segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

A IRONIA QUE EDUCA E DIVERTE


Três dias do carnaval não são os mais convidativos a leituras profusas e confusas. Às difusas, talvez, aquelas que saltitam diante dos nossos olhos,  mirones do quotidiano. Nesta leitura difusa posicionam-se, de imediato, as piruetas dos cortejos que percorrem as ruas de cidades e aldeias, num enorme leque representativo das variegadas tipologias humanas, estratos sociais, pitorescas e matreiras manobras que disfarçamos no dia-a-dia e, no carnaval, soltam-se cá para fora, mas sempre disfarçadas pelo colorido das máscaras. São dignas de apreço todas as encenações carnavalescas, muito especialmente as que fogem aos estafados estereótipos de outras paragens  e  nascem da imaginação criadora de cada agregado populacional, nisto distinguindo-se a sua originalidade e o alto senso crítico da sua ironia. Eça de  Queirós já o detectara quando escreveu que “sete gargalhadas e meia em volta de uma cidade deitam ao chão  as muralhas que a guardam”. Aproveito este apontamento breve para agradecer aos muitos que, via net, mensagens particulares e presenciais, expressaram o seu elogio à “TRUPE ANTI-TRUMP”, do Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca, sobretudo pela consonância do seu com o nosso pensamento satírico, envolvendo neste passo todos os Trump’s ditadores, os de longe e os de perto. 

Transcrevo, por todos, o simpático escrito  de
Duarte Filipe Andrade Gomes “Estive ontem a ver o cortejo de carnaval em Machico, juntamente com uns familiares. Tinha o meu cunhado a participar na Troupe os Cariocas e lá fomos ver a sua performance na percussão!
Confesso que fiquei surpreendido com a participação da Ribeira Seca. Original na apresentação e na música e letra, com uns fatos a condizer com o tema que escolheram, num claro desafio à política seguida nos Estados Unidos de Trump. Gostei pelo facto de provarem que se pode participar num cortejo de carnaval sem "abrasileirar" a coisa, pois do gostinho do Brasil já tínhamos outras troupes. Confesso que às vezes cansa estar a ver mais do mesmo. Além disso, no carnaval tradicional, há sempre espaço para a crítica política e social, concorde-se ou não com ela.
Trouxe ainda uma característica própria do povo da Ribeira Seca, que já nos habituou ao seu carácter reivindicativo e de povo atento ao que se passa  à sua volta, na nossa terra e no mundo globalizado em que vivemos.
Parabéns pela vossa participação.

Apesar das alegrias do Entrudo,  a comunidade da Ribeira Seca não esquece o inditoso  “27 de Fevereiro de 1985”. Mas a firmeza do Povo venceu os ditadores.

27.Fev.17
Martins Júnior

sábado, 25 de fevereiro de 2017

“TRUP ANTI-TRUMP” – Centro Cívico-Cultural e Social da Ribeira Seca: PRESENTE!



Chapéus há muitos. E carnavais muito mais. A originalidade é o que os distingue. Uns pelos pela fidelidade autóctone às tradições locais, outros pelos gigantones descomunais, outros policromados, banhados em muito ouro e muita prata, talvez para disfarçar a pobreza, outros com muita “carne em alguidar” em dia de desaforo contestatário, dando razão à etimologia que lhe deu corpo – Caro Vale:  “Adeus ó carne”. Há para todos os gostos. E  alguns há que reflectem a mentalidade de um Povo, do seu olhar crítico, chocarreiro, sobre o que se passa dentro e fora de portas. Ridendo castigo mores: “A rir, vou criticando o meio, os costumes”. Conforma-se o clássico axioma Por isso que, em certa medida, cada carnaval identifica o meio ou os costumes, recorrendo à intuição satírica de cada lugar.
Em tempo de humor, Machico também sai à rua. Não com as sofisticadas e abrasileiradas imitações de fora, mas com a emotiva descontracção das suas gentes. A Ribeira Seca leva amanhã ao centro da cidade a sua TRUP ANTI-TRUMP,  uma rábula em jeito de teatro de rua, onde se exaltam os valores da paz, da inclusão, do amor universal contra a guerra, a exclusão e o ódio racial do “Trump americano”. De realçar o ‘pormaior’ de que letra, música e coreografia são um produto endémico, nado e criado por crianças, jovens e adultos desta localidade. Serão bem-vindos  os que vierem por bem irmanar-se com a alma genuína do nosso Povo. Aí vai em primeira mão o texto aprovado para o nosso Carnaval/2017,  a partir das 15,30 na cidade de Machico.

