quarta-feira, 15 de novembro de 2017

DESCARBONIZAR – É O QUE FAZ FALTA, JÁ!

                                                  


O mundo todo vomita CO2. Por todos os poros! E ando eu, andamos todos asfixiados, sem dar por isso, vítimas inconscientes, moribundos, por inalação tóxica e  sem corredor possível para a fuga. Multiplicam-se as cimeiras, os convénios, os acordos locais, nacionais, mundiais. E deles nada sai mais que uns tiros de pólvora seca que espantam o vulgo mas apenas servem para dissimular a inércia latente dos decisores participantes.
É o que me ocorre nesta data em que Angela Merkel, desde Bona, levanta os braços e grita que “o tempo escasseia”. E, em coro uníssono, todos os comparsas lhe repetem o refrão, acossados pelo descontrolo da atmosfera, pelas secas, pelos incêndios,  pela morbilidade crescente neste nosso planeta. Bem se cansa o Papa Francisco de repetir até à exaustão o  Laudato Si para lembrar urbi  et orbi a responsabilidade dos governantes sobre a Nossa Casa Comum.
Mas não é só da invasão do carbono atmosférico que me enfado e temo. É  outro o poluidor, mais corrosivo e imperceptível, que se injecta, a cada instante, nas nossas veias como nas nossas ideias. Ele penetra subtilmente e nós franqueamos ‘casa e coração’. Ele queima os neurónios, remexe o cérebro e faz de nós robots gratuitos ao serviço de centrais invisíveis. Canais privilegiados são os da informação que ofuscam e embrutecem sociedades inteiras, desde o berço à sepultura. Aceitamos tudo o que eles despejam para a rua, todas as  toxinas e vírus com que enxameiam os computadores das nossas mentes. E ainda pedimos mais. Não sei como é possível aceitar sem protesto horas televisivas de monovolumes quadrúpedes a rolar na estrada ou no stand oficial, só para propagandear firmas produtoras de carbono estridente. Da mesma feita, poderia citar programas de noitadas de copos e ‘vapores’, todas tiradas a papel químico, três, quatro vezes, na mesma noite. Dos futebóis e respectivos comentadores, nem é preciso falar. Vivemos numa cave saturada de fumaça e droga. Alegremente! O avejão mítico da pós-verdade e das fake news, até traz colorido ao negrume poluidor.
Pela mesma via, vêm as baforadas de incenso beatífico acerca das religiões, das igrejas, das crenças mais arcaicas. E tudo consumimos, sem ao menos exercer o legítimo direito ao livre exame e à crítica fundamentada. Mas o pior químico é o que transforma tudo em capital, moeda ou papel. Estoura-me os miolos a transacção de botas e bolas em dinheiro milionário, a instalação de lavadouros autorizados de luvas sujas e smokings pretos, como os do Panamá e agora os Paradise Papers, criminosos antros do sangue, suor e lágrimas roubados ao povo. Chegados aqui e olhando para trás, mais não somos que ridículas marionetes, títeres anões, digladiando-nos uns aos outros  no terreiro dos nossos casebres, enquanto os magnates, invisíveis porque distantes, vão-nos intoxicando nos espessos rolos de carbono saídos dos palácios-casernas de exploração e morte.
Desculpem-me o desabafo, mas hoje estou assim. Insatisfeito, revoltado, sem gosto de viver no breu de um mundo como este. E mais revoltado por ver que a massa informe e bruta em que me insiro, lá vai “cantando e rindo”, sem dar pelo ar infecto que respira.
E se ontem sentia o impulso de despertar, hoje brada mais alto o apelo-palavra de ordem: Descarbonizar, é preciso! Para recuperar frescura e optimismo.

15.Nov.17

Martins Júnior

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

A IGREJA NÃO DEIXA DORMIR?

                                                        

