quinta-feira, 13 de julho de 2017

“O HERÓI SERVE-SE MORTO”


        Passou-se um mês…e para o grande vulgo nada se passou. Desceu à terra fria um gigante, um herói…e hoje já ninguém dá por isso. Os dias sucedem-se às noites e estas sentam-se ociosas na almofada dos poentes. Enfim, mais uma peça “inútil” a abater à carga!
         Dando cumprimento à palavra dada após os 500 textos do “Senso& Consenso”, escolhi este 13 de Julho para trazer à mesa fraterna dos que  ainda não embotaram os sentidos o Grande, Imenso, Alto e Brilhante ALÍPIO DE FREITAS, ele que via o invisível quando, no fim da vida, se lhe queimaram as pupilas para o mundo e definitivamente se apagaram em 13 de Junho. Não vou erguer-lhe o mausoléu da obra que construiu ao longo de oitenta anos, intensamente, apaixonadamente vividos na luta pelos camponeses escravos no Brasil e em Moçambique, nem lembrarei as torturas sofridas durante a ditadura militar brasileira. Porei de lado os estatatutos de padre, jornalista, professor universitário.  Dele falou e cantou José Afonso na “Baía de Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ Está preso Alípio de Freitas/  Homem de grande firmeza”.
         Hoje apetece-me ‘curtir’, entre a mágoa e a valentia, o “desfado” ao qual se candidatam irresistivelmente os verdadeiros heróis, os que não esperam louros nem rosas brancas na tumba nem monumentos nas praças. São os que morrem em combate, cientes e conscientes de que nunca avistarão a palma da vitória. E, por isso, cinco luas passadas, já ninguém dá pelo seu rasto. Foi assim Alípio Freitas. Conheci-o em Lisboa, aquando do lançamento do meu CD em Lisboa, na Sociedade Portuguesa de Autores e na Associação José Afonso. Apalavrámos uma sua presença na Madeira e, imprevistamente, ficámos com a sua ausência para sempre. Dói-me muito não  ter concretizado esse sonho. Rebobino o filme da vida  e a ferida cresce  (sinto-o agora, mais que nunca) ao lembrar-me que estaria ele  encarcerado  na prisão da Praia Grande de Santos, em 1972, quando pessoalmente contactei com padres e bispos  da Teologia da Libertação (recordo em especial Duarte Calheiros, de Volta Redonda, Rio de Janeiro; Hélder da Câmara, de Olinda e Recife) ) e não consegui visitá-lo. A ditadura militar era implacável.
         Aperta-se-me o coração ao constatar forçosamente que aos heróicos bandeirantes da Verdade e do Bem está reservado um patíbulo infrene e aos corcundas do espírito, malfeitores sem lei, sanguessugas ajuramentados  espera-lhes um trono real! Que maldito solo é este - e até quando? -  em que a sociedade, o povo, beijará os pés a um facínora e crucificará no madeiro quem lhe traz o Novo Dia, a sua hora libertadora?! Por esse chão minado passou o Maior, o Protótipo do Heroísmo. Mas pior lhe aconteceu: continuou a ser lembrado, só para lhe beberem até ao tutano o sangue e com ele se locupletarem à mesa dos Judas de todos os tempos. Razão tinha Antero de Quental, ao discutir diante do Crucifixo: “De que  serviu o sangue/ Com que regaste, ó Cristo, as urzes do calvário”?
         Um mês após a curva de caminho em que ‘deixou de ser visto’ Alípio de Freitas, vislumbro, com ele, o cortejo dos “Humilhados e Ofendidos”, de toda a História, mas sempre firmes na liça e na luta até ao final, sem avistar a Terra Prometida (esse o maior espinho no peito do bíblico Moisés) acode-me à emoção a sentença escrita pelo eloquente poeta moçambicano, Reinaldo Ferreira: “O Herói serve-se morto”. Duro, mas exacto, como o gelo da pedra fria.
         Mas a mágoa transfigura-se em força e valentia. Os braços mutilados do Combatente desfazem-se em cinza, mas ficam de guarda as armas do Herói, o seu talento e o rio subterrâneo do seu ideário  que, um dia, incerto na hora  mas certo no zodíaco do tempo, dará flores e fruto.  Para conforto meu, leio hoje no “El Mundo”   que  o assassinato cruel de Miguel Angel Blanco pelos etarras é hoje reconhecido como o marco inicial para a extinção do terrorismo interno em Espanha. Já nos advirtia o Mestre:”Uns são os que semeiam, outros são os que recolhem”. Deles diria Pessoa: “Valeu a pena”!   E de Alípio de Freitas diremos nós: “Essa é a tua glória”!