Se vens à rua/  Vem ver a malta
Ribeira Seca/  Está sempre em alta
Entra na trupe/  E salta salta
Liberta
Liberta o coração
Leva a tua canção/  Samba à tua vontade

É a hora
Abraça toda a gente/ Sem medo e para a frente
Viva a Liberdade

É Carnaval/  É Carnaval

“I am
O Trump americano/ Sou o dono do mundo
I Trump
Eu sou o deus da guerra/  E mando tudo ao fundo”
Vai embora
Sai já daqui p’ra fora/ Não queremos a guerra
A Vida
Só queremos a Vida/ Amor e Paz na Terra
                    ( a voz de Trump)
Colectivo:
À guerra diz NÃO
E ao racismo NÃO
O mundo todo
É meu irmão/  É nosso irmão/  É nosso irmão

Mas pelo Pão SIM
E pelo amor MAIS
E por Machico
Amor e Paz/  Amor e Paz/  Amor e Paz/

25.Fev.17

Martins Júnior    

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

FALA DO ZECA NA LOUSA Nº 1606 – 30 ANOS DEPOIS


Nem mausoléu nem flores
Nem mesmo campa rasa
Nem tubas nem tambores
Não me tragam rosas bem-me-queres
Porque eu não estou aqui
Nunca foi esta a minha casa

Vagueio errante mas não errado
E  estou sempre onde estiveres
Do outro lado
Onde o sol corta a vidraça negra opaca
Dos humanos covis

Eu estou em ti
Tu és o meu país
Que desbravo e cavo
Para encontrar  
Vermelho como um cravo
O corpo morto do meu povo cativo

Se o trouxeres quente redivivo
Eu estou lá

E levas-me contigo
Sem medo  e ‘maior que o pensamento’
porque és tu aquele  amigo
Que eu chamo a cada  momento

Sou eu que te procuro
E pego no teu braço
Para esconjurar o fosso escuro
Dos tarrafais fechados nas ruas
Nas fábricas nos montes nos rios a-céu-aberto
No casebre ou na vivenda onde tu moras

Se avisares a ‘malta do que faz falta’
Se afrontares os ‘vampiros’ de todas as horas
A tua voz será mais alta
Que  as mais sonoras
Baladas ‘verde maio verde milho’
Deste migrante ‘andarilho’

Não me tragam mais troféus
Nem me lembrem mais os pides  as prisões
Nem palmas nem medalhões

Porque eu ando por aí
Em tudo o que canta
Em tudo o que clama
Em tudo o que se alevanta
E olhando o sol sorri

Eu não morri
Porque vivo em ti

23.Fev.17
Martins Júnior

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

ESCADAS ROLANTES – ESCADAS FALANTES : “Quem ao mais alto sobe ao mais baixo vem cair”


