sábado, 21 de janeiro de 2017

“GUERRA E PAZ” – Um filme a rodar outra vez nos nossos ecrãs


Com armas se faz a guerra e com armas se a desfaz. Com suor se planta a paz e com menos se a destrói. Lado a lado,  caminham connosco, comem e dormem connosco, os arrasadores  demónios do apocalipse e os anjos recolectores do paraíso terreal. Talvez que a única nesga de Paz só exista na fronteira entre as duas insanáveis litigantes , fronteira essa que somos nós, o íntimo de cada um de nós.
No último fim-de-semana julgo ter provado à evidência que Deus não tem mão na paz ou na guerra. É assunto que Lhe passa ao lado. Qualquer requerimento ou prece que Lhe fizerem são liminarmente rejeitados por incompetência primária. A competência e a decisão do litígio é tarefa exclusiva, intransmissível, dos agentes humanos. Remeto, pois, a demonstração para o ‘Blog’ de 15.01.17,  por onde se conclui que misturar Deus com as guerrilhas dos homens assume os contornos de provocação abominável, senão mesmo de blasfémia sem perdão. Bem discernia Francisco de Assis quando a si mesmo se definia como “Instrumento da Paz”.
Não serão precisos altos silogismos  para vermos e sentirmos que a Paz não é o lago inerte, pantanoso e mudo das charnecas. Nem o jardim das flores silentes dos cemitérios. Porquê?... É que ela transporta aos ombros aquele  virulento escorpião  que encontrou moribundo na picada e que, a qualquer momento, inocula sadicamente o veneno fatal nas costas de quem o socorreu. A guerra tem os seus genes congelados em potência, prontos a retalhar, destruir, matar impiedosamente.
Aí, a Paz tem de organizar os seus militantes, tem de fabricar no laboratório da história  os antídotos eficazes para opor-se ao esquadrão facínora. É neste terreno prático, (diremos, lógico-dedutivo) que a Paz toma a veste de Oposição, conceito que ultrapassa as oposições profissionalizadas, essas também, fabricantes do armamento sectário que mina os acessos à Paz verdadeira. Quão difícil é respirar com segurança o ar puro do conforto  familiar, social, psíquico, afectivo, extasiante! Da breve análise dos acontecimentos passados, a Paz não é mais que o curto intervalo entre duas guerras, algo efémero como os quinze minutos no meio de um combate desportivo de noventa minutos. Privilégio único desta geração europeia foi o ter vivido sem guerras fronteiriças  desde 1945. Há 72 anos, portanto, a Europa enterrou o machado de guerra que dividia os seus territórios, reunidos desde então sob o grande pavilhão de uma Comunidade, com estigmas é verdade, mas não armada e aberta ao mundo.
Eu disse: foi  o privilégio. Mas, a partir de ontem, tudo indica que o “intermezzo” da Paz  terá terminado. As imprecações vindas da Mátria da Democracia, as ameaças tribais, atiçadas pelo régulo das cavernas contra a União das Nações Europeias – e contra o Planeta, em geral  - fazem tocar a rebate as trombetas das milícias da Paz para barrar as hordas da nova barbárie americana, capitaneada pela repelente armadura do esquadrão trumpista. Pela amostra do primeiro dia, a Europa  –  nós, aqui e agora – tem de organizar-se  para poder defender-se, não apenas dos terroristas  islâmicos, mas dos jhiadistas americanos de Trump.
Sem maiores análises, começamos a entender aquele antigo aviso das civilizações greco-romanas:  Si vis pacem, para bellum  - “Se queres a Paz, prepara-te para a guerra”.  Paradoxal, mas incontestável. Resta saber que tipo de  arsenal bélico será o mais eficaz.  Paulo de Tarso propôs um dia as “Armas da Luz”, em cujos paióis se guardam o conhecimento, a inteligência, o diálogo, enfim, a estratégia convincente. As manifestações que  pelo mundo inteiro se têm multiplicado contra o “novo perigo americano” de Trump  oxalá configurem uma  pista poderosa e consequente para alcançar a dolorosa montanha da Paz e da Razão.
“Guerra e Paz”, intitulou Tolstoi o seu melhor romance.
“Guerra e Paz”, mais que romance, é o guião deste filme do Homem sobre a Terra, a narrativa de cada um de nós. Quando chegará o dia em que se invertam os factores e  que a guerra seja apenas um breve intervalo entre as longas, intermináveis e produtivas jornadas de Felicidade?!
É esse o nosso trabalho.

21.Jan.17
Martins Júnior