sábado, 23 de setembro de 2017

OS METAIS EM CAMPANHA


Impensável ficar alheio ao momento que passa, aqui e agora. Porque o “aqui e agora”  toca-nos o ombro, remexe-nos o cérebro e o coração. É connosco, com cada um de nós. Embora marcado pela transitoriedade, a verdade é que o momento que passa  obriga a confrontarmo-nos com o passado, o  presente e o futuro da terra que habitamos. Sob pena de nos tornarmos desertores, parasitas e, no limite,  cúmplices do acaso armadilhado com que outros pretendem capturar o povo a que pertencemos. Esta é a nossa circunstância – a que modela a nossa personalidade individual e colectiva.
É por isso que nada me é indiferente nos roteiros desta campanha para as autárquicas. Olho-a, por vezes entediado, Mas observo-a atentamente. Peso-a na balança de um juízo que me parece criterioso, E, por fim, decido-me. Não permitirei jamais ser joguete acéfalo de megafones feirantes, por mais estrídulos que se apresentem.
Neste entendimento, não posso deixar de reagir ao chocalhar de metais que certas forças concorrentes agitam em palco, nas manif’s, nos gabinetes governamentais, nas redes sociais. Nunca como agora se ouviu  falar tanto em milhares e milhões a escorrer da serra ao mar. Tantos milhões para a estrada varrida pela aluvião de há quatro anos., Outros tantos para o cais há tanto tempo danificado. Mais uns milhares para limpar as cinzas de incêndios passados. Outra vez milhões para a escola que durante tantos anos rompia pelas costuras das  salas e gemia sob os tectos de amianto. E mais molhos para os bairros sociais. Até a própria cultura, as associações, ‘casas de povo’, os livros escolares, os apoios aos estudantes – tudo vem canalizado em manilhas de moedas sonantes, quase sempre dinheiro que nem sequer ainda é  nado, muito menos criado. Não sei como é que o povo não se afoga no meio de tanto metal a saltar! Mais capciosa é a estratégia de certas reivindicações – neste preciso momento! -  que ostentam a bandeira de melhor servir o público, mas que no fundo, como “gato escondido com o rabo de fora”, lá está a campainha a puxar por mais ‘guita’…
Sem dúvida que não há obra sem orçamento, mais a mais quando toca a dinheiros públicos. Mas o que mais confrange e indigna é esta forma saloia de mandar assentar o povo no chão da favela e atirar-lhe abadas de moeda a rodos, como se fôssemos um rebanho de esfomeados à espera de barretes cheios de tostões. Normalmente são estes os comportamentos das forças dominantes, os “bicheiros” do tesouro público, tesoureiros dos impostos cobrados aos contribuintes.
Espera-se que haja mais elevação na retórica de persuadir as populações. Que se não faça da campanha uma roleta de casino. Que se não caia em frívolos compromissos inexequíveis. Tenham vergonha de se apresentar como dadores de um bodo aos pobres. Antes era a espetada, hoje é o porco assado na via pública, fazendo lembrar cenas mendicantes de há quinhentos anos passados. Estamos no ´seculo XXI. E os valores acumulados de uma educação cívica, cada vez mais  progressiva, não suportam o linguajar barato das feiras medievais, muito menos o chocalhar lá gasto de moedeiros falsos.
Os concelhos e as freguesias merecem um olhar maior!

23.Set.17

Martins Júnior     

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

FURACÕES DE LONGE E DE PERTO !


No seu histórico testemunho – “Homem Algum é Uma Ilha” – Thomas Merton conecta-nos com o mundo inteiro, Em cada existência particular perpassa toda a amplitude do tempo e do espaço.  Nada nos é indiferente. No mesmo tom poderíamos dizer que nenhuma ilha é um ilhéu. A nossa também. O que se passa lá longe, nos antípodas do mundo, toca-nos também. E os longínquos tsunamis o mar encarrega-se de trazê-los à nossa costa. Mal iremos se não dermos por eles. Porque cedo ou tarde sentir-lhes-emos os efeitos.
É por essa razão que partilho convosco a notícia do maior furacão que, por estes dias, abalou a América e o mundo. Não foi o,”Irma” nem o “Maria” nem outro similar. Foi o torpedo que desabou na Casa Universal da Paz, sede das Nações Unidas. Chamo-lhe torpedo, expressamente, pelo que tem de torpe e de destruidor. Torpe, porque na magna assembleia do mundo aquele esgar monstruoso – a que chamam discurso – nunca teria lugar. Razão tem o jornal   Le Monde ao afirmar, no seu editorial de hoje, que  “Trump rebaixou a ONU”.  Destruidor, porque atenta contra todos “os esforços diplomáticos multilaterais dos últimos anos”, como o Acordo de Paris sobre as alterações climáticas e o Acordo sobre o nuclear iraniano. Nem mesmo a presença e a mensagem aglutinadora do Secretário Geral António Guterres serviram para refrear os instintos primários mais grosseiros de quem se esquece da matriz democrática originária do país que dirige. Um povo herdeiro de Jefferson, de Lincoln e de Luther King ter-se-á sentido humilhado e ferido na sua honra patriótica. Ameaças, destruição e guerra, não há outro vocabulário naquele tosco exemplar de vilão armado, em nada diferente do anafado pigmeu Rocket Man de Pyongyang.
Nenhuma ilha é um ilhéu. Mas de um ilhéu pode fazer-se um monstro, um Trump, um Kim Jong-Un. A Madeira não está imune. E é esta quadra eleitoral o húmus propício à incubação e explosão dos tais instintos grosseiros atávicos em regimes de tradição totalitária. Eu sou daquele tempo – e esse tempo fica ao alcance dos dedos de uma só mão – em que as campanhas eram capitaneadas pelo ódio tribal, pelo furor, pela paranóia do poder, enfim, pelos típicos tiques trumpistas e norte-coreanos, ao ponto de “atiçar” povo contra povo. “Quando aparecer alguém de outro partido, não chamem a polícia, não chamem o presidente da câmara: resolvam o caso pelas vossas próprias mãos”. Não foi na Coreia. Foi na Madeira.     
     No começo de uma maratona que tem a meta no 1º de Outubro, faz bem trazer ao palco as reminiscências de um passado recente para erradicar liminarmente da boca dos ‘oradores’  as baforadas mal cheirosas, (para não dizer caninas) de que mais tarde virão a arrepender-se. Não queiram ‘as senhoras oradoras’ – sobretudo, elas -  imitar as grotescas figuras daqueles  que bajularam  outrora. Porque tudo se paga.
Numa campanha acesa mas brilhante, arguta mas sensata, combativa mas alegre – até os que perdem ficam a ganhar. Porque no recolher dos despojos só haverá um vencedor: o Povo! Esclarecido e civilizado.
Essa, a maior vitória do 1º de Outubro de 2017!

