mas vejo tanto sábio que me ensina a soletrar as pregas da vida. Olho o mestre-escola que, paciente e diligentemente, abre os olhos da criança para a enciclopédia dos saberes. Descubro o herói trabalhador que  todos os dias, faça bom ou mau tempo, pega a enxada e o martelo e segue avante para  desbravar a terra e construir o mundo. Vejo aquela mãe, amorosa e vigilante, cujo coração acompanha o filho à escola e ali fica, invisível, sentada na mesma carteira.  Toco o sofrimento de quem está acamado e paralisado, sem pernas para o mundo mas com asas para o optimismo do dia seguinte. E a seu lado, estende a mão um   anjo de Belém para a dor e para a solidão do sofredor. Sigo atrás daquele que bate à porta de alguém para pedir perdão do mal causado, Assisto, comovido, ao abraço da paz entre irmãos desavindos, e vejo nisso o mais seguro formulário para os Tratados de Paz entre as nações. Ponho os meus pés nas pegadas de todos os pedagogos e pastores, pais e avós,  que, sem dar nas vistas, colocam pedra sobre pedra no monumento silencioso da história.
          São os infinitamente “Mais” deste e de todos os bissextos da roda dos tempos. Nunca ninguém os trará à varanda da fama e jamais verão o seu nome nas bancas dos feirantes publicitários.  Mas são eles o fermento na massa, são   o rio criador que põe a terra verde e a alma em festa!
               Small is Beutiful – será o seu hino triunfal, esses para quem o “maior troféu do dever cumprido é ter cumprido esse dever”. Peço licença para alistar-me nesse acampamento onde o dia nunca acaba e o Ano é sempre Novo!

         27.Dez.16

         Martins Júnior