Hoje não trago mais que um instantâneo. Tão ofuscante e contundente foi, que  para mim – e certamente para si, acompanhante dos dias ímpares - ficará como um tratado de filosofia política ou financeira,, um manual de sociologia e um laboratório de emoções. Porque é assim que procuro interpretar o movimento cíclico das águas correntes: no efémero detectar o perene.
Descia eu a escada rolante de um desses formigueiros de gente  a que se dá o pomposo cognome de hipermercados. Enquanto as correias  giratórias circulavam lentamente, saltou-me à vista um sujeito, lá ao fundo, gabardine laranja-desbotado, olhar inquieto, parecendo mais um fugitivo à procura de um buraco onde esconder-se e com uns trejeitos de  pescoço entre comprometido e  assustado. Percebi que o homem preparava-se para tomar a escada ascendente, contígua à nossa, mas algo lhe travou o passo. Apeei-me e, acto contínuo, o homem subiu. Ninguém deu por ele, nem um bom-dia, nem aceno de mão, nem um olhar,  como se de um estranho vulgar de Lineu se tratasse. Confesso que me deu um travo de compaixão e mágoa natural ver ali, ao vivo, o contrastante, talvez pavoroso, dilema entre a glória e o fracasso, entre o trono e o cadafalso, entre o apolíneo clangor do poder e o subterrâneo tumular da humilhação pública. Por outras palavras, o populismo febril e, em contraponto,  o sol-posto de um sem-abrigo.  Volto a dizer que cheguei a sentir pena daquele instantâneo longo, imenso, eloquente. Quem tinha  (ou julgava ter) o “mundo todo” na mão e todos os viventes-vizinhos  como escabelo a seus pés… e agora reduzido a mero exemplar do formigueiro! Quem tudo fez tremer debaixo do sobrolho alucinado… agora ignorado sem sombra de aragem,  mesmo fria que fosse! Quem esmagava o corpo e a palavra de homens e mulheres de talento, só para promover os medíocres aduladores … agora, ali, de olhar vago e aluado, como a mendigar uma côdea de simpatia ou um punhado de alfarrobas, mesmo falsas, sem ninguém que lhas desse! Nem sequer daqueles que se locupletaram  na sua corte.  Não gostei da cena.  Mais degradante foi ver que o homem não teve coragem de confrontar-se, lado a lado, no vaivém das escadas rolantes, com quem outrora, no auge do poder,  insultou e  massacrou até à exaustão! Além de cobardia, estava ali a inexorável sentença dos povos: “Quem ao mais alto sobe ao mais baixo vem cair”.
Quero esquecer o cenário-relâmpago daquela escada. Deito fora a casca do instantâneo. Só tento reaprender o seu tronco e sorver a seiva que dele escorre. Não vale a pena galgar o vértice de um poder absoluto, porque, quando menos se  espera,  a pirâmide volta-se ao contrário e é então que o todo-poderoso torna-se  vítima do monstruoso bloco que fabricou.  Falo dos grandes impérios de ontem ou de hoje. Assim aconteceu, em alto relevo, com Nero, o boçal imperador de Roma. Assim, com Napoleão,  Hitler, Stalin, Mussolini, Bin Laden, Saddam.  E assim com todos os tribais populistas de agora, ainda que eleitos, desde a Coreia do Norte à Turquia, aos Estados Unidos, à Rússia. A história não perdoa!
“Quem a ferro mata a ferro morre” – já nos prevenira o  Mestre quando Pedro desembainhou o cutelo  no Horto do Getsémani. As prepotências, sejam elas de que cor ou dimensão, não passam de momentâneos fogos-fátuos geradores das chamas que vitimarão os próprios titulares.  Lições gigantes que se reescrevem nos instantâneos miniaturais das escadas rolantes!    