21.Set.17

Martins Júnior

terça-feira, 19 de setembro de 2017

PORTUGAL ANDA NA RUA


Hesitei no titular este nosso – hoje, breve  - convívio epistolar.  Entre dizer “O Poder está na Rua” e “O País saiu de Casa”, optei pelo impacto visual que, a partir de agora e durante dez dias ininterruptos, surgirá diante dos olhos e dos ouvidos de toda a gente. É a campanha eleitoral. Dedico-lhe estas linhas com a frieza do espectador distante e, ao mesmo tempo, com o empenho e o ardor de quem já viveu até à exaustão o verve buliçoso desta inolvidável estação.
Bandeiras, tambores, foguetes e balões vão clonar-se com hinos, decibéis, arruadas, cornetas e palavras… sobretudo as palavras que, se não forem colocadas no lugar certo, correm o risco de aturdir os ouvidos e ‘estrebuchar-se’ no chão como foguetes suicidas. Nunca como agora, nesta novena-dezena pré-eleitoral, misturar-se-ão na mesma rua amores e azedumes intestinos, simpatias e esgares, palmas e palmadas, ‘vivas e morras’ emotivos, enfim, um brouhaha (passe o galicismo) ensurdecedor mas divertido, porque multicolor e expansivo. Vejamos com humor e bom senso as viaturas que deslizam como andorinhas fugazes, os risos-sorrisos deles e delas pinchados na folha fluorescente dos capons-auto, acima de tudo ponderemos a Palavra e as palavras. Sempre o peso e a autoridade soberana  da Palavra para, mais tarde, confrontá-la com os factos.
Faço votos para que não haja batidas à-toa, ultrapassagens saloias, pregos nos pneus de concorrente para concorrente e, mesmo nas curvas, haja o discernimento suficiente de não atropelar os espectadores, seja nos palcos e comícios, seja no áudio-visual, seja nas redes sociais, porque aí começa a derrapagem e lá se vai abaixo o almejado pódio, porque o Grande Júri  será o Povo, o tal espectador, silencioso e atento na berma da estrada.
Aos candidatos oradores deseja-se o Dom da Palavra.  E o dom não está no gesto ou no peso – que se não faça do microfone um calhau para atirar sem jeito, porque “fala fora da boca é como pedra fora da mão”. O dom também não está no grito, porque (relembro a tabuleta que vi escrita numa rua de São Paulo, Brasil)  “Se grito fosse valentia porco seria herói”. O dom não está no olho estrábico que falha a direcção e só vê o buraco da véspera, o saco de plástico ou o urinol mal colocado. Já assisti a tudo isso. E é tudo isso que fede ar nauseabundo e afasta o Juiz-espectador.
É de saudar a presença feminina, saudável e libertadora, na rua e no palco. Que a sua particular sensibilidade imprima elegância e verdade no discurso público. Sobretudo, que se não volte à barbárie verbal e factual que durante quase quarenta anos os madeirenses tiveram de suportar.
Finalmente, nesta corrida não há grandes nem pequenos. Todos são grandes e todos são pequenos. Se os houvesse, eu passaria aos pequenos a receita do grande Apeles, príncipe da pintura grega: “Não suba o sapateiro acima da chinela”. E aos grandes (ou que assim se julgam) prescreveria a máxima de Luís Vaz de Camões: “É fraqueza entre ovelhas ser leão”. (I,68).
Boa luta, melhor campanha.  Para nós, ilhéus, traduzo o título: “A Madeira anda na Rua. Nestes dez dias, o Poder está na Rua. Porque a Soberania está no Povo”. (CRP)
Vê-lo-emos no 1º de Outubro!

19.Set.17
Martins Júnior


  

domingo, 17 de setembro de 2017

QUEM ACODE AO PAPA FRANCISCO ?...


