domingo, 15 de janeiro de 2017

REQUERIMENTO LIMINARMENTE INDEFERIDO: Pedido ou Provocação?


É este um apontamento que me perseguiu em toda a quadra natalícia. E porque é hoje,  dia do Santo Amaro,  que na tradição madeirense se queimam os últimos cartuxos das estrelinhas saltitantes, ainda chego a tempo de deixar cair no chão da “lapinha” esta reflexão, tão estranha quanto evidente.
Coincidentemente, duas notícias, ainda frescas da véspera, vieram chamar-me à liça. A primeira tem a ver com o elucidativo trabalho que uma ilustre  investigadora da nossa Universidade acaba de dar a conhecer  sobre o bullying nas escolas da RAM, concluindo que 10% dos alunos são vítimas desse tipo de violência. O segundo caso, mais trágico e repugnante, foi o assassinato, a sangue frio,  de um homem na pacata freguesia do Monte, sob o olhar protector da Santa Padroeira. Para bálsamo dos crentes, ouviu-se a petição: “Que Nossa Senhora da Paz que tem aqui o seu monumento conceda a paz aos residentes nesta paróquia”.
Paz…Paz… Paz… e outra vez Paz! Foi o refrão -  saudação e  oração - que mais encheu os dias, as horas, os cerimoniais litúrgicos do Natal e Ano Novo. “Os anjos anunciam e trazem a Paz… Os profetas garantem a Paz à chegada do Messias… Ele é o Príncipe da Paz”. E clamorosas voam em reboada  instintivas preces: “Senhor dá-nos a Paz, Virgem dá-nos a Paz”!
É a estas frases desarticuladas que eu chamo Requerimento liminarmente indeferido. Por mais estranho que nos pareça,  tal pedido não passa de um falacioso atestado de inimputabilidade, em que toda a responsabilidade pessoal ou colectiva é atrevidamente descartada. Atira-se para a estratosfera da Divindade aquilo que é trabalho exclusivamente nosso. Respeito todas as versões ou opiniões divergentes daquela que, após ponderada reflexão,  tentarei apresentar.
Começo, desde logo, por formular a mais comezinha das perguntas: Qual é o pai e qual é a mãe que não desejam que todos os filhos se entendam e vivam pacificamente como irmãos?... Nenhum, seguramente. Mas esse desiderato só é possível se os descendentes, os herdeiros, fizerem por isso. Podem os progenitores impetrar aos filhos que vivam em paz, mas de nada servirão o seu apelo, a sua oração, talvez as suas lágrimas, se neles persistir uma reiterada recusa de entendimento mútuo.
Em linguagem antropomórfica, apliquemos esta evidência à relação entre o homem e Deus, entre o  mundo e o Supremo Ordenador do Universo. Depressa chegaremos à conclusão de que é Deus quem nos pede insistentemente:  “Pela vossa saúde, entendam-se. Pela felicidade vossa e minha, façam o favor de construir a Paz”. Essa é a  nossa tarefa. De mais ninguém.  Só por requintada hipocrisia e por oportunista desvio psíquico de transfert se endossa para o invisível aquilo que só nós, visivelmente, podemos elaborar. Daqui, não será difícil admitir que Deus – porque respeita a liberdade do ser humano – reconhece-se impotente perante os conflitos pessoais, a violência doméstica, as cenas de bullying, as guerras entre as religiões e entre as nações. Mantenho a convicção de que certas preces e práticas litúrgicas mais não são que uma fuga à responsabilidade pessoal e colectiva.
Porque a Paz não se dá de graça. Não é um pó mágico a custo zero. A Paz paga-se. E a factura chama-se mentalidade, educação, sensibilidade vicinal, visibilidade social, mundividência do presente e do futuro. E sobretudo, renúncia: aos megalómanos complexos de superioridade, à avidez de mesquinhos interesses, ao gesto tribal, à palavra desbragada, selvagem. Perguntem ao novo inquilino da Casa Branca se será capaz de abandonar, por imperativo religioso,  essa asquerosa boçalidade de reeditar, na fronteira com o México, o vergonhoso Muro da vergonha, abatido, em 1989, pelo braço do Homem e  não pelas asas dos  anjos de Belém.
A prosseguir esta corajosa incursão, seria um filão transbordante de considerandos dinamizadores.  Fico-me por aqui, esperando ter contribuído para o desanuviamento ideológico com que a inércia comodista, disfarçada de crença e tradição, nos tem amputado a autonomia de pensamento e acção, conducente à nossa quota de responsabilização pelo mundo em que vivemos. Cada cidadão é um monumento da Paz.
“Natal é sempre que o Homem quiser”.

15.Jan.17

Martins Júnior