Águas paradas não movem moinhos, já o sabemos. Nem moinhos, nem barcos, nem velas, Muito menos os mareantes que somos todos nós. Bem vindas, pois, as rajadas de vento norte que purificam o ar e polinizam os campos e as flores.
Tomo esta alegoria para referir-me a recentes oscilações locais que têm trazido a Igreja madeirense para a ribalta da ilha. Parece que todo o bolor armazenado nas sacristias saiu à rua, pois nunca a instituição andou tanto na praça pública. ‘Virou’ moda falar da organização eclesiástica. Pela minha parte, passarei hoje ao lado da actual casuística da praxe regional  e dispensar-me-ei de ditar sentenças sobre o menu que o jornalismo local tem servido ao rancho geral da nossa tropa.
Como num duelo de contrastes, trago hoje o testemunho pessoal de uma das mais prestigiadas figuras da Igreja europeia, o Arcebispo de Paris, Mgr. Vingt-Trois, quando completou 75 anos, solicitando em carta entregue  ao Papa Francisco a resignação (demissão) nos termos e para os efeitos do Direito Canónico.. Transcrevo alguns excertos da entrevista dada ao jornal Le Figaro, do último sábado.
Bastaria uma única passagem para atestar o dinamismo jovem deste septuagenário que tem enfrentado casos muito sérios em França, entre os quais o da diocese de Lyon, envolvendo também  o bispo local, Mgr. Barbarin. Eis a palavra de ordem de Mgr. Vingt-Trois, na mensagem de despedida:
A missão dos cristãos é não deixar o mundo dormir”!
Por outras palavras, ele chamava a atenção da Igreja para  o imperativo essencial e inadiável de agitar uma sociedade inerte e amorfa,  acomodada ao reino do mais fácil, onde o oportunismo egoísta torna tudo    num pântano irrespirável, gerador de  anomalias e inimagináveis sobressaltos. Quando o jornalista Jean Marie Guénois o confronta com o papel redutor da hierarquia, responde frontalmente: “Não posso conceber uma  Igreja a duas velocidades. A Igreja do povo (LÉglise du peuple) deve aceitar as diversas modalidades de pertença... O responsável de uma comunidade não está lá para impor as suas reacções subjectivas” E formula um desejo profundo; “A minha esperança é que um dia  venhamos a ter uma Igreja suficientemente viva e saudável para acolher (abraçar) pessoas que não lhe estão necessariamente conformes”. Que fino apuramento de sensibilidade e que evangélico sentido democrático de um alto titular da hierarquia!
Ficarão, decerto, escandalizados os crentes pietistas (vulgarmente, os beatos) com esta lição de catequese esclarecida: “Por educação e pelo meu histórico de vida, não tenho tendência para atribuir a Deus os acontecimentos  que ocorrem no mundo, muito menos os maus acontecimentos. A vontade de Deus sobre  a humanidade é uma aventura que Ele entrega à sabedoria (ciência) do homem”.  E concretiza, de forma lapidar, eloquente: “A missão do cristão baptizado está em comprometer-se o mais directamente possível nessa aventura… É  ao domingo, quando sai da igreja, que tudo começa. À sua volta, esteja onde estiver”.  Extraordinário este toque de trombeta profética que,  na mesma entrevista, fá-lo alertar para o perigo da “anestesia colectiva”!
Por aqui me quedo. Será este, por enquanto, o meu contributo no meio da agitação superveniente àquele dolce far niente (há quem lhe chame marasmo) em que ‘alegremente’ temos vivido, cantando ao Senhor nesta “Ilha do Santíssimo Sacramento”! E se houver quem, perto ou longe, aguce o olhar sobre este  modesto puzzle, desvendando-lhe as semelhanças e as diferenças entre lá e cá – darei por bem empregue a transcrição apresentada.
Mais que tudo, porém, o que interessa é que o nosso despertador de todas as manhãs e de todas as horas nos pique as orelhas com o clarim do sábio hierarca Mgr. Vingt-Trois:  “A missão do cristão é não deixar que o mundo adormeça”.
A começar por cada um de nós!
13.Nov.17
Martins Júnior
     


sábado, 11 de novembro de 2017

“ÀS ARMAS” – QUE DOCES ARMAS!


Vi-os entrar. Primeiro, as secções. Depois, os pelotões, as companhias e, num ápice, estava ali, pujante e possante, um batalhão inteiro. Mais do que isso, juntou-se ali um Regimento. Três batalhões formaram fileiras, numa estranha e majestosa falange: os da Terra, os do Mar e os do Ar. Mais imponente e enigmático, porém, era o silêncio que atravessava todos aqueles corpos hirtos, inamovíveis como esfíngicas estátuas pairadas na noite.
Como um relâmpago furtivo, entra o estratega da ‘guerra’. E, de um gesto – e não mais – as armas ergueram-se, instintivas, altivas. Eram revérberos de luz ofuscando o espaço, espadas flamejantes prontas para o duelo. E logo logo, estala a refrega. Estampidos metálicos rasgam a paisagem, vibrantes, ameaçadores. Silvos errantes escapam-se, ao troar cavo dos canhões submarinos e até os carrilhões das catedrais tocam a rebate. A luta vê-se, não se a descreve. Ataques e sobressaltos. Avanços e recuos, chamadas e respostas, estouros e tambores. Mas, no aceso da batalha, abrem-se clareiras  que nos devolvem a paz mágica de que o mundo precisa.
É este um diário de campanha dura. Só que, por sortilégio, as armas não matam, antes ressuscitam. As espadas flamejam, mas consolam. As metralhadoras não deitam petardos mortíferos, mas são saxos, trompas e trombones. E os trompetes não fuzilam, antes enchem de luz toda planura. Enfim, não há vencidos neste duelo nocturno, Todos saem vencedores: os maestros, os compositores, os executantes, todos nós que ali estivemos, no memorável concerto que reuniu os três ramos das Forças Armadas: Exército, Marinha, Força Aérea. Nunca a nossa ilha viu tamanho areópago da ”arte dos deuses”.
Bem sei que a Música, ou seja, as Bandas Militares têm por objectivo estrutural servir as artes marciais. Tal como a instituição dos capelães militares está ali como sustentáculo e garantia de apoio às operações bélicas dos Estados soberanos. Digo-o, por testemunho  próprio, vivido e sofrido em terras moçambicanas. Aliás, as grandes marchas executadas pelas Bandas adstritas aos Estados, com especial destaque para os Hinos Nacionais, são moldadas numa mística de combate a um qualquer inimigo, seja ele qual for. Pertence à História Mundial da Música o genial compositor Richard Wagner cujas marchas avassaladoras, segundo versão dos investigadores,  foram dedicadas e habilmente exploradas pelo regime nazi.
De tudo, porém, o que se possa dizer sobre o assunto, manda a verdade aclamar, como de resto viu-se ontem na Sala de Congressos da Madeira, aclamar vibrantemente o concerto que nos foi oferecido pelo Comando Operacional da RAM. Numa altura em que se sente o planeta ameaçado de guerras endógenas e exógenas, faz bem interpretar as Forças Armadas como fonte portadora de paz, conforto e estabilidade psicossocial.
Foi bom ver “ao vivo”  que as fardas militares manejam armas mais positivas e poderosas  (que não as  G3 e os canhões sem recuo) e tornam a vida mais saudável e mais feliz. Pela minha parte, constituiu um fenómeno de catarse espiritual sintonizar-me àquele concerto. Permitam-me um desabafo: é verdade que os militares músicos apresentaram-se em traje de gala, como mandam as NEP’s. No entanto, preferia vê-los num contraste maior: envergando o “camuflado” de campanha ( o de má memória) e sobre ele a beleza e a magia de toda a instrumental. É, apenas, um gosto privativo.
Contra os semeadores de guerras, viva e permaneça por outros tantos anos tão bela iniciativa!

