sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

PÃO DE CASA CHAMADO PERDÃO


Esta é a noite de amassar. Bem depressa vou eu até à lareira do forno,  porque  é a  amassadura do pão de casa para a Ceia de Natal. Sem este pão caseiro, não começa a festa.
Na minha aldeia, há um forno comunitário. Há mais de quarenta anos reúnem-se os vizinhos nesta noite e logo  amanhã de manhãzinha sai o pão dourado do trigo dos nossos  campos. Dos nossos campos, todos iguais e todos diferentes, vêm as espigas, cada qual com o seu grão: mais branco ou mais escuro, mais crescido  ou mais escasso,  mais apetecível um ou menos o outro, consoante o lote de terra e a moenga do moleiro.
Mas todos se misturam. Antes da pá que os conduz ao fogo, a massa é tendida à força de agressões braçais que fazem tremer a velha ceira redonda em cima da mesa da cozinha. O fermento é o segredo para a levedura perfeita. Ele há de tantos ingredientes e matizes, iguais à diferença de cada amassador. Há fermento de paz e há-o de amargo travo. Há-os sabendo a amor e há-os fedando a ódios tribais.
Mas todos se misturam e descansam no mesmo berço, geminando sonhos de encontro, chamas antecipadas de apertados abraços, por vezes duros, dolorosos.
A massa vai ao forno e o que antes era sonho e chama frágil faz-se  incêndio de luz capaz de  matar  fomes e  sedes que vêm de longe e que os vizinhos nunca  tinham saboreado, assim, de coração franco e cara descoberta. A festa começa lá dentro e cresce no meio da rua, onde todos cantam o pão do amor e o vinho da alegria.
É assim na minha aldeia. Há mais de quarenta anos!
Amanhã, seis da madrugada a bater no coração, todos trazem uma abada invisível daquele pão caseiro que tem registo de marca e nome já firmado no íntimo de si mesmos: o PERDÃO!   É a sua festa, a noite do Perdão, na mesa comum da Ribeira Seca e sem a qual nunca haverá Natal.
Jamais esquecerei o código de fé e saúde psíquica que me ensinara um velho camponês (já reformado da vida), analfabeto de letra e sábio visionário na procura da Verdade: “Para mim, senhor vigário, o Perdão é como o pão. Se não vier de casa,  amassado e cozido, não há nenhuma igreja que lhe dê”.  
Feliz Natal, porque Feliz Perdão!

23.Dez.16

Martins Júnior