       Em finais apoteóticos das festas religiosas madeirenses que funcionam como suaves narcóticos de verão e, simultaneamente, no início das arruadas-cardadas que já enchem becos, avenidas e casas próximas, parece despropositado trazer à nossa mesa um tema recorrente: a  guerra civil na Igreja. Surda, abafada, acobertada dentro e fora das sotainas romanas – ela já levanta cabeça, nalguns casos por omissão, mas noutros por acção militante, notória. Andamos, os católicos,  distraídos com festas e procissões, mas a verdade é essa: os quartéis-generais do Vaticano preparam minas e armadilhas, traçam mapas de assalto e cerram trincheiras. Contra quem?... Contra os bárbaros, não. Contra os heréticos, comunistas  e muçulmanos, também não. Contra quem? Coisa que ninguém imaginaria…contra o Papa Francisco! Quem são os conspiradores? Os “Príncipes da Igreja”, os Eminentíssimos Cardeais e seus acólitos!!!
         Um caso recente veio acender o rastilho, quando o Cardeal Gerhard Muller (que fora nomeado pelo Papa para a Doutrina da Fé) decide organizar outros cardeais, entre eles o já conhecido africano Robert Sarah, (também nomeado Prefeito da Cúria para o Culto Divino) com o propósito de celebrar um solene ofício litúrgico em latim no Vaticano, ostensivamente, sem dar qualquer conhecimento ao Papa Francisco. O gesto não teria grandes conotações se não proviesse das tais figuras que ultimamente têm-se perfilado contra o Pontífice da Igreja e a que se junta o americano Raymond Leo Burke e outros bispos e padres fundamentalistas  conservadores. Foi este último que até chegou a propor a destituição de Francisco pelo crime de heresia. Onde isto já vai!
         Tudo porque o argentino Bergoglio, ao chegar ao Vaticano, tomou a decisão de refundar a Igreja a partir das raízes, corrigindo com firmeza as anomalias internas da Cúria Romana dominada pelos tais “Príncipes eclesiásticos”. Com a eleição de 2013, eles imaginavam  que a simpatia que o Papa conquistou em todo o planeta serviria tão-só para distribuir sorrisos paternalistas ou jogar água benta ao ar como confetis no carnaval ou foguetes de artifício em arraiais de festa. E eles, claro, sempre anafados e refastelados em suas poltronas de escarlate …em nome de um Cristo pobre e assassinado. Enganaram-se redondamente. Quando viram que o homem que “veio do fim do mundo” pôs o machado à raiz e começou a desinstalar dos seus tronos (o primeiro exemplo foi o dele próprio) toda a corrupção e vaidade do Vaticano, os “Príncipes” consideraram a sua eleição como um tremendo “erro do Espírito Santo”. Nesta sua nobre e corajosa atitude  olho o Papa Francisco e vejo nele a silhueta daquele Cristo que pegou em azorragues e expulsou os “vendilhões do Templo de Jerusalém”. Aí começou o maquiavélico processo que O levou à morte. No mesmo paralelo de similitude, vejo nestes “Eminentíssimos  Cardeais” as sinistras figuras dos Sumos Sacerdotes Anás e Caifás que perpetraram clandestinamente o assassinato de Jesus.
         Os cristãos não sabem disto. Como não sabem também que o dito cardeal africano teve até a ousadia de falar já num novo “Cisma da Igreja”, idêntico ao que há mais de mil anos (1054) deu origem ao corte e separação da Igreja do Ocidente (Roma) e da Igreja Ortodoxa do Oriente (Constantinopla).  “Cisma” em linguagem canónica é o mesmo que guerra civil.
         Onde quero eu chegar com esta notícia que merecia um desenvolvimento mais alargado?... Simplesmente à constatação de que o Papa Francisco está em perigo. Não por atentado de um qualquer AliAcka, mas de dentro da própria casa, sediada no Vaticano. Não tenhamos ilusões: ainda está por explicar a morte misteriosa do Papa João Paulo I, com o qual o actual  tanto se parece. Para um observador atento, há-de notar que as saídas que Francisco tem feito são quase todas para fora da Europa, sobretudo América Latina, a última à Colômbia, como a foto documenta. Pretenderá ele voltar-se para uma nova Igreja, genuína e limpa, tal como a quis o seu Fundador, virando costas à velha Roma corrupta, anti-evangélica e anti-crística?!...
E quem poderá acudir ao Papa? Só os cristãos de base, os abnegados e puros de olhar, os que não põem as mãos nos bancos-vaticanos espalhados e assolapados nas dioceses e nas paróquias. Os que querem conhecer a verdadeira face de Cristo. Os que amam a justiça de um mundo melhor. Sinal dos tempos: chegou a hora de convocar e mobilizar os verdadeiros crentes para libertar e salvar o seu Líder Humano-cristão! Porque precisamos dele. E também para denunciar e desmascarar aqueles que ontem excomungavam ou suspendiam  quem desobedecesse ao “Santíssimo Papa” e hoje são os primeiros a desautorizá-lo e a condená-lo.
Vou terminar a escrita, mas não o pensamento. Como é possível descansar sobre este vulcão pré-cismático de ver um Papa vilipendiado, agredido, verbal e ideologicamente, pelos seus mais directos colaboradores que não querem perder abusivos privilégios e mordomias à sombra de uma hierárquica religião contraditória, porque  caduca e pérfida?!... Andamos a dormir, inconscientes. Alheios, Em cada país, em cada região e em cada lugar há sempre mini-cardeais desejosos de ver o Papa pelas costas. E há também companheiros de luta e de fé, que cheiram a terra e a corpo mas transcendem-se no espírito e querem ser “sentinelas da madrugada” do Papa Francisco.
Acudir ao Papa é saber discernir. E agir em conformidade.