11.Nov.17

Martins Júnior             

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

MUROS – Glosa breve sobre o “9 de Novembro” de 1989


Altos rasos pontiagudos
Eles definem a paisagem
Sem eles nunca saberás
O macio da planura
Nem a lonjura da viagem
Esses jamais cairão
Que  o infinito  abismo é o seu chão
               *
Muros outros
Humanos ciclopes
Betonados de ossos mutilados
De gritos em vão
Frenéticos galopes
E restos de dedos sob os cavalos
Dos imperadores capitais
Esses tarde não
E cedo mais
Implodirão
         *
Muros migrantes
Da selva para a cidade
Hoje como dantes

Quem os estoura?
Quem os devora?

O monstro que os levanta
Seja a mão
Que os quebranta
             *
Muro de ti
E muro de mim mesmo
Muro, muralha, mainel, lancil
Somos nós alguma vez


 
                                 


Chovam cravos de Abril
E em cada português
Esta lei nasça e se proponha
Jamais aqui jamais
Rumor tijolo ou sombra
Do muro da vergonha

09.Nov.17
Martins Júnior



terça-feira, 7 de novembro de 2017

DIA SÉTIMO – A PERFEIÇÃO DAS COISAS: PARABÉNS!


Vem dos confins longínquos da Idade do Homem esta marca distintiva que coloca o numeral  da perfeição no sétimo dia da Criação. Onde figura o “7” aí fulgura o talismã da história.
Trago hoje à nossa mesa o glorioso “Dia 7 de Setembro de 1822”, em que  nas margens do Rio Ipiranga se proclamou a independência brasileira. E mais impressiva foi a minha emoção quando em 7 de Setembro de 1972 vi-me envolvido nessa comemoração em terras de Olinda e Recife, com o arcebispo revolucionário Hélder da Câmara bradando publicamente, em tempo de ditadura: “Nós queremos um Brasil Independente, sim, mas com os brasileiros, pelos brasileiros e para os brasileiros”.
Em 7 de Novembro de 1917, a força dos proletários organizados derrubava o império dos czares russos e implantava o sonho de um mundo igualitário e livre. Passados cem anos, o que hoje impera não é mais que um czarismo disfarçado de andrajos sem identidade. E foi por isso que  há 28 anos, precisamente, começou a abalar o fatídico muro da vergonha, reduzido a escombros dois dias depois.
Em 7 de Novembro de 1989,  do terro virgem nesta Ilha erguia-se um vagido de criança recém-nascida, como que prenunciando a vitória da liberdade sobre as ruínas do velho muro. E um novo mundo começou. Em todos os que, neste 7 de Novembro, viram a “luz primeira do sol sereno”.

Vinte e oito são
As voltas ao mundo
Que o teu Mundo deu

Quantas as manhãs que o sol nasceu
Tantas foram as noites onde ele te prendeu

Vinte e oito velas
Todas tuas
Iguais às luas
Vestidas de sonhos natais

Mas não voltam mais
As folhas de água corrente
Que escreveste

Se já as leste
Onde as guardaste?

Agora outro rio te chama
E outras rondas vinte e oito
Recomeças
Líquidas folhas não impressas
 Cheias de sede
Estão à tua espera
Para enchê-las de sol e primavera

Na meia encosta dos cinquenta e seis
Olhando para trás
Quantas e muitas páginas
Lavradas  deixarás
No Diário-28  sempre renovado?!