13.Jul.17

Martins Júnior

sexta-feira, 7 de julho de 2017

500 DIAS = 5 PAUTAS, 5 DEDOS, 5 SENTIDOS, 5 ESTROFES…

   Quando me seduzi pelos tempos ímpares, desde Outubro de 2014, comprometi-me a fixar 500 textos. Acabei de cumpri-los hoje mesmo. Soavam as badaladas de cada dia ímpar e logo batiam dentro de mim os apelos do dever assumido, dever-prazer de estar com quem, longe ou perto, geminava comigo ideias e sensações. E a quem deixo a grata expressão do meu reconhecimento.
Faz de tudo este pombo-correio das redes sociais. Transporta no bico penugens de afecto, semeia “canções ao vento que passa”, espalha mágoas e atira setas certeiras em alvos incertos, esbanjando perdulárias risadas de primavera  sem data. Por outras palavras, tudo se escreve nas águas correntes, conforme ao gosto do autor e ao sabor do incógnito espectador. Pela parte que me toca, o compromisso nunca foi o de encher  canais ou poluir o ar que os outros respiram, mas sim o de conectar-me com a força anímica que move montanhas e alavanca os espíritos.  Porque, afinal, “nenhum homem é uma ilha”!
Tocado pelo mesmo impulso, decidi caminhar por nova pista, paralela à anterior, num projecto mais amplo e consistente. Porque “o tempo é a medida de todas as coisas” e fica sempre escasso, estabeleço uma pausa estival nos “dias ímpares”  permanecendo, no entanto, com os meus “compagnons de route”, amigas e amigos, apenas duas vezes por semana.
Tirando a “prova dos zeros” aos 500 dias anteriores,  reduzo-os aos 5 dedos da minha mão aberta, ofereço-os como os 5 sentidos do meu todo e  componho-os como se fossem  5 estrofes sonoras nas 5 pautas da sinfonia de cada vida.  Quanto desejaria, enfim, que ficassem como 5 estrelas alumiando as 500 noites do SENSO&CONSENSO!
Estamos juntos!

07.Jul.17
Martins Júnior  
    

quarta-feira, 5 de julho de 2017

“FADO E DESFADO”, VIDA E MORTE, ANA MOURA E MARISA


“O Meu Caso” é o dele, José Régio, o teu, o meu, o nosso – comentava  assim Jorge de Sena o teatro do autor do ‘Cântico Negro’. Cada um tem o “seu caso”.  O “meu” hoje sai fora dos redemoinhos cruzados das questões que têm agitado a opinião pública e a publicada. Hoje entro pelo postigo do meu mundo, que guarda, no seu silêncio subaquático, a vida e a morte. E que há de mais alto e profundo, mais retumbante e mais íntimo, mais certo e incerto do que as duas alcovas  em que andamos todo o tempo inconscientemente embalados: o berço e a tumba?!...
Faço, pois, uma pausa no deslumbramento ou na censura sobre os grandes “casos”  que nos cercam e sento-me no banco de pedra do meu terreiro  (se quiserem, podem  sentar-se ao meu lado) para viver um “caso”, este “caso”.
Ao longo dos quase cinquenta anos de vida em comunidade, hoje foi a terceira vez que a família do corpo presente, -- o que foi “ pó erguido e agora pó caído” -- pediu que a última despedida do templo fosse uma canção, não daquelas alienantes que temerariamente adivinham o outro mundo, mas um sopro  de gratidão e saudade nascida no coração deste mundo.
Da primeira vez, veio a filha mais jovem da “Jóia” (assim lhe chamavam em vida) e pediu-me que realizasse a última vontade da mãe: ”Quando o meu caixão sair da igreja quero ‘ouvir’ aquela canção do sr. padre ‘Festa, Festa do Povo, do Povo que trabalha e faz o mundo novo’. Porque é essa a canção que alivia as minhas dores quando não posso  sofrer mais”. E assim se cumpriu, com a mágoa apertada ao peito.
Da segunda vez, o criativo e brilhante animador das festas e convívios da nossa comunidade, o Carvalho, foi ele próprio que, ao aproximar-se o meridiano que segura o fio da vida, fez o testamento vital do seu desejo: “Ao sair da igreja, peço  aos meus amigos e  companheiros da alegria que toquem e cantem  quadras ao desafio do ‘bailinho’, como quando eu cantava com eles”.  Alguns não tiveram coragem, outros cumpriram. E a morte fez-se vida naquela hora final.
Hoje, foi o  terceiro caso.  A  mãe, “estátua jacente”, de oitenta e cinco anos de idade, juntou-se ao filho, de quarenta. Ela, aqui, na ilha.  Ele, em Londres, mês de Abril,  prematuramente descido ao húmus do berço derradeiro. Três meses os separaram, mas uniu-os hoje o salmo ondulante da “Chuva” com que a voz de Marisa sublimou a inspiração de Jorge Fernando. Foi uma oração ouvida e seguida por todos como um  cântico auroreal de eucaristia. Mais uma vez, cumpriu-se a última vontade.
 Recordo ainda esse dia  de sol, em Lisboa, quando o lutador dos tempos modernos, o saudoso amigo e conterrâneo nosso,  Paquete Oliveira, saiu  da Basílica da Estrela, envolto na magia esvoaçante do “Desfado” de Ana Moura. Foi a marcha emocionante para a entrada na alameda da Casa Comum dos Olivais.
Não me sai da retina o cortejo final de Zeca Afonso pleno e perfeito na sonoridade das canções que criou,  enchendo as ruas da sua cidade.
Para quem cumpriu o seu mandato na Ilha Verde ou no Planeta Azul, o fim é o ‘descanso dos heróis’ e o que o vulgo chama de caixão, logo deixa de sê-lo, para transformar-se em pódio de vitória e trono de glória imorredoira.
No banco de pedra do meu terreiro vejo também “O Meu Caso”, o dele, José Régio, o teu, o meu, o nosso!