17.Set.17

Martins Júnior

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A CAMINHO DO BANCO-ESCOLA, ESQUADRÃO-ESCOLA, MÃE-ESCOLA

Para a Vitória, no seu primeiro dia de pré-primária


Lá vai ela estrada fora
Pétala ambulante desprendida
Da corola-mãe que lhe deu vida
É o sol nascente que lhe bate nos ombros leves
E a leva inconsciente à porta do futuro
E a brisa da manhã  abre-lhe  as pupilas
Ainda lassas do escuro
E do sonho dessa noite

Os olhos maternos à distância
Não lhe perdem um passo um suspiro
Dessa primeira infância
Da liberdade incauta e pura

Lá vai ela fermosa e não segura
Encontrar para perder-se
E outras vezes tantas
Perder  para encontrar-se
No mar dos peixes azuis dos cetáceos e jamantas
A que chamam ciência e competência

Lá vai ela
Demandando a longa história
Do seu nome primeiro
Vitória

Lá vai ela

Já te espera
O mundo todo à janela
Do esquadrão-escola

No colorido peso da sacola
Vão deitar-te escudos arcos e aljavas
Para  enfrentares a selva que nunca imaginavas
Escondida
Nas linhas  entrelinhas dos livros que te derem

Grandura que se ganha
Candura que se perde
Preço da ‘letra’ amortizável que o banco-escola detém

Limpa a lágrima que te caiu no bibe
Salta à corda canta  vive
Todas as tardes hás-de voltar à casa da tua mãe

15.Set.17
Martins Júnior

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

DEMOCRACIA EM FESTA!


Agosto ido, Setembro vindo, Outubro abrindo. Por outras palavras, a festa continua. Outros traduzirão “a luta continua”, mas eu prefiro olhar o 1º de Outubro como a Festa da Democracia. Porque aí, ganhe quem ganhar, é o “Povo Quem Mais Ordena”.
Disse “ganhe quem ganhar” e não disse “perca quem perder”,  porque até aqueles que não conseguirem os seus objectivos podem estar cientes de que não perderam. Pela simples e magna razão  de terem contribuído para o processo democrático. Sem eles, teríamos o império do partido único, a ditadura do UI (o “Único Importante”, mesmo que desprovido de todo), cuja triste memória ainda ensombra as gerações presentes.
Eis, portanto, o valor acrescentado do processo eleitoral. Todos têm acesso aos centros de decisão, todos “nascem iguais” perante a escada do poder. E isso é festa. Demonstra-nos, a olho nu,  o arraial dos empolados estandartes com os candidatos rindo e sorrindo a-bandeiras-despregadas e as candidatas esvoaçando ao vento as cabeleiras ruivas, negras, multicolores. E as palavras de ordem que se soltam, simpáticas, sonoras,  oferecendo-se atrevidamente ao viandante desprevenido.
No entanto,  o mais determinativo é o processo. Direi mesmo que só haverá festa democrática no 1º de Outubro se democrático for o percurso - o processo - de lá chegar. Ou seja, de subir a escada e fazer a escalada até ao topo da montanha.  E aqui é que camba e descamba o ritmo da democracia viva, assumida, autónoma. Embora todos partam, creio eu,  animados e convictos de fazer o melhor para a comunidade, nem sempre se apercebem que são marionetes suspensas dos dedos dos seus patronos, os partidos.  Quem, por experiência visual acumulada, se põe a observar o recrutamento de  populares ‘anónimos’, não deixa de ver que o único móbil que faz correr muitos  assalariados partidários é  “concorrer a todos os concelhos e freguesias”, para apresentar aos “comités centrais ou regionais” um recheado ‘palmarés’,  ainda que  levem na mão uma certidão de óbito eleitoral. Daí, toca-se num amigo quieto, num primo, depois num eventual descontente dissidente, talvez premiando-os com os dez dias de campanha e consequente  folga ao trabalho, aliciando-os, para cúmulo, com um assento que pode valer umas ‘coroas’. E lá vão, “cantando e rindo, levados levados sim”, como cantava a extinta “Mocidade Portuguesa”.   Com este processo e com estas muletas (em que vale tudo) fica claudicada a subida, porque o que sobra em quantidade nas listas escasseia na qualidade e na mística de servir a comunidade.
Para esclarecer quem duvide deste parágrafo, limito-me a descrever a atitude de alguém que foi eleito para membro de uma assembleia de freguesia. Na hora de tomar posse, perguntou: “Quanto é que isso dá?”.  Perante a resposta legal – “ganhas o correspondente a uma senha de presença por cada sessão” – resolveu liminarmente o assunto: ”Isso não me dá para um par de solas nas botas. Renuncio já”… E saíu porta fora. Hoje aparece num cartaz público como cabeça de lista de um outro partido quase irreconhecível na Madeira!!!
Assim, não há festa no 1º de Outubro, porque o processo enferma de um vício estruturalmente anti-democrático. Porque o que se requer no percurso é a inteira disponibilidade ética e psicológica  para construir uma Democracia  convicta, autónoma, desinteressada.
Já foi dito que a quantidade prejudica a qualidade. Inter-partidos e intra-partidos.  Ao ponto de se descobrirem grandes valores  em formações pequenas. “Por saber de experiência feito”, confirmo-o e atesto.  No entanto, não obstante as raras excepções, têm razão aqueles que, perante a prolixa proliferação de partidos concorrentes, vêem uma inflação de mercado, uma democracia por excesso que é o mesmo que democracia por defeito. Sobretudo quando certos peões do xadrez politico estão encapotadamente, como mercenários,  ao serviço das torres hegemónicas e dos cavalos desenfreados que assaltam o poder, a qualquer preço.
O que aqui trago é uma opinião que necessariamente não é dogma.  Outros terão pensamento divergente. Respeitável, na mesma medida. Como cidadão que sou, tenho o dever, mais que o direito, de afastar pedregulhos traiçoeiros de circunstância e preparar o caminho para que no 1º de Outubro  passe, como rainha vitoriosa, a Democracia em cada Freguesia, em cada Concelho, em cada Região deste país. E haja Festa, a “Festa do Povo/ Do Povo que trabalha/ E faz o mundo novo”.  