O velho muro caído ao lado
Do teu berço
Ainda cresce
Contigo em cada sétima alvorada
Ele será sempre o monstro derrubado

O7.Nov.17
Martins Júnior


domingo, 5 de novembro de 2017

A DOUTORES DA LEI, A “MESTRES” DA TEOLOGIA, A DEVOTOS PATERNALISTAS, A BISPOS, A CARDEAIS, A “NÚNCIOS” E A CATEDRÁTICOS DA RELIGIÃO


“Atenção a  todos esses que estão sentados na cátedra do Poder, do Templo e do Dinheiro:
Cuidado com eles, meu povo!
Observai o que eles dizem, mas não façais o que eles fazem. Porque eles fazem o contrário daquilo que pregam. Eles arranjam fardos pesados e põem-nos às costas do povo, mas nem com um dedo lhes querem  tocar.  
         Todas as suas obras têm um único objectivo: dar nas vistas, fazer publicidade. Por isso, apresentam-se faustosamente vestidos, com largas faixas e longos adornos, báculos, mitras e coroas preciosas. Pelas mesmas razões, saltam por cima dos outros para ocupar a primeira fila nas assembleias, os primeiros lugares do protocolo, em todas as cerimónias públicas, procissões e paradas solenes. E à sua passagem querem ser saudados pelos espectadores, incensados nos rituais, adulados pelos subalternos.
         Nenhum deles merece o nome de mestre, porque UM SÓ é o vosso Mestre e vós sois todos irmãos. Nem os chameis de doutores, porque UM SÓ é o vossos Doutor e Guia. Recusai os seus falsos afectos paternalistas, porque UM SÓ é o vosso Pai.
Eles procuram poder e mais poder. Observai-os, separai o trigo do joio. E o sinal é este: entre vós, o que for o maior faça-se o servo, o criado dos outros”…. “Eu próprio aqui estou não para ser servido, mas só para servir a todos”.
                                            ***
Onde estará o corajoso autor destas palavras? No banco dos réus, na prisão, no cadafalso?... Quem é esse peregrino ‘revolucionário’ que neste domingo, 5 de Novembro de 2017, tem a ousadia de denunciar  frontalmente e com autoridade moral a hipocrisia mais grosseira dos detentores do poder, do capital e da religião?...
Podemos encontrá-lO, hoje, desde o raiar da aurora, abrindo o texto de Mateus, capítulo 23, lido em todos os templos do mundo.
Estamos juntos!
05.Nov.17
Martins Júnior
          


sexta-feira, 3 de novembro de 2017

QUERES SER ‘FAMOSO’? – MATA, ROUBA, BURLA E FOGE!


Há dias que nos tiram o siso e nos atiram para o charco. Quando digo charco quero dizer mágoa, nervos, nojo, indignação. E hoje foi. Quando me preparava para voar  mais alto e pairar na contemplação, quase mística, da grandeza da condição humana, eis que um minúsculo mostrador quadrangular me põe de rastos e obriga-me a mergulhar na fossa da degradação mais repugnante dos desvalores sociais.
E tanto bastou para cegar-me os olhos. Suponho que não apenas os meus, mas os de muitos espectadores/leitores/ouvintes, entre os quais – imagino – os de quem me acompanha dia-a-dia.
Logo de manhã, a abrir os tele-jornais, o batalhão de repórteres a correr, desvairados, esfaimados, de câmara aos ombros… para aonde e para quê? Para uma jaula rolante que chega com um “monstro” lá dentro! Digo “monstro” – mas arrepio-me todo, porque se trata de um ser humano como eu. Das suas mãos – iguais às minhas – pendem três mortos, a boca vomita ameaças, os olhos rasgam esconderijos na selva e atrás de si um pelotão armado que, durante dias e dias, exerceram a caça ao homem. O “monstro” dava entrada na “Domus Justitiae”. E eram para ele todos os holofotes, todas as atenções…
Mais ao lado, na vizinha Espanha, entra no tribunal, um ‘inocente’ burlão do Estado e lá estão perfilados e amestrados os sósias profissionais da publicidade fedorenta. Uma mulher (e mais que muitas)  é barbaramente agredida e o ‘herói’  enche as objectivas e as rotativas do dia. Nem falo das papilas mórbidas dos propagandistas que correm atrás da violência, nas discotecas, nas praças públicas ou no beco mais esconso. Para esse mercado há sempre imediatos de serviço.
Hoje não estou nessa parada. Embora admita a notícia do quotidiano, recuso-me a chafurdar nesse labirinto doentio que explora o crime, desventra os esqueletos e diverte-se com a autópsia despudorada dos casos na via pública, à hora do almoço ou na mesa da ceia. Detesto esses linguados carnívoros, esses correios da manha que aguçam os piores instintos da psicologia humana e embrutecem o povo. Pior: incitam o povo a tornar-se ‘famoso’ pelo que há de mais infame no mundo. Pela minha parte e desde há muito tempo, passo por cima das “ocorrências” grotescas, maníacas, da  imprensa (mesmo a regional) quando pretende alinhar com o apetite sensacionalista das atrocidades e dos escândalos.
Mais lamentável é o combustível tóxico que alimenta uma máquina tão perversa: o público. Que escabrosa vertigem é esta que, em vez de nos fazer  respirar o ar puro, nos atira  para a fossa do abismo?!
Tirem-me deste filme. Soltem-me deste charco.