21.Fev.17

Martins Júnior

domingo, 19 de fevereiro de 2017

VIVER É CIÊNCIA E ARTE ou O EQUILÍBRIO PERFEITO


A fechar o dia de Domingo – deste Domingo – ponho na mesa de que me lê a mesma ementa que me  coube degustar e assimilar desde manhã até à noite. A originalidade da receita está no seu  sabor agridoce ou, pela aproximação dos contrários, uma espécie de ‘cocktail’ resolutivo, cujo efeito mais saudável reconduz-nos a esta transparente descoberta:  saber viver é uma ciência e é uma arte. Ciência das antíteses e arte dos contrastes.
Parto dos textos bíblicos deste Domingo, nos quais  o Líder e Mestre J:Cristo entrega as pistas para qualquer mortal alcançar a suprema fasquia da perfeição humano-divina. Textualmente: “Se alguém te der uma bofetada na face direita, oferece-lhe a face esquerda… Se alguém te puser em tribunal para te extorquir a camisa, dá-lhe também a tua capa… Se alguém te forçar a caminhar uma milha, faz o dobro, anda duas milhas… ama o teu inimigo, aquele que te persegue”… (Mt.5, 38-48).
Um purgante intragável, vexatório – diremos instintivamente -  esta auto-flagelação, a roçar os limites da nossa dignidade pessoal!
Entretanto, pergunta-se: Mas o Cristo que assim legisla não é o mesmo que, em pleno julgamento no  tribunal do Sumo-Sacerdote Caifás, ripostou frontalmente contra o ‘oficial de diligências’  que lhe dera um murro no rosto: “Que é isso? Se falei mal, diz-me em quê? … Se não, então por que razão me agrediste com um soco na cara?”. (Jo. 18,23).
E não foi o mesmo Mestre que um dia sentenciou: “Julgais que eu vim trazer a paz à terra?... Desenganem-se. O que eu vim trazer foi a guerra, até dentro da mesma casa:  o pai contra o filho e o filho contra o pai;  a mãe contra a filha e a filha contra a mãe; a   sogra contra a nora e a nora contra a sogra”… (Lc. 12, 51-53).
Mais ainda: Não foi o doce Nazareno que repetidas vezes se atirou desabridamente à alta classe dominante dos Pontífices Máximos do Templo de Jerusalém, chamando-os publicamente de “víboras peçonhentas e sepulcros por fora caiados de branco,  mas por dentro cheios da podridão dos cadáveres”… chegando ao cúmulo de apresentar-se no mesmo Templo com azorragues na mão e expulsar violentamente os que lá faziam da Casa de Deus um centro comercial ?! (Mt. 23, 27; 21, 12).
Em que ficamos, então? Na resignação-aceitação das injustiças, das humilhações, dos sacrifícios e opróbrios… ou na firme coragem de contestar, invadir, guerrear? É que ambas as atitudes foram decretadas e pessoalmente assumidas por Ele! Com a mesma frontalidade e com a mesma convicção!
Uma boa “dica” para pôr à prova a escala de valores e o timbre dos critérios que comandam os nossos passos existenciais. Responda quem quiser. Pela minha parte, concluo que o grande juiz desta tremenda causa está no pensamento de Ortega y Gasset: “O homem é aquilo que é, mais a sua circunstância”. E o critério decisório estará no binómio “oportunidade/utilidade”. É conhecido o estratégico axioma já consagrado: “É preciso saber dar um passo atrás, para poder dar dois passos à frente”. Galileu Galilei soube dar um passo atrás perante a crassa ignorância dos eclesiásticos do Vaticano que queriam mandá-lo à fogueira da Inquisição. Naquela oportunidade, seria inútil - e prejudicial para a ciência em curso – deixar-se imolar por aquilo que, mais ano menos ano, seria uma inquestionável evidência.
Todos já passámos por dilemas circunstanciais e chegámos a esta conclusão: Quando falei e por instinto reagi violentamente, era quando deveria calar e aguardar pacientemente. E quando deveria falar e agir com veemência, foi quando cobardemente me calei e fugi. Intervir na luta ideológica, terçar argumentos na liça político-social é um imperativo estrutural da nossa condição cívico/espiritual, dependendo das circunstâncias o tipo de acções conducentes à vitória da Justiça. Nisto consiste a oportunidade. Nunca o oportunismo. O equilíbrio. Nunca o equilibrismo.
Levar-nos-ia  longe esta reflexão. Fico-me apenas pela estratégia de tantos sábios lutadores, como o actual Papa Francisco que, com a mesma coragem com que defende os marginalizados das periferias, de igual forma exige a demissão de Albrecht von Boeselager, o Grão-Chanceler  da Ordem Soberana e Militar de Malta e destitui imediatamente   o bispo alemão de Limburgo por ter  construído, para  residência pessoal,  uma mansão imperial que custou a ‘módica’ quantia de 31 milhões de euros.    
Há tempo de esperar, com um olhar  vigilante. E há tempo de investir corpo e alma na conquista do que é  fundamental e colectivamente importante. Nisto está a perfeição. Por isso que viver é ciência e é arte.

