sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

QUEM É O DONO DO NATAL ? QUEM É O SEU BENEFICIÁRIO ?

  
        A minha saudação de hoje tem tanto de ternura como de inquietação, senão mesmo de indignação. Num recanto do presépio, de todos os presépios do mundo, dei comigo a pensar nas duas perguntas em epígrafe. Sim, na roda gigante em que se balanceiam, como autómatos teledirigidos, milhares de homens e mulheres atirados para o maranhão das euforias cruzadas da época, bati à minha própria porta para saber  quem é, afinal, o dono  e, da mesma feita, quem é o beneficiário de iure et de factu deste Natal, de todos os Natais. Deixei passar a  turbamulta de notáveis, doadores oficiais das festas, os pelotões de fazedores de luz aos borbotões, os hipercamiões abarrotados de mercadoria sofisticada. Ao fim de tudo, apurei a vista interior e vislumbrei que o grande autor e o maior destinatário deste “maremagnum” de vaidades anda por aí - um ser frágil, indefeso, sujeito aos empurrões da multidão. O autêntico dono do Natal é esse “pequenino-grande ser”, chamado Criança!
         Não vejo quem se lhe possa comparar. O relato puro e seco do momento histórico inicial assim o diz. Quer se acredite ou não  que o Menino de Belém é o Deus personificado, quer se admita ou não a virgindade daquela Mãe Maria, um monumento indestrutível ali se impõe: a Criança! Toda a grandura excelsa e toda a colossal ressonância que varre o universo, desde então até hoje e sempre, estão nos braços de uma Criança que, não obstante a sua fragilidade genética, segura silenciosamente os gonzos do tempo passado, presente e futuro, tal como Hércules  sustentando as mitológicas colunas do mundo.
Insisto na titularidade de “dono e destinatário de todos os Natais” – a Criança - porque o “Príncipe da Paz”, o portentoso Messias Prometido poderia  ter surgido  no pico sebastianista da mais alta montanha, aureolado do mais fino diamante real. Mas, oh decepção tremenda: reduziu-se a um débil recém-nascido, para mais, rejeitado por todos os proprietários da cidade. Mais incisivo que o aspecto físico daquele bebé, o que fala mais alto é a sua simbologia gritante.
Com efeito, a Criança não passava, naquela época,  de mero episódio descartável, sob qualquer pretexto. Confira-se o Salmo 136, por onde se vêem a indiferença e a crueldade com que eram tratadas as crianças. “Feliz e bem-aventurado será  aquele que agarrar nas tuas crianças de peito e a as espedaçar contra uma rocha”. A Criança, pois, objecto de vingança pela derrota dos judeus frente ao povo vizinho, como testemunha o “santo” Rei David. É conhecida a tristemente famosa Rocha Tarpeia, na Antiga Roma, de onde eram atiradas as crianças deficientes, a par dos criminosos de lesa-pátria.
A Criança, sobre a qual se construiu o mundo futuro! O nascimento em Belém veio reabilitar definitivamente a Criança para a história, veio colocá-la na centralidade de todos os Natais e de todos os tempos. Aqui se inscreve a minha ternura dinâmica. E aqui, também, a minha indignação pela indiferença com que são tratados os que ensaiam os primeiros passos da vida. Sem pretender dramatizar os cenários, ouso denunciar com veemência os atentados à Criança e ao seu saudável crescimento evolutivo, seja  o cortejo esquálido das crianças refugiadas, seja o nauseabundo poço da pedofilia, seja ainda a prepotência de ampliar turmas e cortar escolas sem atender ao superior interesse dos utentes.
Perante tais abusos, apetece mandar arrastar para outra “rocha tarpeia” a prosápia hipócrita de iluminações feéricas ou as parentes balonas das armas de guerra e transformá-las em berços de afectos e alcovas de luz para o advento do verdadeiro Natal. Uma saudação muito emotiva para com os pais e encarregados de educação, professores, vigilantes, assistentes dos estabelecimentos de ensino.  Alto e bom som, proclamo que sois vós os autênticos construtores  do presépio original. São as vossas mãos que, dia-a-dia, vão levantando os degraus e a beleza das “lapinhas” humanas, aquelas que exclusivamente interessam ao mundo.
Que nunca se acabem, ao longo de todo o ano, os acordes felizes da Tuna Infanto-juvenil do Centro Cívico da Ribeira Seca, como  documenta a gravura, na abertura do presépio que as autarquias de Machico construíram no centro da cidade.  

“Cantai Crianças nesta Festa do Povo
Cantai Crianças p’ra fazer um Mundo Novo”.

09.Dez-16
Martins Júnior