03.Nov.17

Martins Júnior

terça-feira, 31 de outubro de 2017

DOIS INSTANTES QUE MARCAM MEIO SÉCULO


O audiovisual regionalizado tem-se encarregado de pintar em caracteres garrafais os 50 anos de vida da nossa RDP. Desfaz-se em largas e pitorescas manifestações, dá corda aos carrilhões domésticos para que todos os madeirenses despertem e cantem em uníssono os parabéns da praxe. São entrevistas, reportagens, espectáculos, séries sequenciais. Chegam, por vezes, a cansar os repetidos relatos da exiguidade de meios, as ferramentas artesanais, as bobines que vinham de Lisboa, as cenas das primeira infância radiofónica regional,
Da análise dos conteúdos pouco transpira, a não ser umas lágrimas de pólvora seca sobre a “Censura” fascista com que Salazar e seus fiéis patriotas lobrigavam perigosos tigres onde nem de gatos se via sombra. Esquecem-se os narradores profissionais de lembrar os tempos pós-Abril na Madeira em que eles próprios eram forçados a deitar cá para fora noticiários e parangonas que os espectadores classificavam, genericamente, de “rádio-tele-jardim”. São mais que muitos os madeirenses que foram prejudicados, amesquinhados, injustiçados nesses tempos. Quão difíceis e frustres eram as tentativas de resposta!
No entanto, dois episódios – um dos quais na rubrica “PUXA PARA TRÁS” – emergem como luzeiros marcantes no meio das sombras. Refiro-me à entrevista concedida pelo antigo director da RTP/M, eng. Carlos Alberto, Transcrevo: “O Pe. Martins tinha sido entrevistado em Lisboa, ainda nos estúdios do Lumiar, pelo jornalista Adelino Gomes. O brigadeiro Azeredo deu ordens para que não passasse a entrevista na Madeira. No dia seguinte, o brigadeiro pretendeu usar os estúdios regionais para responder à dita entrevista. Eu limitei-me a esclarecer: ‘Sim, o senhor responde, mas com a condição de passarmos primeiro a entrevista do Pe. Martins’. E assim aconteceu”.
Não se sabe que mais admirar: se (pela negativa) a prepotência do poder civil e militar, arvorando-se em dono soberano da comunicação social regional,  se (pela positiva) a verticalidade e o respeito deontológico por parte do profissional da informação!
O segundo episódio, contou-o o Padre António Simões, capelão militar, graduado em coronel, na rubrica “UMA HISTÓRIA, UMA VIDA”, retransmitida anteontem, a propósito da ordem do antigo bispo do Funchal para que o referido sacerdote lesse uma nota da Cúria diocesana, aquando da missa dominical celebrada, então,  nos estúdios da RTP/M. O padre opôs-se vivamente, alegando que o “texto envolvia conteúdos de teor político”, o que lhe estava vedado como capelão militar. Após as embaraçosas cenas que o próprio narra na entrevista, dirige-se ao Paço  e entrega ao bispo a responsabilidade do caso, recusando-se a celebrar mais alguma vez  o ofício dominical naquelas circunstâncias. E cumpriu.
Quid júris? . em relação a mais este capítulo. Por um lado, a arrogância do Paço Episcopal , conluiado com a Quinta Vigia, ao ponto de mandar na RTP/M. Por outro, a dignidade e o desempenho deontológico do militar-capelão.
Circunscrevendo-se embora à RTP/M, os dois episódios contêm matéria comum aos diversos canais do audiovisual regionalizado, durante meio século.  Mais casos exemplares, certamente, outros protagonistas poderão lembrar.   Só por isso, valeu a pena comemorar tão expressiva efeméride, fazendo votos de que a Informação, que ao Povo pertence, devolva ao mesmo Povo a sua identidade primeira – o isento e verdadeiro serviço público.