05.Jul.17
Martins Júnior



segunda-feira, 3 de julho de 2017

FERNANDO PESSOA PERGUNTA, MACHICO RESPONDE


Em cada ano, chegado o mês de Julho, a Descoberta renasce e toma o encomiástico  sobrenome de Redescoberta. É assim em Machico. E é-o na Madeira. Porque nisso deve consistir o corpo de toda a efeméride evocativa dos primórdios do ‘Achamento’. E mais que o corpo, é o seu espírito que deve enformar as comemorações do nascimento da Ilha para a História.
Já ontem referi as encenações proclamatórias da Autonomia e observei a liturgia enfaixada com que os titulares e os títeres do poder pretendem engalanar-se aos olhos do vulgo, sem que para isso tenham factualmente contribuído.
Muitas e sonoras parangonas, frases feitas, estados de alma sôfrega de mais Autonomia, clamorosos panegíricos aos 600 anos! Faltou apenas o essencial – o essencial apenas – faltou ali Fernando Pessoa a apostrofar os patrioteiros regionais com o mesmo tom com que se dirigiu ao “Mar Salgado’… “VALEU A PENA”?!
Viro as costas aos vernizes do “teatro das operações” oficiais, incandescentes da hipocrisia encobridora de interesses corporativos, partidários, jogos assolapados do poder político-económico --- e volto-me para Machico, o Pórtico das Descobertas, e pergunto, olhos nos olhos, aos meus conterrâneos e a mim próprio: Valeu a pena terem aqui chegado Tristão e Zargo?... Que diriam se voltassem ao berço que eles deitaram neste solo para criar e fazer crescer 598 anos de vidas, sonhos e ambições?
Deixo para o julgamento da História as décadas e os séculos que não foram nossos e cravo os olhos na majestade deste vale: “Que fizemos deste mar, deste céu e desta terra que nos deram para cuidar como inquilinos e possuidores?... Sente-se cada um de nós senhorio e colono, benfeitor e beneficiário, dono provisório e utente inteiro desta nesga de húmus vivo, que sendo nosso deixará de sê-lo mais tarde?... Que remos e velas temos içado para fazer deste ecológico berço de outrora uma baía de humanismo e  esperança no futuro?... Que passos temos dado para alcançar o cume destas montanhas que nos chamam a amar o sonho e o ideal de um Povo Melhor?...
“TUDO VALE A PENA SE A ALMA NÃO É PEQUENA”. Respondeu Fernando Pessoa. Mas queremos mais: Que o corpo acompanhe a alma! Mais que um fugaz estado de alma, Machico quer plasmar no concreto quotidiano o plano produtivo que animou o Visionário Infante no promontório de Sagres que tornou a Ilha numa sementeira fértil e promissora para a economia, para a arte e para a ciência dos oceanos.
Esta é a nossa hora, porque em toda a hora soa aos nossos ouvidos a sábia palavra: “Não perguntes o que é que a tua Pátria pode fazer por ti. Pergunta, antes,  o que é que tu podes fazer pela tua Pátria”?
À interpelação de Fernando Pessoa, Machico responde:
Por nós, aqui e agora VALEU A PENA!  

03.Jul.17

Martins Júnior

domingo, 2 de julho de 2017

COM A AUTONOMIA ME DEITO E COM A AUTONOMIA ME LEVANTO!


      No arrazoado semântico deste enunciado quero sintetizar a elasticidade material do conceito de Autonomia, extensivo aos mais diversos sectores de uma sociedade organizada. Descendo à profundidade da análise, verificamos que o privilégio autonómico não se esgota num único estatuto social ou administrativo, antes pelo contrário, distribui-se e estrutura-se em diversos planos, todos convergentes para um mesmo objectivo: a realização concertada do serviço público. Ao fim e ao cabo, nisto reside o valor inestimável do Princípio da Subsidiariedade, solenemente reconhecida pelo Tratado de Maastricht.
         Assim, é na intersecção dinâmica de todas e de cada uma das   Autonomias que os poderes públicos levam a cabo a construção do denominado  social welfare. Neste entendimento dir-se-á da Autonomia o que se atribui aos direitos: a minha Autonomia acaba quando começa a Autonomia do outro.
         Para nós, Madeira e Machico, as duas datas justapostas – 1 e 2 de Julho – são a materialização  perfeita do que venho afirmando. Com efeito, oficialmente, o 1 de Julho releva a Autonomia da Região. E o 2 de Julho, Dia do desembarque das caravelas henriquinas no Cais do Desembarcadouro, representa a Autonomia da Freguesia de Machico, consignada à sua Junta.
         Duas Autonomias, ambas respeitáveis na sua essência qualitativa, embora diversas na extensão quantitativa dos poderes e atribuições. Por isso, posso constatar e afirmar que ontem, 1 de Julho, anoiteci com a Autonomia da Região e hoje, 2 de Julho despertei com a Autonomia da minha Freguesia. E porque “a História exalta o triunfo dos vencedores”, (dos mais poderosos)  e, em proporção inversa,  subverte os poderes menores, assim também a nossa comunicação social abre-se toda à efeméride regional, deixando nas pregas do esquecimento a Autonomia Local. É a vida, diria alguém. Vida injusta, refractária, antipedagógica! E que devemos corrigi-la.
         Mas, se as sebentas diárias assim procedem, o mesmo não deveria acontecer com quem detém competências governativas hierarquicamente  superiores. A coincidência cronologicamente similar das duas datas tem de suscitar nos poderes regionais o culto das Autonomias Locais, Câmaras e Juntas de Freguesia, mais que não fosse  por imperativo constitucional. Saturámo-nos, num passado recente, das barbaridades de quem, da torre da vigia, bradava e espumava que “Machico era o terceiro mundo”  ou que “Para Machico nem um tostão”.  Pior fica, hoje, ao inquilino da mesma torre esticar os maxilares e, de forma grotesca, imitar  ‘o velho ocupante’ esganiçando uns pregões de feirante barato com aleivosias do mesmo género, que “as Câmaras onde a Oposição governa são uma nulidade e um prejuízo para a população”. Ele, que deveria envergonhar-se de o repetir (até porque nem jeito tem para isso) pois, se recorresse à memória, lembrar-se-ia que a sua primeira ascensão à presidência autárquica foi-lhe dada de bandeja pelo ‘velho inquilino, seu mecenas’, quando o verdadeiro presidente eleito bateu com a porta…
         Juntei hoje as duas Autonomias num mesmo palco. Mas que diferença!... Lá nos salões nobres, os enfatuados rapazes do poder (conheço-os suficientemente nessa veste e de  um passado ainda fresco) alinhadinhos, espartilhados numa importância indisfarçadamente balofa a espadanar  “Autonomia, mais Autonomia e ainda mais Autonomia”, eles que nada fizeram para que a Constituição de Abril reconhecesse os direitos insulares. O cepticismo leva-me a bocejar de um humor amarelo torrado.
         Ao contrário, em Machico, batiam as doze badaladas e em pleno campo aberto do centro da cidade, a expressão genuína da Autonomia Local  proclamava a Liberdade, conquistada a pulso pelas gentes de Machico (alguns já no reino inacessível) apesar das bastonadas, coronhadas, machadadas  infligidas na dignidade “Deste Povo/ Que trabalha/ E faz o mundo novo”.