13.Set.17

Martins Júnior    

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

“SE O PAPA FRANCISCO VISSE ISTO”…


“Muitos padres e bispos e cardeais não gostariam do que hoje acontece nesta festa. Mas o Papa Francisco se visse isto, de certeza, ficaria muito contente”. Logo de seguida, o orador sacro justifica: “Uma festa transparente em que todos participam, crianças, jovens, idosos… Uma missa alegre, fresca que nos dá saúde e alegria”.
Trago aqui as palavras  com que, ontem, o Prof. Doutor Padre Anselmo Borges iniciou a cerimónia comemorativa da Festa da Senhora do Amparo, na Ribeira Seca. Com este testemunho de quem calcorreou durante cinquenta anos a trajectória do sacerdócio – e, daí, a nossa homenagem associada – encerro hoje os conteúdos que  o Senso&Consenso apresentou durante mais de uma semana.
E agora aproveito o momento para concretizar alguns dos traços identificativos que levaram Anselmo Borges a proferir tais declarações. Com efeito, quem nos visitou neste fim-de-semana deve ter notado que não há nenhuma barreira arquitectónica, nem sequer uma nesga de cortina entre o templo e o parque da festa focalizado no palco aberto. Aqui a alegria é meridiana, sem tracejados de espécie alguma, passeando-se entre  o adro e o altar, porque a brisa que o Povo respira tem o mesmo espírito desinibido, franco, libertador. Assim acontece quando o Povo é o Autor e o Actor das suas festas, como já referi ao longo destes dias ímpares. Sem lisonja nem tiques narcisistas, a verdade é que os seis ‘sítios’ desta comunidade  fizeram desfilar no palco o gracioso friso coreográfico, onde mais de cem “artistas do Povo” cantaram o passado, o presente e o futuro.
Julgo, porém, que a motivação maior do testemunho do padre filósofo e teólogo consistiu na forma e no estilo da cerimónia litúrgica. Não apenas, as vozes espontâneas acompanhadas da tuna de bandolins, mas a transparência e a serena liberdade expressas  no olhar dos participantes, a eliminação de rituais frios, maquinais, ininteligíveis para quem assiste. As vestes talhadas pelos figurinos egípcios dos faraós, os rendilhados de ‘lingerie’, os rostos hieráticos como estátuas – todo esse ridículo artifício não pode coexistir naquele  recanto de espiritualidade e catarse global. Na hora da Comunhão, o nosso Cristo e a Sua Memória não precisam de estafetas-diáconos nem pombos-correios para entrar na boca e no coração das pessoas. Cada qual obedece, se assim optar, por um impulso interior assumido e dirige-se pessoalmente à Mesa da Igualdade e da Fraternidade, cantando desinibidamente que “O Senhor ficou na Eucaristia para dar a todos pão e alegria”. O cortejo processional ao longo das ruas principais reúne um ‘mar’ de gente, mas ninguém comete o sacrílego gesto de comprar Deus ou a Senhora com um coto de vela a que chamam “promessas”.
A leitura de um texto bíblico feita por um dos presentes e por ele comentada, sem censura nem limitação do pensamento livre, constitui um dos motivos de atenção e ponderação dos participantes. É a palavra dada (melhor, restituída) ao cristão personalizado, consciente do seu lugar na Igreja.

“Se o Papa Francisco visse isto ficaria muito contente”. Razão tem o nosso pedagogo Anselmo Borges. Porque é esse Homem, “vindo do fim do mundo” que outra missão não tem senão o de injectar Vida nas veias de um cristianismo anémico, esquálido como as estátuas de cera,  de ‘pantalha’, que transforma o acto libertador da Eucaristia numa “camisa de onze varas”  onde se é obrigado a estar mudo e quedo durante uma hora ou mais. Como aquele cardeal africano, de nome Sarah, travestido de pasteleiro (a afirmação é da minha responsabilidade) para quem a validade da  Comunhão depende de ter ou não ter glúten na hóstia!!!... Ó Cristo, vem ver a que reduziram a Tua Entrega Total ao ser humano, nessa noite de Quinta-Feira Santa! A um pó de glúten! Este é o mesmo cardeal, ‘Príncipe da Igreja’, que enfrenta o Papa Francisco e exige que o Celebrante tem de voltar a rezar a missa, de costas para  os cristãos…
“Se após este Papa vier um outro, de estilo dogmático-tradicionalista, a Igreja afunda-se” – conclui o teólogo citado em epígrafe. Séria reflexão!   
  Escrevo e aperto a cabeça entre as mãos, ao “rever” esse bárbaro ataque às Torres Gémeas, de Nova York. Faz hoje dezasseis anos! E intimamente, comovo-me e completo o cântico da Comunhão da nossa festa:
“Porque o Senhor ficou na nossa terra
Gritamos NÃO à fome, NÃO à guerra”.