31.Out./1.Nov.17

Martins Júnior     

domingo, 29 de outubro de 2017

O MESTRE – PRESO NAS CHAMAS DA INQUISIÇÃO JUDAICA

 Vi o meu país a arder. E partilhei convosco a visão de quem sente as chamas de Pedrógão contagiando corpos e almas, tribunais e Escrituras, partidos e classes sociais. Foi anteontem, quando subi ao observatório do SENSO&CONSENSO e de onde  avistei  serenamente a paisagem circundante. As interpretações ficam ao critério de quem lê. Todas plausíveis, todas aceitáveis.
Hoje, alargo o olhar e percorro mais de dois mil anos de história e constato que, afinal, a sina existencial do ser humano é, talvez, viver entre as achas de uma fogueira interminável, porque inextinguível. E com esta verificação retomo o nexo lógico da reflexão do sábado, 21 de Outubro. Porque, hoje é Domingo.
O ar que o Cristo de Nazaré foi obrigado a respirar, durante os três anos de vida pública, estava infestado de chamas virulentas que as classes dominantes reacendiam à Sua volta, sem tréguas, umas vezes ostensivamente, outras armadilhadas sob as cinzas da hipocrisia e do oportunismo mal disfarçado. No Domingo passado, vimos o ardil capcioso com que os donos do poder civil e religioso pretendiam “caçar” o Mestre, a pretexto do pagamento de impostos aos Césares de Roma. Hoje,  a armadilha, congeminada pelos donos do capital e do direito, os fariseus, trazia todo o veneno de uma flecha em brasa, embrulhada  numa pergunta, a mais dócil e aparentemente inofensiva: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei”?
Só se entenderá o alcance desta cilada se nos situarmos no contexto sócio-ideológico da época. Aí, imperava o regime teocrático, cujo rigor dominava as instituições e as mentalidades, sobretudo, no âmbito do culto. As únicas linhas programáticas da Religião assentavam numa projecção vertical: religioso era só aquele que olhava para o Alto e fazia do culto legalista, extra-terrestre, o exclusivo passaporte para ser aceite na comunidade. Daí, as mais desumanas prescrições, por vezes cruéis e contra-natura.  Era o despotismo religioso à solta, o reino do sufoco e da escravatura para o povo.
O Cristo, pelo contrário, fixava o seu olhar menos para o Alto e mais para a terra, para o povo abandonado, carente e amordaçado pelos donos da religião. “Tudo o que fizerdes a um destes mais pequeninos é a mim mesmo que fazeis”. Abissal esta mudança de registo e de acção! Era a Religião na sua essencial dimensão horizontal. Estava, assim,  lavrada a sentença do Sinédrio e dos Juízes-Sumos Sacerdotes: “Esse homem é Belzebu, é um demónio em pessoa”. É um herege, um ateu – diríamos hoje. “Portanto, é réu em tribunal, tem de morrer”!
Este, o ambiente, o ar calcinado que se respirava então. Mas faltava a confirmação formal pela boca do próprio. Era preciso apanhá-lo em flagrante, publicamente. Daí, o ferrete da pergunta. “Qual é o primeiro mandamento da Lei”?... Novamente, o Mestre entre a espada e a parede! Não podia contradizer-se, negando a substância da sua pedagogia, o serviço ao outro é um serviço a Deus. Mas também não daria o flanco aos fariseus detractores, negando o culto ao Deus Iahveh, sob pena de blasfemo e réu no supremo tribunal.
Então veio a resposta. Ténue na voz, mas imponente, inapelável no conteúdo: “Sim, o primeiro é esse que vós dizeis: ‘Amar a Deus’. Mas o segundo é idêntico (igual) ao primeiro: Amar o Próximo”.
Permitam-me destacar neste episódio, não tanto a tese inclusa na resposta (porque essa povoa toda a mensagem) mas o seu contexto, isto é, o clima de perseguição, de intriga, de maledicência, enfim, a satânica fogueira inquisitorial, em cujas chamas  os ditadores da religião e do capital pretendiam afogar a pessoa e o ideário libertador do nosso Cristo. Razão tinha Augusto Cury para escrever esse respeitável estudo, a que deu o apropriado título: “O Homem Mais Inteligente da História”. É esta visão do Cristo Horizontal, tocante, lado-a-lado connosco – a que Ele talvez prefira – em vez do Messias Verticalizado, assumpto e extra-terrestre, objecto de preces e benesses de circunstância.
         Admitindo e respeitando outras e diversas abordagens sobre o assunto, assento a minha perspectiva nesta verificação prática, retomando o pensamento de Blaise Pascal: “Jesus estará em agonia até ao fim dos tempos”. Pois bem: este Cristo em agonia não é o Cristo das Alturas, invisível, sideral, porque a esse os novos Fariseus e Sumos Sacerdotes não incomodem nem perseguem. Até ajoelham diante do seu altar. A quem  os dominadores do mundo atiram às chamas, ferem e matam são os Cristos vivos, os que vivem a horizontalidade intrínseca da sua mensagem, os “que têm fome e sede de justiça”, os que sofrem mas não desistem, os que gemem mas cantam, os que morrem mas continuam redivivos, ressuscitados. Como o Mestre. Como tantos, gente anónima, de ontem, de hoje e de amanhã.

29.Out.17
Martins Júnior



sexta-feira, 27 de outubro de 2017

PORTUGUÊS=INCENDIÁRIO NUM PAÍS EM CHAMAS…


Hoje, vejo-me na pele de fugitivo. E corro, a sete léguas, para o mais alto dos Pirinéus, de onde avisto esta ‘jangada’ breve chamada Portugal. Revejo nela o mesmo pânico do famoso  “Paris está  a Arder”. Mas agora é o meu país.
O fogo devorador de Pedrógão Grande pegou-se com Leiria, Lousã, Coimbra, Viseu,
Alastrou-se pelas auto-estradas, chegou a Lisboa,  abalou São Bento, chamuscou Belém, incendiou a Assembleia da República, assou na grelha Ministra e  Ministério.
Bateu à porta dos sindicatos e poucos escaparam. Ao cordão em brasa  agarram-se os médicos, os enfermeiros, mais a brigada dos polícias, guardas,  professores,  contínuos, os públicos funcionalismos. Agora é que é! “Vamos ao bolo, que isto está quente e até dá jeito começar o fim-de-semana mais cedo”… Das queimaduras não se livram os doentes nos hospitais e as crianças nas escolas. O importante é largar Pedrogão da mão e  mandar gás ao Orçamento.
A paranóia incendiária até já chegou ao Porto, trepou as escadas da Relação e pega gasolina à mulher. O juiz e a juíza casam-se de toga e atiram para a fogueira, não uma, mas todas as mulheres da terra, filhas de Eva, condenadas pelo Livro do velho Jeová. Mas vêm a seguir os bispos e 'queimam' o Vétero-Testamento, a pedido da pecadora Madalena.  Quem se livra deste manicómio em chamas?!...
E como  o “mal quando vem toca a todos”,  também lá andam vestidos do perigo “laranja” os donos do laranjal, a atirar granadas de fogo do sul para o norte e do norte para o sul, à espreita do perigo “vermelho”.
Ainda sobram aqui e além mais umas mangueiras combustíveis entre o “coiceboll” e os apitos já pretos de carvão, mais fora que dentro dos estádios. E ainda há quem por aí se espante dos 30 graus que afogam o ar que todos respiramos… Para cúmulo, o sufoco faz aparição na casa do vizinho e estala também  na Catalunha exaltada e exaltante.
E agora, digam-me ou não se estou condenado a vestir a pele do fugitivo para escapar ao contágio desta fúria pirómana?
Ou sátira ou rábula ou parábola, entendam como quiserem o  “COM ou SEM SENSO” de hoje. Mas, ao menos,  permitam-me desabafar: com tanto inferno à solta, as próprias chamas que porventura seriam necessárias anulam-se umas às outras, tal a fumaça intempestiva e desabrida  com que se apresentam ao país.
Quando virá a chuva benfazeja para apagar  nervuras e neurónios?...