         01-02.Jul.17 
Martins Júnior   
   

  

quinta-feira, 29 de junho de 2017

OS INCÊNDIOS CONTINUAM NA LÍNGUA DOS PIRÓMANOS…


Por muitas festas e folguedos que nos cerquem, é impossível passar indiferente a Pedrógão Grande, como impossível é atravessar o fogo sem chamuscar a pele. Logo à entrada, uma conclusão linear: um incêndio, tal como uma desgraça, nunca vem só. É o que se passa diante dos nossos olhos. Acabaram-se os fogos naquela encosta beirã, outros se reacenderam na praça pública. Incendiários à solta aí andam nos jornais, nos cafés, nas escolas, nos laboratórios e, sobretudo, no caldeirão-mór chamado Parlamento. Há quem os chame de bombeiros sem bomba e até, na gíria do ridículo, ‘treinadores de bancada’. É vê-los por quanto é beco sem saída a perorar, esbracejar e espumar ciência de cordel, num vale-tudo para incendiar papel e tinta a granel. Tenho seguido conferências e conferencistas, debates, debutantes e debutados, especialistas e experimentalistas, todos num tropel de contradições tais que dariam para colocar as teses e o seu contrário, em paralelismo esclarecedor. Alguns casos:
Que deveria repor-se o gado nas serras para limpar os terrenos. Mas logo os vegetarianos e ambientalistas mandam escorraçar os pobres bichos do seu habitat natural.
Que deveriam regressar ao seu estatuto os guardas florestais, ampliar as Corporações de Bombeiros e pagar-se-lhes um salário melhor. Mas lá vêm os da guarda, os marinheiros, os precários, os da pré-reforma, os professores, os médicos, todos com sua razão para puxar o lençol à sua testa, ficando desabados os pés dos ‘soldados da paz’.
Que deveriam restabelecer-se os extintos governadores civis como eixos indispensáveis à coordenação das operações. E do outro lado, a inutilidade do posto face à descentralização dos poderes e transferências para as autarquias.
Que deveria combater-se a desertificação do interior. E, ao mesmo tempo, eliminam-se juntas de freguesia, escolas, agências bancárias, correios e centros de saúde.
Que deveria combater-se a proliferação dos eucaliptais. E logo esperneiam os industriais e os agricultores de poltrona gritar que o sector “garante ao nosso PIB  2800 milhões de euros anuais através das pasta e do papel”.
Que deveria (nem a caça escapa) reinstaurar-se o velho regime cinegético, com facilidades e apoios aos caçadores, como vigilantes ‘pro bono’ da floresta. No entanto, não são poucas as suspeitas da classe sobre as vantagens decorrentes dos incêndios.
Que deveriam  os donos dos latifúndios baldios ser obrigados a limpar as terras, sob pena de lhes ser retirado o título de propriedade ou, no mínimo, a vendê-las ao Estado, reinstaurando a sábia “Lei das Sesmarias”. Mas logo salta o dogma das sanções sobre a propriedade privada, previstas e punidas no nosso ordenamento jurídico, tanto por lei ordinária como  pela nossa Lei Fundamental.   
Para sintetizar: Que deveriam ser alocar-se verbas substanciais ao planeamento florestal e ao coberto agrícola, uma vez por todas, já que nunca tal aconteceu neste país. Porque “a floresta é o nosso futuro”. E de arrasto gritam de outros quadrantes: “O mar é o nosso futuro”… “A saúde é o nosso futuro”… “A educação é o nosso futuro”.
Onde achar quartel para conter tantas chamas e conciliar tantas contradições?!...
No Fórum da Liberdade, todas as críticas são admitidas e todas as soluções comportam um valioso peso contributivo. O que repugna, porém, é o virulento dardejar de setas em fúria por parte de alguns que, tendo culpas antigas no cartório, irrompem desenfreados, olhos de tição em brasa e cara de barrotes queimados, bradando e vociferando, como se só agora descobrissem a velha “Caixa de Pandora” onde sempre viveram acomodados, insensíveis.
Enquanto a barafunda inunda o espaço, há gente que sofre. Tanto as vítimas inocentes como aqueles que, por mandato público, são chamados a intervir e  resolver. A todos, uma palavra e um voto: Força, porque a tarefa é imensa, Ars longa, vita brevis! Tocar na floresta é construir para a eternidade.