19.Fev.17
Martins Júnior

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

BIBLIOTECAS ‘LOW-COST’ - ENCICLOPÉDIAS UNIVERSAIS NA MÃO DE UMA CRIANÇA


Que bom chegar ao fim de cada dia ímpar e conversar com os meus amigos e amigas!  Porque ao escrever estas linhas, estou a ouvir a vossa voz e até imagino a expressão do vosso rosto, umas vezes aprovando, outras hesitando na sentença, outras talvez desaprovando, total ou parcelarmente.  Hoje, abertura de  mais um fim-de-semana , passo ao lado de “casos” obscuros e até traumatizantes, como seja o livro de Cavaco Silva, que aparece agora “como Pôncio Pilatos no Credo” ou como a bíblica “mula do profeta Balaão que falou sem ser interrogada”. (Núm.,22). O mais que se pode dizer é que a sua magra substância está lá  na proporção inversa da gordura das 600 páginas encadernadas. Outros “casos”,  o das 57 pistolas desaparecidas do depósito de armamento da PSP, ou o charquinho dos sms, tipo “guerras do alecrim e da manjerona” com que se tem auto-mimado a Direita continental do nosso país.
Saiamos por hoje –  sem lhes sermos indiferentes – destas galerias subterrâneas e respiremos ar puro. Ar puro que sopra da realidade empírica que se passeia diante dos nossos olhos, para confirmarmos o conhecido e comprovado axioma de que “a realidade ultrapassa a ficção”.
Aconteceu assim. Na última coluna de domingo de El País, M. Vicente titula desta forma o seu habitual comentário semanal: Erudiccion. Nele descreve, com mestria de forma e fundo, o perfil dos homens eruditos, lentes do saber, portadores de toneladas de conhecimentos, infatigáveis toupeiras das bibliotecas, de pestanas queimadas, caídas sobre os velhos alfarrábios. Constituíam o éden inalcançável ao comum dos mortais e, sempre que lhe pedíamos uma gota do saber, jorravam mananciais de citações, títulos, glossários, que nos deixavam tão absortos quanto inferiorizados. Mas hoje tudo mudou. Os contentores de vinte mil pés de cultura cabem agora na palma da mão  e  o que antes brotava de um cérebro do outro mundo hoje brilha instantaneamente nos dedos de uma criança. O colunista M. Vicente discorria  depois sobre os portentosos tesouros de ciência que nos proporciona um simples telemóvel, cujo mostrador deixa a léguas de distância os chamados velhos sábios das enciclopédias. Gostei de lê-lo, embora céptico, qual descrente desiludido com a sub-reptícia desvalorização do esforço porfiado dos mestres do saber.
Eis senão quando, a realidade “cai-me na sopa”. No intervalo de um dos ensaios da  tuna infanto-juvenil, fizemos uma deriva para a literatura, a propósito do próximo tema de carnaval, uma sátira a Trump. “Sabem o que é uma sátira?”, perguntei. Ninguém acertou. “Tirem o dicionário daquela estante e procurem o termo sátira”.  Os dedos dos jovens viravam, reviravam páginas, percorriam avidamente as “entradas” dos vocábulos, ansiosos por quem acharia primeiro e, com isto,  já lá iam uns oito minutos.
Eis senão quando – repito o estribilho – uma menina de 8/9 anos (que durante todo este tempo mantinha-se  calada, quase indiferente) aproxima-se de mim, mostra-me o telemóvel e com toda a naturalidade diz: “Está aqui”. E lá estava. “Sátira”.  Fecham-se os dicionários, arrumam-se na estante… e o saber brilhou num ápice sobre o mostrador do telemóvel.
 Confirmei então, com surpresa e com gosto,  que “a realidade ultrapassa a ficção”. Todos na sala possuíam telemóvel, mas nenhum teve a intuição da  ‘petiz de palmo e meio’. Uma biblioteca inteira, um dicionário gigante, abertos de relâmpago, numa superfície de escassos centímetros!  Milagre da inteligência humana, desde há séculos escondido, à espera de quem o descobrisse!
Para as novas gerações, nada disto surpreende. É a piscina onde nadam todo o dia como o peixe no mar. E é a prova de que as modernas tecnologias da comunicação, quando bem utilizadas, constituem alavancas preciosas para o enriquecimento holístico de todas as gerações. Depende tudo da condução inteligente e persistente com que a família, a escola e a sociedade  educarem aqueles que são a sementeira do futuro.
E isto é belo. Isto também é ar puro!

17.Fev.17
Martins Júnior

           

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

ENTRE a geringonça I e a GERINGONÇA II --- O ALARME ESTÁ LIGADO 24 SOBRE 24 HORAS !!!


