sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

OS PORQUÊS?... Episódios marcantes de uma história, ainda por contar


Tendo acompanhado os passos da última viagem de Mário Soares e sendo-lhe tributados  os dias ímpares deste SENSO &CONSENSO, é  caso para indagar sobre  os motivos de tão intensa   dedicação. Todavia, mais do que as palavras e emoções descritas durante a semana inteira, importa chamar à colação os factos mais determinantes neste processo de homenagem. Que interesses e motivações estarão na sua génese?
É nos meandros da memória que vamos encontrá-los. Além da indesmentível grandeza de estadista, nacional e internacionalmente reconhecida e justamente alcandorada, emergem atitudes que, circunscritas embora a territórios insulares de menores dimensões, fazem crescer a estatura cívica e humanista de Mário Soares. É da nossa ilha que estou a falar.
Nenhum outro governante foi tão maltratado pelos madeirenses (representados no governo regional) como o foi  Mário Soares. Os corifeus do regime ditatorial PPD  da Madeira instrumentalizaram, por mais de uma vez, um punhado de arruaceiros “jagunços” para insultar o Primeiro-Ministro, chegando ao ponto de  agredi-lo com objectos humilhantes, atirados de longe como nos pré-históricos cortejos do carnaval madeirense. No entanto, nenhum outro governante, nem os do PPD, foi tão generoso e democrático para com a Região.  Lembro-me da consulta que Mário Soares fez a todos as forças políticas, recebendo-as, uma a  uma,  e aceitando sugestões para o  Programa do seu Governo. Aí manifestou-nos o seu interesse “no prosseguimento do diálogo entre a UDP e o próprio governo”. Isto em 1976. Lembro-me também das volumosas transferências financeiras enviadas para a Região  nos governos de Soares, sem nunca exigir contrapartidas, como as que fez o Primeiro Ministro Cavaco Silva, em 1986, de que resultou o leonino contrato  “Protocolo de Reequilíbrio Financeiro”, que deixou as Câmaras na penúria. E, mais tarde, foi ainda um Chefe do Governo PS, António Guterres, que em 1999  perdoou a dívida da Madeira, no montante de 110 milhões de contos (550 milhões de euros).
Compulsivos argumentos factuais para que os madeirenses estejam gratos a Mário Soares!
A título pessoal, a minha presença quase anónima nas exéquias do Fundador da Democracia em Portugal tornou-se um imperativo de emoção e gratidão. Recolho, entre tantos, apenas três eloquentes momentos, desconhecidos da opinião pública. O primeiro e o segundo aconteceram, quer na Assembleia Regional,  quer na Câmara de Machico, estando, como independente, na ala da UDP e do PS, o que só por si revela a abrangência democrática de Mário Soares.
Celebrava-se com pompa e circunstância o dia da Autonomia, 1 de Julho de 1988, com sessão solene no Salão Nobre da Assembleia, presidida pelo então Presidente da República, Mário Soares, recheada ademais pelo colosso dos membros do Conselho das Comunidades Madeirenses, todos eles escolhidos a-dedo pelo governo regional.  No meu discurso foquei especificamente o despudor da relação Igreja-Governo, através do “Jornal da Madeira” que, com a cara eclesiástica, servia de exclusivo panfleto do PPD, a que ajuntei o testemunho que pessoalmente colhera entre os emigrantes, aquando das visitas que empreendi a Venezuela e Austrália. E fi-lo nos seguintes termos: “Este governo madeirense usa os emigrantes como arma de arremesso político, porque apenas favorece os barões da emigração e despreza o emigrante comum quando, na Madeira, precisa dos serviços da administração pública regional”. Os gritos, os apupos desmiolados transformaram aquele Salão Nobre numa selva enraivecida e tão tresloucada que me impediram de continuar. Passados alguns minutos de barafunda tribal, o já falecido  Dr. Nélio Mendonça, então presidente do Parlamento, repôs o silêncio no recinto, atitude que muito me surpreendeu, dado que a praxis ordinária era deixar correr o mar dos tubarões enquanto usava da palavra. Tempos depois, na audiência que me concedeu em Belém, Mário Soares desvendou o enigma, dizendo: “Perante a anarquia geral, enquanto o meu amigo falava, fiquei atónito e disse ao ouvido do presidente da Assembleia: ou o senhor põe  isto na ordem ou então levanto---me eu a fazê-lo”.  Fiquei esclarecido. E sentidamente reconhecido.
Noutra altura, era eu presidente da Câmara e, passando por Machico, avisou-me, em tom solidário, o Dr. Mário Soares, diante dos presentes. “Aguente-se, padre”!... Ele bem sabia o que teria de passar a única câmara da oposição na ilha da Madeira, face à prepotência da governação regional. Serviu-me de alento e coragem a  premonitória recomendação, cuja sonoridade ainda guardo bem viva e definida.
Em 10 de Junho de 1995, Dia de Portugal e das Comunidades, teve o Dr. Mário Soares a gentileza e a “ousadia” de atribuir-me as insígnias de comendador, um ofício que sempre abjurei, mas resolvi, enfim, aceitar, sabendo a simbologia cívica e  moral que tal gesto significava nessa crucial conjuntura. E fez questão de ser ele próprio a impor-me a condecoração na cidade do Porto. Caiu o Carmo, caiu a Trindade, caiu a Quinta Vigia e caiu, imaginem, o Paço Episcopal. Contra Mário Soares e contra mim. Basta ler o Jornal da Madeira da primeira quinzena de Junho. O mais original e que revela a servidão eclesiástica ao governo foi a homilia do bispo Teodoro Faria na Festa de Santo Amaro, logo seguida de queixa formal da diocese ao “Conselho das Ordens Honoríficas”, acusando Belém de “violar a Concordata entre Portugal e a Santa Sé, pelo facto de comunicar a dita nomeação ao contemplado, designando-o como  Reverendo Padre José Martins Júnior” . É um tratado de esquizofrenia “humano-divina” o que vem publicado no JM, de 15.VI.95. Vale a pena olhar a “beleza” daquele sacro linguado!... Hoje, ao reler essa enormidade, reconheço e afirmo, alto e bom som, aquilo que na altura o pudor não mo consentia dizer: A Igreja diocesana tem sido a barriga de aluguer do governo regional. Oxalá desista de sê-lo,  num futuro próximo. E definitivamente.
A Igreja, cordeirinho imolado no altar da Quinta Vigia, seguiu o “Voto de Protesto e Condenação” que o PPD/PSD aprovou contra a condecoração  no Parlamento Regional em 8 de Junho, revéspera do Dia de Portugal.  (Ler DN, 8.VI.95).
Entretanto, Mário Soares prosseguiu, seguro e sereno, a sua marcha, enquanto a caravana insular ficou no velho estaleiro do calhau roliço.
O quanto, quanto tinha eu para contar nesta nau onde me coube embarcar  no oceano da vida... Fico-me por aqui, transcrevendo em epigrafe a simpatia e a afectividade com que o  Dr. Mário Soares tratou este ilhéu, agora quase octogenário e que ficaram gravadas no Livro de Honra do Município de Machico em 1997.
Retribuo-lhe com os cravos vermelhos que carinhosamente deixei na sua tumba!

13.Jan.17
Martins Júnior