29.Jun.17

Martins Júnior

terça-feira, 27 de junho de 2017

SOLIDARIEDADES PÓSTUMAS --- SUCESSOS E DESAFIOS

Dobrado sobre o escantilhão dos caracteres gráficos, aqui de longe, escrevo à mesma hora em que Lisboa, dentro e fora do  Meo Arena, transborda de sons e tons quentes, solidários – daquela solidariedade que transforma as cinzas em generosas fogueiras, maiores que os incêndios que devoraram cinquenta mil hectares de terra beirã. É o  genuíno animus lusitanus, coração pátrio, pronto e  aberto à desgraça quando esta  nos bate à porta. São as instituições, são os grandes bancos, com o BCE `na vanguarda, são as igrejas, os padres e os frades, os cidadãos anónimos que correm pressurosos a amparar os desvalidos, os imigrantes do lume, foragidos dentro da sua própria casa. Aproveita-se a hora para tocar a rebate  com o badalo de grandes dádivas na comunicação social. E a sociedade toda, pela boca do Presidente da  República, exclama como que num assomo de requintado narcisismo. “Não há gente como esta”!
Louvo a capacidade regeneradora do Povo Português em toda esta tragédia, enquanto me deixo envolver na manta de lágrimas e retalhos das  vítimas e suas inconsoladas famílias. No entanto, desde as frágeis da orelhas do cidadão comum até às velhas muralhas das arribas, o que mais troa no ar é um simples e poderoso trissílabo: PRE-VEN-ÇÃO. Repetem até à exaustão  investigadores e ambientalistas  que é na prevenção que está o ganho, porque mais que remediar,  o que  vale é prevenir. Esboçam-se planos e traçam-se programas em conformidade: faltam guardas florestais, é urgente restaurá-los; os pobres bombeiros ganham pouco e não têm arsenal suficiente para combater os incêndios; não há quem limpe as matas e “a floresta é o nosso futuro”.  São estas as notas que perseguem governantes e governados, notas mais graves e mais agudas e todas mais gritantes que os acordes do mega-espectáculo desta noite no Meo Atena.
No entanto, passadas que forem mais meia-dúzia de luas, quem se lembrará disso?... Sem querer entrar, hoje, em aspectos parcelares da questão, ouso perguntar: Estarão os mesmos banqueiros, as mesmas instituições de benemerência, as mesmas igrejas e congregações na disposição de contribuir para a Prevenção, com os mesmos valores (ou em 50%)  do que deram para a Remediação?... Duvido.  O que mais se ouvirá  é o estafado e estouvado  bocejo: “Isso é lá com o governo”.  Criou-se passivamente  um inconcebível paradigma fiscal que se resume a isto: Prevenir é com o governo, Remediar é com o Povo! Como se Prevenir não fosse  o dobro, o triplo, o quádruplo de Remediar… Toca-se aqui o nervo mórbido da condição humana, infiltrado e cozido bem dentro de nós, quando acompanhamos religiosamente o funeral de alguém a quem pouca ou  nenhuma atenção prestámos no decurso da sua atribulada vida.
Gostaria de dissecar mais aprofundadamente este paradoxo, no que concerne aos incêndios e às intempéries. Mas deixo-o, por agora, para não empanar o brilho do dadivoso gesto dos 25 artistas, “Todos Juntos por Petrógão Grande”. Um milhão e duzentos mil euros!!! Merecem o maior aplauso. Como o merecem todos aqueles que, dentro ou fora das ONG’s, lutam persistentemente, no silêncio de todos os dias, pela defesa  do ambiente, esta nossa “Casa Comum”,  onde o Homem possa respirar o ar puro da Segurança e da Saúde.
Mais vale a Solidariedade viva da Prevenção  do que a Solidariedade póstuma da Destruição.

27.Jun.17

Martins Júnior   

domingo, 25 de junho de 2017

POR QUE NÃO CANSA A “COISA AMADA” ?


Não deixam de atravessar-me as narinas os tições  fumegantes de Pedrógão Grande nem o contraste das garridas marchas populares do trio  santoral de Junho pára de soar aos meus ouvidos. Entretanto e porque hoje é domingo faço um ‘stop’ estratégico para mergulhar  noutras águas mais profundas que vão desaguar no escrito do meu “Dia ímpar”, 22 de Junho. Como é possível amar durante quase meio século sem nunca nos cansarmos da “coisa” amada? … Por “coisa”  considera-se aqui  uma   entidade ontológica, ou seja, a totalidade do objecto que se ama , quer se trate de uma  pessoa, paisagem, pátria, livro, ciência ou arte. Com este cenário em fundo,   estamos todos no mesmo palco. Toca-nos a todos o grande enigma que aquela pergunta condensa.
Amar não é dar. É dar-se.
Desta diferença abissal  emerge em plena luz  que não é a prenda nem o anel nem o ramo de flores nem o cheque de enxoval que define a promessa de amor, nem sequer a incondicional entrega dos corpos em exaltação febril. Da mesma forma que não são o “pão e os jogos” nem a auto-estrada  nem o bloco de apartamentos nem as pontes voadoras nem os sumptuosos monumentos que tornam inesgotável o filão da “pátria”  que se ama. Tudo isso “se esfuma como a brancura  da espuma que se desmancha na areia”, assim escreveu o inspirado sambista brasileiro Orlando Silva. Desengane-se, também, o Povo das juras e das patrióticas doações dos que servem em baixelas de festas arraialescas os tambores e os foguetes, o betão e o alcatrão que tresandam ao velho ‘mercúrio cromo’ eleitoral. Um dia, cedo ou tarde, serão inevitavelmente  “as palavras gastas” do nosso Eugénio de Andrade.
O amor que nunca se cansa da “coisa amada” não tem agência de câmbios mensuráveis. É outro o seu trono – “ o  invisível” de Saint Exupéry – a mentalidade, a pedagogia, a sensibilidade, enfim, a nascente intocável de onde promanam os rios do Ser ( e nunca os do ‘ter’), seja no cidadão individual, na família ou na escola,  seja na personalidade colectiva de um país, de uma região ou de uma remota aldeia. Penetrar na central energética do outro e ver crescer “cravos, rosas em botão” onde só havia cardos e espinhos, eis a “coisa amada”  que não morre e não nos deixa morrer.  Neste entendimento, a história recente da ilha é a prova inapelável de que tudo terão dado aos ilhéus menos o amor, a educação cívico-cultural e social perdurável nas gerações vindouras.
E porque é Domingo, hoje percebi melhor  o alcance do veredicto do Mestre: “Não tenhais medo dos que matam o corpo e não podem fazer mais nada. Temei, sim, os que podem matar a alma e o corpo”. Contrariamente às interpretações da fatalidade justiceira dos deuses julgadores, entendi, hoje com maior incidência cirúrgica, que “matar a alma” significa truncar a mentalidade,   prostituir a sensibilidade,  armadilhar o chão da estrada do futuro – o pessoal e o social. E isso é o desamor poluído e poluente. É a traição consumada, por mais sofisticada e aparatosa  com que pretenda travestir-se. As igrejas têm aqui uma inexorável ‘operação stop’ para questionar-se perante a dura realidade, a de ontem, a de hoje e a de  amanhã.
Do aprofundamento relacional  entre quem ama e o seu ‘objecto’ dependerá a renovada juventude da “Coisa Amada”.