É este um olhar de síntese, como o de quem vê  da varanda do miradouro mais amplo a paisagem do extenso vale a seus pés, com as saliências, as reentrâncias, as nervuras dos caminhos e veredas, o casario disperso, enfim, o essencial e o circunstancial. E é,  por isso mesmo,   um risco de cálculo esta preocupação de combinar a  síntese com a análise, sem perder a  primeira e sem se perder na segunda. Porque a vida, tal como a história  – seja ela individual ou colectiva, económica ou política,  hormonal ou afectiva – segue sempre o ritmo binário: o fim e a circunstância. O fim ou objectivo é uno, mas a circunstância é múltipla. E o  maior perigo que nos espreita  neste longo percurso é quando, por uma circunstância, se liquida o fim. É o elucidário de todas as vidas.  Quantas vezes e em quantos casos, por causa de um parágrafo, de uma linha, de um vocábulo até, borramos toda a escrita?!...
Insisto neste preâmbulo porque considero-o o guião e o crivo por onde quero deixar o meu olhar preocupado por sobre o panorama actual do país, tendo como pano de fundo a conjuntura ocorrida em 2011 que amarrou os portugueses à corda fatal da troika. Permitam-me catalogá-la como a geringonça, a primeira, experimental, negativa, fatídica. Em contraste com a outra Geringonça, a segunda, a positiva, a promissora. Não haverá, por certo, quem duvide que esta, a segunda, veio redimir a primeira. Tenho a convicção de que o contrato histórico das “Esquerdas” ganha cada vez mais consistência, por parte do BE, do PCP e do PEV, porque estes não esquecem o trauma e a temerária aventura de se terem unido à Direita para derrubar, em 2011,  o governo minoritário de então,  assim escancarando os portões do país à entrada do pérfido “Cavalo de Tróia”, reeditado no voraz dinossauro chamado Troika.
Entretanto,  parece que  sopraram ultimamente uns redemoinhos pré-desestabilizadores, sob a forma de propostas talvez aceitáveis, ditadas pela originalidade programática dos respectivos partidos, mas manifestamente circunstanciais, senão mesmo inviáveis, em termos de equilíbrio orçamental e, no limite, não contempladas nos  acordos inicialmente assumidos. Devo dizer que me trouxeram desassossego tais  especificidades parlamentares,  precipitados saltos de circunstância, sobretudo ao verificar a esfomeada  avidez com que a Direita se lhes colou logo e abraçou no Parlamento e fora dele, num aberrante parto contra-natura, capaz ( a Direita)  de todas contradições e perjúrios, de renegar a identidade, ‘pai e mãe e irmãos, só para retornar a 2011. Cuidado com as perigosas alianças! O degredo financeiro de quatro anos jamais se esquecerá .   É caso para repetir a velha máxima: Time danaos etiam donna oferentes – “Teme, livra-te dos gregos, mesmo quando te oferecem presentes”. O presente na época  foi, precisamente, o “Cavalo de Tróia”.   Volvidos séculos, já temos idade de aprender. O brilho circunstancial pode ofuscar o porto de chegada, o objectivo essencial desta viagem histórica.
Felizmente, a nau retomou o rumo. Na recente polémica dos “bilhetinhos” de Domingues para Centeno e de Centeno para Domingues que a Direita, ressabiada pelo sucesso orçamental da Geringonça II, pretende escavacar com um escrúpulo mórbido, felizmente – repito – os  partidos da Plataforma têm tido o discernimento e a serena visibilidade de não cederem à tentação do circunstancial, porque o  essencial é atingir o fim, restituir a soberania e a dignidade a Portugal e ao seu Povo. Parabéns e Força!
O alarme está permanentemente ligado: geringonça I  -  nunca mais!
   
15.Fev.17
Martins Júnior





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

VIGÍLIA DO NAMORO, PROMESSA DO AMANHÃ : Namorados toda a vida!


No bico do vento-correio
Voaram goivos de longe
E o mar emudeceu
Pousado no gineceu
Da namorada ilha
Aberta em cobiçoso seio

E o sonho começou

Antes de ser flor e fruto
Foi alcova promessa anseio
Sem tracejado nem fim

Toda a vida o Livro
De um ignoto São Valentim

Porque o namoro é o mistério
E no mistério está o ganho
Onde tudo o que é estranho
Fica perto e verdadeiro

O sol namora a lua
Namora a lua as estrelas
Namora a montanha o abismo
E o mar bravo já é espuma
Nos dedos da areia à espera

Namoro é primavera
Jardim moço de virgem  buganvília

Sempre a vigília
É mais bela que o dia
Aquela abre a alvorada
E o dia na noite se esfuma

Namoro só tem vigília
E todo o mundo é namoro

Deus-macho namorou Eva
E fê-la Mulher e Mãe
Deus-fêmea olhou Adão
E fê-lo Filho varão

Rio selva astro nuvem húmus
E quanto lá existe
Cumprem unidos os rumos
Ardentemente traçados
De arfantes namorados

Por isso
Namora
Todo o tempo toda a hora
Trá-lo contigo aprende-lhe a arte
Se te esqueces do namoro
Vem a morte namorar-te

Manda-a embora
Sonha sempre com a manhã

Serão prata e diamante
O trono  e a glória vã

Mas ouro
Ouro fino de garante
Radioso expectante
O namoro
Só o Namoro


13.Fev.17
Martins Júnior

sábado, 11 de fevereiro de 2017

DESALINHADO E ABUSADO – NO ENTANTO, DIVINO!