11.Set.17
Martins Júnior

sábado, 9 de setembro de 2017

RIBEIRA SECA SAÚDA E AGRADECE


No ano de ouro do jubileu sacerdotal do Prof. Dr. Padre Anselmo Borges, o Povo desta modesta ‘cidade cristã’ felicita o Mestre e o Amigo que hoje e amanhã se encontra no meio de nós. Juntamo-nos assim  às homenagens intimistas que em Portugal (Lamego) e na Alemanha milhares de pessoas têm prestado àquele cuja vida é o de bandeirante da Verdade, ousado e firme, abrindo clareiras de luz por entre as sombrias veredas do obscurantismo retrógrado.
Todos quantos quiserem associar-se  a este gesto de gratidão e amizade poderão reunir-se connosco amanhã, domingo, às 17 horas no templo da Ribeira Seca.
09-10.Set.17

Martins Júnior

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

EM CANTO E VERSO TAMBÉM SE CONTRÓI UM CENTRO DE SAÚDE

 “Pelo sonho é que vamos”,  E pelo cantar nos levantamos.
É por isso que nesta semana, a canção é a nossa estrada. Foi por ela que os nossos avós caminharam e com ela ergueram bandeiras que hoje são realidades concretas ao serviço da comunidade. Na programação da nossa Festa, 9 e 10 de Setembro, respigámos sons antigos que não só suavizaram as carências de outrora, mas ousaram afrontá-las e esconjurá-las, chamando à razão os responsáveis pela res publica.  E  quem tem acompanhado o Senso&Consenso destes dias já se deu de contas do empenho pró-activo com que há mais de quatro décadas os habitantes deste parco agregado populacional viveu, sofreu e lutou pela solução das assimetrias de que eram vítimas as gerações atiradas para a periferia e para a ruralidade. A sua praça era o palco e a sua  arma era a canção
Hoje, acabámos o ensaio de uma das peças mais marcantes dessa época, altura em que Machico não tinha “Centro de Saúde em condições”. Os serviços de assistência médica e medicamentosa eram prestados no antigo “Sítio da Queimada”, Água de Pena, no extremo limite do concelho, num prédio pertencente ao Bairro dos Pescadores, entretanto deficientemente adaptado para o efeito. Além da marginalização a que eram votados os camponeses, estes eram obrigados a deslocar-se “lá longe” ao dito sítio.
Dessa triste realidade nasceu a canção que os filhos e os netos prepararam para a Festa, em memória e gratidão pelo esforço militante que pais e avós manifestaram, contestando a situação e, em certa escala, apressando os governantes a construir o Centro de Saúde que hoje Machico possui.
Se é verdade o ditado antigo ridendo castigo mores, não é menos verdade que cantando construímos um mundo melhor. Eis, pois, a transcrição da saudável mensagem de uma luta que viu o sucesso almejar


“Quando o nosso Povo sai à rua
É a vida que recomeça de novo
Quem canta põe a vida mais alegre e mais bonita
Quem canta dá saúde a todo o Povo

Coitada esta gente camponesa
Que até na doença é desprezada
Os novos e velhinhos se adoecem cá no campo
Só tem longe o ‘Centro da Queimada’

O que mais pena dá são as crianças
Que esperam tantas horas p'rá vacina
Um abuso tão grande contra quem é pequenino
O Povo não aprova nem assina

Por isso a gente exige e com razão
Aquilo que se disse tantas vezes
Um Centro de Saúde em condições para Machico
E postos naturais p’raos camponeses

Esta nossa paróquia mesmo pobre
Emprestou o salão para enfermagem
Lutámos pelo Centro de Saúde e hoje o temos
Machico parabéns nesta homenagem

 REFRÃO

Vem tronco em flor
Povo que te levantas
Conta a tua dor
Nos versos que hoje cantas
O Povo em Festa
Canta mas não se ilude
Quer ter e com razão
O Centro de Saúde”

O7.Set.17

Martins Júnior

terça-feira, 5 de setembro de 2017

INAUGURAR O QUÊ? - UM PASSADO QUE É PRESENTE


E a festa continua…

Para uns, a festa é o espaço que vai de um foguete a outro, é fato novinho em folha ou  estralejar de feira, circunscrito à algazarra efémera da véspera e do dia. Para outros, a festa é tudo o que vem antes dela. É o encontro de braços e vozes que se empenham dias, semanas, talvez meses, em que é anfitriã a alegria de, em sã convivialidade,  conceber, plasmar, corrigir e, por fim, apresentar-se um Povo, olhos nos olhos,  na força do seu viver e na originalidade da sua obra, expressa em canto, verso e dança. “Nas festas que o povo organiza há mais alegria e verdade” – é, desde há décadas, o refrão festivo desta comunidade.
         Connosco, dança e verso e canto não rimam com alienação e droga, porque o Povo descobriu que a festa é sua e nela devem reflectir-se as suas vivências, as ressonâncias do seu passado e  o apelo dos amanhãs futuros.
         Nesta semana preparatória da nossa festa, 9 e 10 de Setembro, continuo a divulgar apontamentos breves de um programa feito pelo Povo, com o Povo e para o Povo, ao mesmo tempo emissor e destinatário, produtor e consumidor. Hoje, trago-vos a evocação dos anos oitenta, com especial dedicatória para os “inauguradores”, tão ao gosto da época, acolitados dos mesmos predadores de dinheiros públicos, lambe-botas, glutões de circunstância. Nesta canção, alude-se a uma estrada, por mim iniciada na Ribeira Seca em 1975 e, só treze anos depois, asfaltada e inaugurada pelo “Tomás das pipas”, assim se disse na altura. Recordo-me de ter afirmado na Assembleia Regional que “Vasco da Gama, para descobrir o caminho marítimo para a Índia, levou menos tempo que o governo regional para asfaltar um caminho em Machico”. O homem inaugurou pomposamente a estrada, com vinho e vaca à mistura, mas logo a seguir, surpreendentemente… perdeu as eleições no concelho. O Povo demonstrou ser juiz clarividente e censor implacável contra quem o espezinhou durante treze longos anos!...
         Aí vão, pois, as letras da canção, que filhos e netos vão repetir em memória e gratidão para com pais e avós que muito lutaram por um futuro melhor. Na folha do calendário que atravessamos, talvez não fique desajeitado (muito pelo contrário) revisitar o ritual das inaugurações:
      