25.Jun.17

Martins Júnior

quinta-feira, 22 de junho de 2017

48 ANOS NA RIBEIRA SECA!

                                                                                                
Não há regimes para a vida. Nem dogmas. Nem empregos. Nem instituições para sempre. E quando as houver é porque o Homem deixou de ser igual a si mesmo para tornar-se peça e produto da máquina trituradora.
Para sempre – só o Amor!
Chamem-lhe paixão, sonho, chama,  alma ou coração. O Amor que nos veste por dentro e por fora! O ar que respiramos - só Ele! Mais que as religiões, mais que o talento, mais que a saúde, mais que o casamento, ainda que lhe chamem sacramento. Porque sem Aquele  nem este nem o resto poderão subsistir. (Paulo, Cor., cap.13).
Quarenta e oito anos! – somatório fatídico que para nós, portugueses, traz  à memória os horrores do fascismo. Do regime. Da máquina. Mas que morreu às mãos das armas que fabricou.
Quarenta e oito anos no mesmo palmo de terra. Só um grande   Amor pôde  transfigurá-lo e fazê-lo  do tamanho do mundo. Porque na concha dos dedos do palmo de terra  há pessoas, corações em marcha, há um processo que não conhece ocaso. Pelo regime, pelo emprego, pela instituição, jamais. Só pelo Amor!
“E mais servira se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida”  (Luís Vaz de Camões)
É por Ele que são ímpares todos os dias pares da vida.
O 22 de Junho, também!

22Jun17

Martins Júnior

quarta-feira, 21 de junho de 2017

22/'NÚMERO IMPAR'


ENTRE O FOGO E AS CINZAS, ENTRE A PRIMAVERA E O VERÃO DE CADA ANO, O PARADOXO ACONTECE: DE 21 PARA 23 O MEU ‘DIA ÍMPAR’  É O 22 DE JUNHO. E TEM QUASE MEIO SÉCULO. ATÉ AMANHÃ!


Martins Júnior

segunda-feira, 19 de junho de 2017

ANTI-EPITÁFIO - "ESTRADA 236"


Aqui jaz
Quem achou a derradeira paz
Às portas do inferno

Pedra Pedrógão
Desde o grande ao mais pequeno
Onde se afogam
Em cinza muda
Altos brados
Infinitos sonhos-labaredas  
Trucidados

Lampadários solenes como círios
Os troncos
Vítimas e assassinos
Sangrando raivas e delírios
Alumiam um corpo exausto
A caminho do holocausto


Mais cedo que tarde 
Dias virão
E o cruzeiro do vento suão
O mesmo mas de outra cor
Devolva as cinzas desta dor
Ao seu seio materno
E onde foi inferno
Será verde e será pão
Adeus Pedrógão Pedrogão
Estância do terror e Terra da Promissão

19.Jun.17
Martins Júnior


sábado, 17 de junho de 2017

PARAGEM FORÇADA!



Sábado, 17 de 17!  O Funchal regurgita de sons que apertam a cidade e fazem as pessoas, sobretudo os estrangeiros, andar num reboliço de arraial nocturno. Desloquei-me à capital  e, entre todas as propostas, optei pela Orquestra de Bandolins da Madeira, em homenagem ao malogrado animador e maestro Eurico Martins. Sempre de encantar o virtuosismo dos executantes, com a simpatia melódica dos mais jovens.
Mas não era esse o meu enlevo nesta noite quase estival. Era outro o encanto que ali fora buscar -  aquele mesmo que nasce do fundo das memórias e que tem por nome ‘saudade’. A memória era a do Eurico e a saudade vinha  de mais longe. Conheci o pai, António, e outros elementos de São Roque, reuníamos-nos  na Fundoa e na Capela da Alegria, nas tardes de domingo.  Era a década de 60. Hoje, ao olhar a ribalta do palco, destacavam-se os 104 anos do “Recreio União da  Mocidade”, o agrupamento que deu origem à actual “Orquestra de Bandolins”.  E o meu deleite de hoje consistia em ultrapassar a imponência da “Sala de Congressos” e fazer de contas que entrara  na oficina de carpintaria, na mercearia do alto de São Roque, na sala estreita onde, porventura,  começaram a trinar as cordas do bandolim. Eram essas reminiscências que eu queria imaginar, reconstituir a azáfama e o amor à arte com que os veteranos de 1913 se ajuntavam para cultivar o espírito, ao fim de um dia de cultivo da terra ou do ofício. Sem apoios públicos, sem anúncios publicitários, sem proventos lucrativos, deram o seu talento congénito para suavizar a vida dura do seu meio  nesses tempos de tristeza e, nalguns casos, de miséria.
Era esse o meu projecto: render homenagem aos antepassados da hoje “orquestra”  e a tantos outros trabalhadores anónimos que, nos meios rurais, abriram clareiras de cultura onde reinava o obscurantismo.


