quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

QUEM NÃO MERECE O NATAL


Da frescura matinal de ontem  passamos hoje à sua negrejanda negação  É a conclusão lógica dos trilhos percorridos nestas madrugadas de expectativa natalícia, pela mão  do cientista, teólogo místico e ecologista Teilhard  de Chardin. “Toda  a espiritualidade tem a sua raiz primeira na Matéria, no Planeta, na Terra que pisamos”. Acompanha-nos também, ao logo das chamadas Missas do Parto,  Leonardo Boff, o teólogo defensor da “sua” Amazónia brasileira. E por fim, avoluma-se a claridade  pelo  iluminante projector universal do Papa Francisco quando chama à Terra a nossa “Casa Comum”.
 O evento crucial do nascimento dessa Criança, “Cristo Cósmico”, como lhe chama Chardin, nas campinas de Belém é bem a meta e o protótipo da dignidade que merece toda a criatura. No pensamento de Leonardo Boff, “todos os seres da natureza são cidadãos, sujeitos de direitos, de respeito e veneração… Cuspir no chão é cuspir em cima de  si mesmo.”   Vem ao seu encontro o psicanalista  G.C. Jung quando conclui :  “Tudo o que me rodeia faz parte de mim”.
No tribunal da consciência colectiva da humanidade, são coercivamente chamados  ao banco dos réus, como arguidos em crime de guerra, todos aqueles que destroem  o ambiente, “envenenam o ar que os outros respiram”, citando George Bernanos. Todos os que matam os pulmões do mundo, o da Amazónia e as paisagens saudáveis dos nossos campos! Todos os que, abusam do poder e do dinheiro para assassinar quem recebeu a dádiva da Terra que é de todos!
Pelos abomináveis feitos contra a humanidade, é caso para entrarem na lista negra tantos que conhecemos, entre os  quais:
Todos os Bush’s que invadiram sadicamente o Iraque.
Todos os Trump’s que atiram às feras  indefesos imigrantes.
Todos os FMI’s que emprestam para, depois, devorar  a vítima.
Todos os Schaubel’s que, a frio, submetem os pobres ao seu jugo.
Todos os Daesh’s que fazem de Alá um criminoso sanguinário.
Todos os Kim Jun-un’s  que afogam  os manietados do regime.
Todos os Panamá’s que roubam às claras o seu país e o seu povo.
E todos  aqueles  que quem me lê conhece,  perto ou longe de si.
Não merecem nem presépio nem Natal do Cristo Libertador. As autoridades religiosas deveriam intimar, sem medo de perder sujos privilégios,  esses prevaricadores  letais do ambiente, dos bens fundamentais do Ser Humano, da dignidade transcendente das Pessoas. Regressem às origens, a Santo Ambrósio, bispo de Milão no século IV que, ao tomar conhecimento da invasão do território pobre de   Tessalónica, a mando do Imperador Teodósio, proibiu o mesmo Imperador de entrar na sua catedral, obrigando-o a fazer penitência e arrependimento durante um mês inteiro nas montanhas geladas dos  Alpes. Outros tempos em que a Igreja e os crentes não usavam a hipocrisia como moeda de troca!
Impossível. Que autoridade moral tem um bispo que, subjugado ao poder político,  volta as costas, persegue e mutila os “membros do Corpo Místico de Cristo”, situados na periferia da cidade onde vivo?... E ainda  são capazes, os da mesma igualha episcopal,  de pregar na noite de Natal que Jesus-Menino abriu os braços para abraçar todo o muno... Merecerá entrar no presépio quem chuta sem remorso  para a valeta gente boa, gente crente?…
Oh, Ambrósio de, bispo de Milão, vem de novo para denunciar desassombradamente  ao mundo os usurpadores do presépio de Belém! Que arrepiem  caminho, que limpem a atmosfera e restituam aquela  dignidade,  a que  todos os Seres, emanações de Deus, têm direito por natureza!
Façamos tudo ao nosso alcance para  entrar,  por direito e por amor,
no presépio verdadeiro e saudá-lo   na sacrossanta Noite de Natal.

21.Dez.16
Martins Júnior