Inaugurar o quê?
Aquilo que se paga
Quanto mais se inaugura
Mais dinheiro se estraga

O que o povo precisa
Mas o que o povo precisa
É de ver a sua vida muito bem organizada

Inaugurar o quê?
Uma estrada de terra
O povo deu o terreno
Há treze anos espera

O que o povo precisa
Mas o que o povo precisa
É de ver a sua estrada
Sem demora alcatroada

Inaugurar o quê?
A luz que tanto tarda
Trabalhamos para os outros
E ficámos sem nada

O que o povo precisa
Mas o que o povo precisa
É de ver a sua terra
Sem demora iluminada

Inaugurar o quê?
Pra vir o corta fitas
Ontem era o Tomás
Hoje é o Tomás das pipas
O que o povo precisa
Mas o que o povo precisa
É de saber a verdade
Sem ligar ao troca -tintas

Refrão
As estradas são do povo
A luz é do povo
Ele é que é o patrão
O povo é quem paga tudo
Essa é a nossa condição
O povo é quem paga tudo
É  nossa a inauguração

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05.Set.17
Martins Júnior

domingo, 3 de setembro de 2017

CHAMAR O DIA DE AMANHÃ


Na Madeira, o portal de Setembro  recebe ainda as escorralhas  de um Agosto regado de arraiais, conjuntos e foguetes “de lágrimas”. É assim que o ilhéu define os fogos de artifício. Cada povo ecoa o “bom, o mau e o vilão” que lhe correm nas veias. Enquanto no norte da ilha, o despique é rei e as ‘promessas’ são jóias da coroa do “Bom Jesus”, no sul entroniza-se o deus Baco, onde o vinho é anfitrião e  maestro. Os festivais de tudo e de nada, os futebóis luso-magiar e a vitória dos ‘nossos’ e outros que tais enchem e preenchem as prateleiras da nossa  despensa colectiva.
Enquanto isso, limito-me hoje a  trautear  uma das canções que os grupos locais preparam para  sua festa, em 9 e 10 de Setembro p.f. - uma festa em que o Povo é actor e autor. Pelo que revela de força anímica e pelo optimismo esperançoso com que os jovens enfrentam o futuro, transcrevo-a para quem sentir connosco o apelo do Amanhã:

Somos o dia que amanhece
O lenço branco da alegria
Se a gente vem tudo aparece
P'ra vir saudar o novo dia

Mas o jovem não encontra o seu lugar
O seu sonho não deixam realizar
Mas um dia sua hora há-de chegar
E a vitoria finalmente há-de cantar

REFRÃO

Viva quem ama
Uma vida sã
Viva quem chama
O Dia de Amanhã
               *
O nosso chão é a madrugada
O pico alto é o meio dia
Cheia de luz é a nossa estrada
Porque a Esperança é quem nos guia

O caminho muito custa a percorrer
Na subida é preciso combater
Sabemos que outros vão desfalecer
Mas nós vamos até ao fim e até vencer
                         *
Irmão amigo vem depressa
Junta-te à nossa companhia
A vida sempre recomeça
A toda a hora há um novo dia

Já aprendemos nesta vida esta lição
Os que lutam nunca trabalham em vão
Não se cansam de lutar em união
Vem depressa meu amigo e meu irmão
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03.Set.17

Martins Júnior

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

QUANDO CHEGAR É SINÓNIMO DE PARTIR…


“Ei-los que partem”…
Assim começa a canção-sombra que a minha geração aprendeu na voz doce e plangente de Manuel Freire, descrevendo a dolorosa expectativa dos nossos emigrantes a caminho de França. Mas hoje eu opto pelo seu contrário: Ei-los que chegam… Após as férias, ei-los que chegam - os veraneantes que somos - cabisbaixos, ensonados, mais cansados que à partida.
Agora, é o limpar o pó das mobílias, ajeitar a sala, esquadrinhar a ordem mecânica das ferramentas diárias, voltar à monotonia dos gestos iguais, o bater anti-alzheimer das horas que nos chamam à pedra. São os petizes que treinam as costelas para carregar os livros, são os professores que têm de andar cem e mais quilómetros para encontrar a ‘sua’ escola, são os juízes cujos ombros voltam a vergar ao peso das togas sancionatórias, são os eventuais condenados de delito comum obrigados ao banco aos réus. Sem falar daqueles que agora comem o pão-de-cinza que o diabo amassou. E são também os políticos-candidatos transpirando com as dores de parto do 1º de Outubro, p.f.. Destes, porém, e da sua imensidade tão polifacetada quanto monocórdica (senão mesmo indigesta) cassete, lembrar-me-ei em breve.
Adeus, Agosto claro e benfazejo, tinto  das tonalidades estivais! Agora, é a bruma outonal de Setembro. Acabou-se o tempo da cigarra e entrou-se na laboriosa oficina da formiga. Mas, alto e sonoro, impõe-se  e cresce dentro de nós, como um espigão inquebrável, o pensamento de Frederico Garcia Lorca: “Tudo quanto fazemos não é nosso, é dos outros e para os outros,  pertence ao amanhã”. De outra forma, direi que o Agosto (todos os agostos) nós o capturámos para o nosso prazer subjectivo, enquanto o Setembro (todos os setembros) já não será nosso, é pertença de outros, desagua sempre no bem colectivo, dentro ou fora das quatro paredes  que habitamos.
Guiados por esta bússola interior, descobrimos que afinal, não chegámos. Partimos. Estamos sempre de viagem. Setembro entrado, o tictac dos ponteiros ganha o metal vibrante  de um clarim soando a madrugada.  “Esta é nossa hora”!
Ei-los que partem. E ei-los que chegam para tornar a partir. É sempre bela e auspiciosa a nossa largada.