Chegando, porém, a casa, deparo-me com a tragédia de vidas calcinadas pelas chamas em Pedrogão Grande. Ver-se rodeado de lume devorador, num automóvel-prisão fatal, pais e filhos desesperadamente carbonizados, em fim-de-semana!... Igual ou pior que a tragédia em Londres!... Tudo isto só me lembra um fatídico 15 de Agosto/67, quando uma mina anticarro matou 11 amigos meus, um deles, o condutor, consumido pelas chamas, perante os nossos olhos impotentes…
E não posso continuar!  Desisto da orquestra e de todas as memórias nesta noite… Peço desculpa.

17.Jun.17

Martins Júnior

quinta-feira, 15 de junho de 2017

"ISTO É O MEU CORPO"


Desde o romper da manhã, hoje o Dia é um campo de trigo louro ondeando energia e paz. É também o cheiro capitoso dos vinhedos a perder de vista diante dos nossos olhos. E onde não é  trigal nem vinhedo, o Dia é um pomar de saúde borbotando das macieiras em flor, um poema de rimas doces e homéricos alexandrinos. Por isso, hoje é o Dia lírico, onde o verve sensual do planeta se irmana com  a excelsa altitude do Espírito.
Chamam-lhe o “Corpus Christi”, o Dia do Corpo do Cristo Nazareno. E por isso, hoje é o Dia claro do Poema que bebe da água das nascentes mais fundas  e jorra para além de tudo o que é fronteira do humano. E é esse o convite que aqui deixo para cada um de vós tornar-se uma estrofe desse corpo. Considerem-no o que quiserem: sublimação mística ou panteísmo telúrico ou cântico intemporal -  solenemente declaro que é esta a minha Oração Universal.
Eu Te saúdo, ó Cristo, que não buscaste o ouro, o diamante ou a estrela distante para Te identificares no horizonte da História. Antes quiseste ser terra que dá espigas - espigas que dão farinha do moinho  e depois  se abrem em pão para o Corpo e para o Espírito. Eu te saúdo no rústico pomar, na estufa delicada, nos rios que se fazem ao mar e no azul aquático que sobe para o alpendre das nuvens e retoma o movimento circular da criação primeira. Não quiseste outra veste senão a do Pão e a do Vinho transbordante da taça da Vida!
Procuro-Te  nesta mesa proletária comum, mas  rica de nutrientes biológicos sustentáveis. Ninguém venha convencer-me que mastigar a Tua carne, beber do Teu sangue ou trincar os Teus ossos é mais importante que assimilar o Teu pensamento, moldar-me às Tuas atitudes ou consubstanciar-me com o Teu projecto!  É outra e maior a  consubstanciação que me queres  doar, como é mais radical e pujante a transfusão que operas em quem Te recebe. Nesta Quinta-Feira e em todos os dias e todas as horas que são também Quinta onde Tu moras. Como Teilhard de Chardin, também professo que entre panteísmo e idolatria prefiro o primeiro:  ver-Te assim,  ecologicamente desnudo na planura virgem  da Mãe-Terra. E não consigo melhor tradução daquela imensa ressonância que atravessa milénios: ”Isto é o meu Corpo… Isto é o Meu Sangue… Fazei isto em Memória de Mim”.
Porque é Dia do Poema sem palavras, as crianças que hoje acederam, pela primeira vez e por direito própria, à Mesa Eucarística, trouxeram  a cereja em cima do bolo quando, em apertado abraço da “Família da Primeira Comunhão”, cantaram assim:
“Na Primeira Comunhão
Nós desejamos, Senhor,
Que no mundo haja mais Pão,
Mais Respeito e mais Amor

Por isso agora prometo
Para quando for maior
Lutar pela Eucaristia
Fazer um Mundo Melhor”


Dia do “Corpus Christi” – 15. Jun.17
Martins Júnior


terça-feira, 13 de junho de 2017

EM DESAGRAVO DE FERNANDO DE BULHÕES NO SEU DIA “SANTO ANTÓNIO”


Quem te amarrou ao cepo
De uma milenária noite estulta?
E quem te travestiu
De usurário agente da turbamulta
Em velórios mortiços
Mitos bentos óleos  e feitiços?
Que mão rasteira
Te enfardou e apalhaçou
Entre os varridos balões da feira?

Grandíloquo helénico Demóstenes
Da era medieva
Precursor de Vieira a haver
Esconjurando a treva
Dos tempos

Náufrago migrante
Pelo mundo esparso
Foste ‘Fogo de Santelmo’
Foste Paulo de Tarso
Ulisses bandeirante
Da tua urbe primeira
‘Por mares nunca dantes navegados’

Onde as lusas quilhas não lavravam
Já os teus pés de Assis
Lassos mendigos exilados
Deixavam rasto visionário
De sábio lutador missionário

Em cada areia ou cabo ou frágua
Em tudo vias a amurada de Pádua
Com homens-peixes lá defronte

Oh verbo-fogo que arpava os tubarões
Flameja de novo a afiada espada
Da Justiça agrilhoada

Como outrora os tribunais
Ainda hoje esperam as togas naturais
Que não se prostituam nem fraquejem.