27.Out.17
Martins Júnior   

   

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A TERRA DO TAMANHO DE UM HOMEM – E O HOMEM MAIOR QUE A SUA TERRA

“Creio mais no Deus da Natureza que no Deus da Bíblia”
Padre Manuel de Nóbrega

 Pés nascidos mergulhados
Nos aquíferos subterrâneos
Que lhe correm nas entranhas

O tronco - de urzes milenares
Assenta nos basaltos musculares
Que o vulcão abriu em cratera

Todo o peso da terra
Carregam-no seus ombros de gigante

A fronte soberana como o  Levante
Cai-lhe do monte abraça o vale
Beija o musgo rasteiro
A resina do pinheiro
O barbuzano e a orquídea brava

E onde agonizava
O indefeso laetinervis
Ele o afaga e trá-lo ao peito
Dá-lhe um nome e um trono
Como a um filho perfeito

Terra e Homem – Um só
No regresso ao materno seio
Serás mais que cinza e pó
À tua sombra verde hasteio
Descansarão os castanheiros que amaste
Os folhados os loureiros  os tis
Montanhês Ilhéu  e Nobricense
Nosso Francisco de Assis

25.Out.17
Martins Júnior



segunda-feira, 23 de outubro de 2017

O FIM DO PRINCÍPIO E O PRINCÍPIO DO FIM – BOA VIAGEM!


Foi hoje o fim do princípio. E, por mais estranho que pareça, foi  o princípio do fim.
Hoje, último dia  da tomada de posse daquele que foi o Dia de Ano Novo para os recém-eleitos do Poder Autárquico! 
Terminou, pois, aquele tempo de espera – e, mais que de espera, de trepidante expectativa – que culminou na eleição de 1 de Outubro de 2017. Fechou-se o tempo do namoro alcançado. Recorto o sabor desta metáfora, propositadamente,  para sintetizar a maré-cheia de sonhos altruístas, as juras viscerais de bem servir o ‘povo constituinte’ e doar-lhe aquela inteira chama  que só  se entrega a quem se ama. Quero crer que a tinta com que subscreveram o termo de posse tem a cor rubra do coração dos respectivos signatários. Isso viu-se no “brilhozinho dos olhos”,  no gesto ansioso, na elegante frescura, até, da indumentária festiva. Quem já passou por cenas idênticas, adivinha a pulsação dos eleitos que sentem nesta hora o mesmo deslumbramento de quem recebe as chaves do novo apartamento e  abre as cortinas virgens das janelas ou desdobra os lençóis do enxoval bordado. Enfim, para os eleitos, a Primavera veio no Outono
Mas hoje é também – e mais impressivamente – o princípio do fim. Apraz-me repetir, porque a sinto em toda a  profundeza,. a paráfrase inspirada em Sérgio Godinho – “Hoje é o primeiro dia do resto do teu mandato”. Quatro longos anos ficam já na próxima estação, ao virar da esquina. Cuidado! Aqueles que, insipientemente, hoje se vangloriam da vitória, não se esqueçam que, daqui a quatro anos,  vão andar novamente  de porta em porta, como pedintes à procura da recompensa ou da esmola de um voto. Daí, a humildade – não a subserviência! – daí, a transparência – não o suborno ou  compadrio! – daí, a justeza e o sacrifício, com gosto, de ser fiel ao 1º de Outubro de 2017.
Sem chamar para aqui o “Velho do Restelo”, talvez seja útil aos empossados interiorizar esta constatação: em nenhum outro plano existencial,  como no da política autárquica, são tão traiçoeiras as luas-de-mel!... Talvez porque ainda me  pesa o topo de algumas vitórias, em tempos duros contra a ditadura insular, incomoda-me e estremeço perante cenários tão desequilibrados de quem, ainda antes de tomar posse, já pensa em abandonar o lugar e atirar-se  como um trapezista de circo   ao arame  para o qual não foi chamado! Mais degradante, porém, é oferecer-se como barriga-de-aluguer em plena via pública!... Francamente, como simples observador, prefiro esconder o rosto e curtir baixinho: Para isto, mais valera ter perdido…
Permitam-me compartilhar o gosto com que acedi ao convite da Junta de Freguesia de Machico  (recordando outros tempos) e sublinhar a sobriedade do protocolo na cerimónia  da tomada de posse, a elevação de conceitos na administração autárquica, o bom gosto decorativo, a participação cívica e, sobretudo, o respeito mútuo entre as formações concorrentes ao acto eleitoral, registando a franca e saudável confraternização entre todos os elementos, o que nos augura um mandato feliz e produtivo.
Em jeito de mensagem, retenho a afirmação do empossado autarca-presidente: “Para nós, ganhar não é apenas triunfar. Para nós, ganhar é cumprir”!
Sejam quais os ventos, Boa Viagem e bom regresso ao nosso  “Cais do Desembarcadouro”, o cais de Tristão Vaz.