            01.Set.17

            Martins Júnior

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

ENTRE O AGOSTO GOSTOSO E O SETEMBRO BRUMOSO…


Atravesso a ponte – o longo e largo passadiço que começa pelo fim e acaba no princípio – entre o “31” de hoje e o “1” de amanhã. Não sou mais que um transeunte dentro da multidão anónima. Todos deixaram na outra margem a quietude sonâmbula dos dias e das noites sem ponteiros. E agora apetrechamo-nos para alcançar o ilhéu de nuvens, do tamanho do mundo. Aí   acordaremos para a prosa corrente das horas repetidas. Quando lá chegar (e amanhã será) contar-vos-ei o que os meus olhos vêem e a minha mão escreve na ponte ímpar entre duas margens…

31.Ago.17
Martins Júnior  


terça-feira, 29 de agosto de 2017

A CADA QUAL - SEU FESTIVAL

          

          Diz-me qual é o teu – e eu dir-te-ei quem és.
Podia ser assim o subtítulo deste passatempo breve. Breve e, em hora certa, divertido. Aproxima-se o fim do mês ‘gostoso’, onde é rainha a ridícula silly season, com entrevistas de cordel, areias cor-de-rosa na praia dos jornais, reportagens “chapa-seis” que dão para qualquer locutor preencher de mais vazio o vazio da estação.
Nem é preciso simular. Basta reproduzir. O jornalista, entre  saltimbanco e ‘franco atirador’, enguia-se pelos apertos do arraial e pergunta: “Então, está a gostar?... De onde veio?... Algum compromisso especial”? E a resposta é pronta: ”Vim da Venezuela (do Canadá, da Austrália”), cheguei ontem e vim comer e beber no arraial”. O homem do microfone joga-se para a porta do estádio e faz o passe ao nosso emigrante: “Então, aqui? De onde é que veio e para quê”? E o ‘instrangeiro’ marca logo: “Venho da América, andei mais de 3.000 Km para ver o Portugal-França”. Mais modesta e composta, a estagiária na “TVerão”, mete-se na procissão do norte da ilha: “E a senhora, foi a fé que a trouxe?... vem de longe”?  E a devota, de mantilha piedosa a cobrir cabeça e ombros,  balbucia: “Vim da África do Sul pagar (!!!) a promessa ao Senhor Bom Jesus (ou à Senhora do Monte, ou à do Livramento ou a Nossa Senhora do Calhau, tanto faz)”.
Três motivações, qual delas a mais distante uma da outra. Mas há mais. Os que planeiam o ano inteiro para chegar mais cedo ao palco da Zambujeira do Mar, de Vilar de Mouros, do Rock in Rio, de Coachella Fest na Califórnia. Até  o mais rasteiro ‘alibabá’ não larga a vida sem ir a Meca. E os ungidos do óleo pascal juram que não morrem sem ir a Roma “ver o Papa, que é Deus na terra”.
O mercado é enorme, não conhece fronteiras e o seu limite é igual à desgarrada imaginação de cada qual. Uma, porém, deixou-me de bruços, dependurado numa incógnita insuperável. Foi aquele casal, emigrante há mais de trinta anos num ‘país capitalista’ (assim mo disse)  que todos os anos programa as férias para estar presente na “Festa do Avante”. E lá vai ele, asinha, para a Atalaia do Seixal. Dispenso-vos, ‘kamaradas’ ilhéus, de quaisquer emolumentos por este naco de propagandazinha cunhalista. Quão diversa é a meta deste cinquentão e sua esposa, se a compararmos com as restantes”!
Sem contar com o grosso daqueles “que vão a todas”, um aspecto salta, incontido e decidido, deste confuso emaranhado: é a militância com que cada um se deixa seduzir  (eu direi, narcotizar e, nalguns casos, alienar) diante do seu craque, do ídolo ou do cromo que entronizou como deus na ara do seu culto.
 Sem entrar em altas incursões sobre a sociopsicologia do fenómeno, não estaremos longe do alvo se considerarmos o “Festival” (nos casos citados)  como o barómetro do indivíduo e da sociedade a que pertence. Nesta onda, faço um stop para olhamo-nos um em frente do outro: “E qual é o teu Festival, real ou imaginário…e o meu…e o do meu meio”?
Xavier de Maistre, desde há duzentos anos que nos vai ensinando a arte e a ciência de viajar até onde quisermos… dentro da nossa própria casa. A Viagem à volta do meu Quarto é bem a paradoxal  conclusão de que somos nós os timoneiros da insondável circum-navegação da nossa vida. Nas nossas mãos o leme, o horizonte, o porto de chegada. Lembrando Pessoa – “A Minha Pária é a Língua Portuguesa” – direi que a Pátria-Mátria de cada um é lá onde está o gosto, o apetite, o sabor e a consequência das suas opções.
Festivais! Diz-me qual é o teu e eu dir-te-ei quem és.  Educar-me  para um “Festival” maior. Eis o sumo do meu Luar de Agosto.

29.Ago.17

Martins Júnior