“Bom-fim-de-semana”… Normalmente é este o envelope com que endereçamos aos outros um voto repousante de higienização física e mental: uma paisagem, uma leitura, uma peça de teatro, um concerto de boa música, nalguns casos um jogo de futebol, uma corrida pedestre, enfim, um alibi para alívio da rotina habitual – cansativa por ser rotina. Na minha condição, tenho sempre à espera uma carta que vem de longe, de milhares de anos, sempre antiga e sempre nova: um texto bíblico que se me oferece para reflectir e, depois, para transmitir àqueles que me acompanham mais de perto na jornada da vida.
Não é meu hábito trazê-lo para esta página. Mas hoje não resisti. Precisamente porque vem na correnteza do escrito anterior, em que comentei a transparente coragem do Papa Francisco no seu magistério docente e, daí, as arremetidas, umas vezes surdas e baças, outras primárias e insolentes, vindas de colaboradores directos que, conhecendo a luz  da Verdade, tudo fazem para que os outros não a vejam. Acusam Jorge Bergollio de erro doutrinário, de tendencioso, desestabilizador, desalinhado e até de ter sido um “erro do Espírito Santo” a sua eleição para Pastor da Cristandade. O mesmo ‘destino’ tiveram e têm muitos teólogos, muitos sacerdotes, cujos nomes também citei.
Ora, nem de propósito. A literatura bíblica deste  Domingo traz-nos a resposta, o esclarecimento iniludível, a síntese que define toda a dialéctica. O Logos, a Palavra por excelência, o Mestre J:Cristo foi considerado pelos Sumos ‘Pontífices’ de Jerusalém como um  marginal incorrigível, um perigoso agitador da ordem pública. Para comprometê-lo perante as instâncias políticas acusaram-no de rival de Herodes e Pilatos, representantes do Império Romano. Para condená-lo no Sinédrio (a Inquisição de então) não fizeram por menos: “Ele é um blasfemo, um bêbedo, o pecador, o da má-vida. Ele é o Belzebú, príncipe dos demónios”.  Enfim, um desalinhado, repudiado pelos senhorios da lei e da opinião pública. Amado e apaixonado pelo Mestre, o Povo, só o Povo.
Mas o que mais me perturba e revolta é que, além de “desalinhado” para o seu tempo, Ele foi e continua a ser “o abusado” pelos que tomaram conta do seu legado e dizem-se seus representantes. Leio o excerto do texto de Mateus, 5, 13-16, indicado oficialmente para este domingo:
“Se o vosso código de justiça não superar o dos escribas e fariseus (os ‘Doutores da Lei’) não podeis pertencer ao meu reino… E tu, se vieres trazer uma oferta ao altar e, aí, te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai lá fora (sai do templo) reconcilia-te com o teu irmão (fala com ele, pede-lhe perdão) e só depois disso é que estás apto a entregar a tua dádiva”  (só então, estás absolvido).
Onde está aqui a inauguração da confissão eclesiástica?... Quem vê neste normativo as tabuinhas de pinho e as misteriosas grades dos confessionários?... Afinal, quem é o juiz desta causa?... Um personagem estranho, um terceiro que não é parte no processo?...
Como foi possível decretar (e mais lamentável) aceitar tamanho atestado de irresponsabilidade  criminal, impunidade gratuita  e  humilhante inimputabilidade?!... Compulsando o Livro do Ben-Sirá (a primeira leitura de hoje), escrito duzentos anos antes de Cristo, aí se afirma que “Deus concedeu ao homem  o dom da liberdade e pôs nas suas mãos o poder (a responsabilidade) das suas decisões”.  Como foi possível, então, entortar a Verdade original?
Este é apenas um caso entre muitos, trazido hoje à colação por se me afigurar oportuno para este fim-de-semana. E em forma de desabafo, apetece-me dizer: De que serve, ó Cristo, te cansares tanto com quem não quer ver nem aprender?... Mas sempre  vale a pena seguir-Te as pegadas:  a vida é tão breve que seria um crime enchê-la de cegueira e escuridão.

