terça-feira, 31 de janeiro de 2017

OS CÓNEGOS CONTRA OS ARCEBISPOS… E NÃO É QUE OS ARCEBISPOS PERDERAM A GUERRA ?! – Crónicas do meu televisor privativo


Desanuviar  o ambiente, é preciso. Correr, descomprimir, rir e aprender – eis o melhor remédio. Vamos a isso, já. Portugal, de lés-a-lés, pulou desenfreado, ali de desespero e raiva, acolá de fogo e palma e contentamento sem freio. Desta vez, o Minho foi “Rei de Portugal e dos Algarves”. Adeus Lisboa, capital do Império. Adeus, Porto do pré-republicano “31 de Janeiro”. Adeus, Coimbra dos Doutores. O Minho é que é!  O Minho é Lindo!
E no Minho, o maior é o Moreira (não do Rui), mas dos Cónegos. Imberbe e pequenino, abateu o gigante vizinho, depois de ter enjaulado o Dragões e as Águia,  no percurso norte-sul. Todos os jornais derramaram o brilho da tinta, todas as rádios escancararam as cordas vocais e todas as TV´s  mudaram de cor. “Viva o Moreirense, viva, viva”!... “Moreirense só há um, o dos Cónegos e mais nenhum” !!!
Mas no meu televisor privativo, havia mais qualquer coisa. Ou parecia. Não faltaram os crentes bíblicos em colar na testa o duelo David-Golias, ou o texto litúrgico de Paulo de Tarso, anteontem, onde se exaltava que “Deus usa os fracos para confundir os fortes”. Também vieram os cultores das metáforas e das alegorias,  identificando o grande feito à fábula da formiga e da cigarra, da lebre e do sapo-concho.
Apareceu depois  um esguio e pálido juiz do Vaticano, ruminando pragas e atribuindo a Satanás o “escândalo” de ver uns magros  cónegos de Moreira, grande parte deles oriundos da África negra,  derrubando os anafados e alvíssimos arcebispos de Braga! Impossível: a aldeia de uns cónegos decrépitos, vitoriosos em cima dos mausoléus da arcebispal “Braccara Augusta”!
Logo a seguir. O “pivot” explicou que os cónegos não são mais que padres,  calçados de meias vermelhas, já rapadas. E o arcebispado de Braga era e é  o detentor da sede primaz da Cristandade em Portugal.  E foi dizendo que na Igreja há postos e patentes, tal como nas Ordens Militares: presbíteros, bispos, arcebispos, cardeais e Papas. Tudo talhado à maneira da hierarquia do exército: soldado raso, sargento, oficial, capitão, por aí  fora, até brigadeiro, general e marechal.
O locutor mais não disse. Mas percebi nas entrelinhas o que não lhe permitiram dizer, ou seja, a história que ciclicamente se repete: só a “arraia-miúda” é capaz de abater os castelos dos poderosos, desde a porta-de-armas até às aguçadas ameias. Sempre foi assim. Com a luta do Mestre de Avis, em 1383-1385. E agora, na era em que nos foi dado viver, foram as praças, os sargentos e os capitães de Abril que derrubaram a ditadura dos galões e das estrelas faustosamente coladas nos ombros dos generais.
Pela minha parte, enquanto a multidão lá de cima vibra e salta ao ritmo dos fogos-fátuos que iluminam a noite, fico pensando que a força dos fortes provém da fraqueza dos fracos e que esta aparente fatalidade só se inverte pela pertinácia das bases. Nunca as metamorfoses da história começaram pelas cúpulas. Se os pequenos e os fracos quiserem, será realidade o cântico de Zeca Afonso: “O Povo é quem mais ordena”.
Também na Igreja. Nunca os cardeais e os arcebispos nem os Papas deixaram que o Cristo histórico,  íntegro e total,  passasse por aqui. Só uma excepção – Francisco Papa! Mas se as raízes, os miúdos, os cristãos de base não sustentarem na mente e nos braços este troféu da Verdade, tudo cairá outra vez  no abissal império dos arcebispos. Não os de Braga, mas os de sempre. Daqui também.
Graças ao Moreirense e à sua  sibilina e, para mim, sábia mensagem!  
    
         31.Jan.17

Martins Júnior