quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

“NA BÉSPA DUI REISES” – Uma certa anatomia dos natais


Se  acontecimentos  há em que o mito se confunde com a realidade, é na composição do Natal  que se consuma essa estranha e romântica simbiose. Com efeito, de tudo quanto enternece e anima a sensibilidade popular, nada é seguro, sob a perspectiva histórica. A começar pela data: o 25 de Dezembro não passa de mera convenção, a partir do século IV,  plagiada das Saturnalia, as festas romanas dedicadas ao deus Sol, cujo pico coincidia com o dia mais longo do astro-rei, requalificando-o os cristãos com o nascimento daquele que foi designado como  “Sol Justitiae”, Cristo-o Sol da Justiça. Não é por acaso que nas igrejas orientais, o Natal é celebrado em 6 de Janeiro. Depois, o requinte meteorológico de “uma noite fria”, quando, segundo alguns exegetas, eram as noites cálidas a característica original daqueles territórios.  Pelo meio, a vaca e o burrinho, que o próprio Ratzinger, enquanto Papa Bento XVI, se encarregou de neutralizar no seu livro “JESUS”, afirmando que do registo evangélico não consta nenhum vestígio de gado  bovino ou asinino. Mais enigmático é o “exército de anjos celestes” – aberrante contradição – logo um “exército” para saudar e apadrinhar o “Príncipe da Paz”!!!
Mas é com isto que se pinta o cenário do Natal. Tirem do presépio estes adereços e verão que os turistas “voyeuristas” (nós e os outros) passarão pela “lapinha” como gato sobre brasas, dirão mesmo “que graça tem aquilo”?... Pois, “Aquilo” é o que mais importa. “Aquilo” é a força nuclear que agitou a sociedade de então e tentou mobilizar as civilizações  futuras! “Aquilo” , o Invisível, que poucos procuram ver.
Curiosa é a tradição dos Reis, nomenclatura que os evangelistas nunca mencionam, mas tão-só os “Magos, vindos do Oriente”. Cientistas ou astrónomos ou astrólogos, os Magos terão sido  conduzidos por uma estrela, que alguns investigadores identificam como um cometa e a tradição pintou-os da cor das três “raças” primárias então conhecidas, branco, preto e amarelo, simbolizando a adesão universal à mensagem de Belém. Esta tradição só começou a sistematizar-se culturalmente a partir do século VIII. Neste “item”, não será despiciendo assinalar a contradição cronológica entre a colagem dos Magos ao estábulo onde nascera o Menino e a vingança de Herodes, “rei” de Jerusalém quando se viu ludibriado pelos próprios Magos que não voltaram ao palácio para dar informes sobre a exacta localização do “recém-nascido rei dos judeus”. Herodes mandou matar todas as crianças “de dois anos para baixo”, significando com isto que os Magos só terão encontrado Jesus dois anos depois de nascer. E encontraram-no não no estábulo mas “em sua casa”. (Mt.-2,11).
A todo este design romântico e fluido chega o poeta e místico Francisco de Assis , que em 1223 (séc.XIII) cria e  inaugura, pela primeira vez, na cidade italiana de Créccio, a simulação de um presépio, a qual se tem perpetuado até aos nossos dias, enriquecida pela fértil imaginação popular, com adereços miniaturais de toda a espécie de motivos autóctones, desde o coreto e  a banda de música, as vindimas e as ceifas, a matança do porquinho, o lenhador autómato a rachar os troncos, a igrejinha, as levadas, enfim, a vida anímica de um povo.
O cortejo real dos Magos caiu na simpatia das classes “superiores”, nomeadamente da Igreja e do Estado. A primeira promoveu o acontecimento, outorgando-se a si mesma o privilégio da hegemonia do poder espiritual sobre o temporal - os reis curvam-se diante do Menino, como seus fiéis vassalos – e mais tarde acumulou os dois poderes na cátedra da Roma Pontifícia. Os Estados, por seu turno, reclamam para os seus titulares o estatuto de paridade com os altos dignitários eclesiásticos, por terem prestado a homenagem iniciática  ao Fundador da Igreja e, daí, à sua propagação no mundo de então. Cada instituição, por labirintos exclusivos e até imperceptíveis, tenta canalizar ao seu domínio o ouro e o incenso da romagem dos “Três Reis do Oriente”, daí tirando os  melhores proventos.  A este propósito cai-me debaixo dos olhos a reportagem do El Mundo, onde se lê: “O Governo de Carles Puigdemont convocou as entidades organizadores da tradicional Cavalgada dos Reis Magos  de Vic (Barcelona), com transmissão na TV3, para transformá-la numa mega-manifestação política a favor da independência da Catalunha”.  As próprias crianças, às centenas, transportarão amanhã bandeirinhas catalãs pelas ruas de Vic, tendo-se esgotado todo o “stock” nas lojas da cidade. Porque é a noite e o dia dos Reis. E eu acrescento, dos “reisinhos”,  de cada “reizinho” do seu burgo ou do seu bairro, do seu partido, da sua capoeira.
Por isso, mais do que as grandes encenações de palco, prefiro nesta noite a alegria pura, descontraída e feliz de cada povo, de cada sítio, de cada família, com os cantares tradicionais, os votos alicorados de um novo ano, as “favas” do bolo-rei, os rajões e as concertinas,  tudo envolto  num beijo de saúde e num abraço de libertação. Porque, hoje, Rei é o Povo!

05.Jan.16

      Martins Júnior