23.Out.17

Martins Júnior

sábado, 21 de outubro de 2017

“DAR A CÉSAR O QUE É DE CÉSAR”

                                                         
Porque “hoje é sábado, amanhã domingo”, passo ao largo desta vaga em que baloiça a Madeira, com programas estratégicos de governos, remodelações e autarquias, novinhas em folha. Entro, pois,  noutro ritmo programático, o da análise global sócio-ideológica daquele que veio reformular a condição humana. Teremos amanhã, nos textos bíblicos oficiais, mais um momento alto dessa análise, Trata-se da famosa resposta de J:Cristo aos “sábios do templo de Jerusalém e aos doutores” da lei judaica. Tão forte e tão densa que se tornou viral, repetida, dobrada e desdobrada tantas vezes quantos os gostos dos intérpretes.
Descontextualizada do corpo factual que lhe deu forma, a resposta converteu-se em axioma generalizado para distinguir os conteúdos funcionais, as especialidades profissionais e, ainda, a dicotomia dos serviços oficiais: os que pertencem ao mundo ou à polis e os que à religião ou ao culto dizem respeito. E aqui não faltam exímios dissecadores da questão, secessionistas escrupulosos, a puxar o monóculo e o bisturi para o corte que lhes convém.
Entretanto, prefiro “ler com olhos de ver”  a factualidade original dos acontecimentos. É tão linear, tão leve e límpida que dispensa ‘ilustradas’ e complicadas interpretações. Insere-se numa outra luta, a antítese entre o pensamento livre e transparente de J:Cristo e o emaranhado de prescrições, engenharias estrábicas dos Sumos-Sacerdotes e Fariseus, ditadas exclusivamente para encobrir e, se possível, contrariar a descoberta da Verdade inteira.
Vejamos: nos domingos anteriores, os textos evangélicos revelam a coragem do Mestre face aos deturpadores do pensamento religioso, resguardados nas sombrias e largas vestes oficiais da elite vigente. Não há paralelo na história que se assemelhe ao fogoso combate do Mestre contra a classe hipócrita de Jerusalém: “Cegos, que guiais outros cegos. Assassinos. Sepulcros que fedem a podridão” . E este anátema, sem apelo nem agravo: “Os pecadores e as prostitutas entrarão no meu reino, mas vós sereis postos fora. Porque eles arrependeram-se e vós não”!
Amanhã, começa o contra-ataque. A gana revanchista da elite organiza-se em conciliábulos secretos onde traça plano de acção. Tacticamente, com medo da contestação popular. E sai o primeiro round: testar a vertente político-fiscal do  Nazareno. Numa terra colonizada pelos romanos, os impostos eram pomo de discórdia e raiva quotidiana entre o a população contra o colonizador. A armadilha é perfeita, pidesca ao mais alto requinte: “Mestre, então, o que é que achas desta carga de impostos contra nós? Parece-te justo explorar assim o nosso pobre povo para enriquecer o exército dos Césares”?...
Espada de dois gumes, encostada ao pescoço do Mestre. O “sim” e o “não”  arrastariam a mesma condenação: uma, da parte do Imperador; outra, da parte do povo. Não esperavam, porém, os “doutores forenses” e os “papas-cardeais-bispos” de Jerusalém, a intuição repentista do nosso Cristo. “Mostrai-me essa moeda com que pagais os impostos. De quem é essa imagem cunhada na moeda”? – “De César” – “Então, se é dele, devolvei-lha”.
“Dai a César o que é de César”. Eis a origem pragmática da expressão que tem sido pretexto para as mais díspares e repuxadas interpretações. A armadilha que as elites prepararam para “caçar” o Mestre foi essa, a mesma, com que ficaram enredados e derrotados. Ainda assim, não desistiram. Como não resultou a estratégia política, voltaram a reunir o sinédrio e congeminaram uma outra, mais capciosa e fatal, a estratégia cultual-religiosa, uma questão intocável na mentalidade de então. É o que leremos no domingo seguinte.
Passados mais de dois mil anos, como é que não possível ainda entender a linearidade libertadora e saudável de Quem veio abrir o caminho novo da plena realização da Vida?!

21.Out.17
Martins Júnior