 
 Pessoa com o estro de Fernando
António transmutado de Pessoa
Filhos do mesmo sol de Junho
Amamentados no mesmo berço-Lisboa

Voltai de novo ao seio capital
Génios do Bem
Fernandos da mesma Mãe
E será grande  Portugal

13.Jun.17
Martins Júnior



domingo, 11 de junho de 2017

“QUE É QUE ANDAM A DIZER DE MIM?”…



De entre as agitadas diversões deste fim de semana, restará ainda por aí, no terreiro da vossa casa,  uma ponta de banco tosco onde repousar os ossos e accionar a ignição do pensamento latente activo?
Pois, se houver, aqui vai um olhar vespertino sobre a cúpula de um monumento construído ao longo dos muitos domingos marcados pelos passos do Cristo histórico. Após a trajectória de uma vida, desde o Nascimento até à Morte, os fenómenos da Ressurreição, Ascensão  e Pentecostes, eis-nos chegados hoje ao fim da linha: a entronização da denominada  “Santíssima Trindade”. É a cereja em cima do bolo, a chave de ouro com que se fecha o extenso ciclo das comemorações.
Por imperativo do assunto em causa, serei breve. Cito Lacordaire: “Quando a dor nos bate à porta, gritamos. Mas quando essa dor é grande, dá-nos para sufocar e calar o sofrimento”. No lugar de “dor” coloco  o espanto da descoberta ou o seu contrário, o horizonte inatingível, a pergunta sem resposta, numa palavra, o mistério. É  aí, à beira do abismo e cegos pelo golpe agressivo do sol , que ficamos imóveis, absortos num silêncio de êxtase, sem achar caminho à frente dos nossos passos.
Tudo isto, a propósito deste Domingo da “Santíssima Trindade”. Uno e trino! Uma entidade, a mesma e única, subdividida, transmutada, autónoma em três Pessoas distintas! Quantos oceanos de tinta invadiram a história da Igreja e das mentalidades  – tinta salgada e amarga - porque deram origem a debates e combates, dissenções e cismas?!... Teólogos, doutores, escrituristas, pregadores,  hermeneutas, um batalhão incontável de ‘especialistas’, terçando armas e ideias, lobrigando pelas galáxias da retórica, por vezes doentia, para descobrir o misterioso paradoxo de “Três em Um” e “Um em Três”… Nem mesmo a tríplice heteronímia de Fernando Pessoa seria capaz de acender um frágil fósforo, para  alumiar o mistério trinitário!
Metido nesta enorme ampola delirante de desvendar o enigma, socorro-me de uma alavanca que a racionalidade humana me oferece: se é de um mistério que se trata, o que a Suprema Divindade me pede e exige é que não tente entrar por esse mar estranho, necessariamente oculto aos meus olhos, porque não me foram dados braços e pernas para saber nadar nessa fundura. Perder-me-ia, afogar-me-ia, de certeza. Deus não pode exigir que eu O entenda ou que penetre nos arcanos da Sua Transcendência, da mesma forma que eu nosso posso exigir à flor do meu jardim que me entenda ou à mais preciosa pedra de diamante que leia o meu pensamento. São naturezas diversas, categorias qualitativamente (e infinitamente!) distintas.
Daqui, parto para duas conclusões. A primeira é a de duvidar de muitos palradores, tagarelas de feira que nas suas prédicas,  a cada dois minutos, falam de Deus, como se tratasse de um “tu cá, tu lá” ou como se estivessem a fazer publicidade de um detergente de supermercado. “Não invocar o Santo Nome de Deus em vão” – está escrito nas placas de pedra que Moisés transportou aos ombros. A segunda conclusão é a de vencermos aquele  medo visceral que nos incutiram, desde a infância,  perante um Deus castigador, Justiceiro e Ditador. É verdade que a Transcendência toma a veste da Imanência, mas isso não nos autoriza a moldar a Divindade à nossa imagem e semelhança. E é o que mais se vê em formulários estereotipados e em piedosas devoções.
“Que é que estão para aí a dizer de Mim?” – poderia Deus interpelar certas pregações, discussões e elucubrações acerca da sua Essência. Foi esta construção imaginária que atrevidamente (mas civicamente)  lancei uma vez no Centro Nacional da Cultura, em Lisboa, aos doutores da teologia, eclesiásticos e leigos, especialistas nacionais e estrangeiros, reunidos em conferência. Aliás, foi esta a pergunta que o próprio Cristo fez aos apóstolos (Mt.8, 28-29).
E hoje diria o mesmo. Com a certeza de que me colocaria – e ainda me coloco – na posição do vigilante atento ao sopro do Espírito. O Padre José Luís Rodrigues disse-o também no “Banquete da Palavra” da semana transacta. Permanecermos num silêncio meditativo.
Afinal, não fui breve. E o quanto e até onde levar-nos-ia este tema?!
Captarmos o pensamento genesíaco do Pai-Criador e continuarmo-lo no concreto da existência… Interiorizarmos a lógica regeneradora do Filho-Salvador… Enchermos os pulmões da energia dinâmica  do Espírito-Renovador --- eis uma tríplice proposta para homenagearmos e actualizarmos a todo o momento o denominado mistério da “Santíssima Trindade”!
11.Jun-17
Martins Júnior