11.Fev.17
Martins Júnior


            

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

DO VATICANO… À MADEIRA


“Nosso Mundo, Vasto Mundo”!
Não podia encontrar melhor prelúdio do que o título da obra do grande teólogo Yves Congar – “Nosso Mundo, Vasto Mundo” – para tentar compor um hino triunfal a todos aqueles que fazem  da consciência o seu estandarte e do seu peito uma bandeira  na grande marcha da história ao serviço da Verdade e do Bem, seja nos himalaias soberanos, seja nos humildes recônditos da aldeia.  Porque os grandes feitos e os grandes líderes tanto podem emergir na extensão do Vasto Mundo, como podem florir no terro escasso  do “Nosso Mundo”, por mais remoto que pareça.
Referi-me, há uma semana, à estatura moral do Papa Francisco, à sua coragem inquebrável e ao desassombro do seu magistério de Pedagogo e Guia do Homem contemporâneo, usando  por única estratégia o regresso às origens, ao Evangelho do Cristo histórico. E por isso, à imagem do Mestre, tem sido  malsinado pelos inquilinos purpurados do Vaticano, até ao cúmulo de ficarem indiferentes (senão cúmplices) de cartazes ofensivos nos espaços públicos da cidade de Roma.
Na monarquia mais estranha da instituição católica  (e em todas as outras religiões) quem enfrenta o dogmatismo vigente paga-lhe tributo. E a factura exigida é a humilhação, o opróbrio público, o ostracismo, o martírio enfim. E o mais estranho, ainda,  e contra-natura  é que os autores do crime são os familiares, os de dentro de casa, os que comem à mesma mesa. Por outras palavras, os correligionários, participantes da mesma crença, mais dogmatistas que o dogma, mais papistas que o Papa, mais evangelistas que o Evangelho. Já o Nosso Cristo alertara: “Vai haver quem vos mate, pensando que está fazendo um serviço a Deus”. Digam-no os muçulmanos. E digam-no os bispos cruéis da Inquisição. E digam-no os cegos, fanáticos tribunais eclesiásticos. “Perdoai-lhes, Senhor, não sabem o que fazem”. Mas fazem sangue e afogam a voz dos inocentes.
No entanto, “podem prender-me a mim, mas a Verdade é que não pode ficar presa nem encadeada” – clamou Paulo Apóstolo perante o tribunal. No mesmo tom, Policarpo, António Vieira, Luther King, Óscar Romero e tantos outros, “Felizes por serem perseguidos por amor da Justiça”.
 Vêm estas palavras a propósito das acintosos  comentários  dirigidos, um dia destes no ‘facebook’, ao Padre José Luís Rodrigues, por comunicadores que se apresentam como arraigados defensores da Religião, chegando ao desplante de o apelidaram de ‘demónio’, conforme desabafo do próprio.
E porquê?... Porque o Padre JOSÉ LUIS RODRIGUES é um pedagogo, um mestre, um guia que tem a coragem de sair à rua, através das redes sociais, serve à mesa do seu suculento “Banquete da Palavra” todos quantos têm fome e sede da Verdade, desdobra publicamente as novas descobertas de outros pensadores, as vivências e as ressonâncias de tantos homens e mulheres que corajosamente desbravam as florestas do obscurantismo para que a luz transbordante do conhecimento penetre em cada um de nós. E acima de tudo, um homem de acção, intrépido, coerente e consequente. Dele bem poderia dizer  o nosso clássico Sá de Miranda aquilo mesmo  que, no século XVI, escreveu em Carta a D.João III:
 “Homem d´um só parecer/ dum só rosto e d´uma só fé/ d’antes quebrar que torcer/ Outra coisa pode ser/ Mas da corte homem não é”. (Hoje diria: “Mas da cúria homem não é”)…
Contrariamente aos detractores, “iluminados” pelas trevas da ignorância,  ele tem o merecido apreço de milhares de leitores que o seguem atentamente e já não passam um só dia sem alcançar a nascente da água da sabedoria que generosamente flui da sua escrita. Da minha parte e da parte da população da Ribeira Seca, jamais esqueceremos a sua surpreendente coragem em denunciar o atentado da diocese quando,  em 8 de Maio de 2010,  o responsável eclesiástico não deixou que a Imagem Peregrina entrasse no adro e na igreja desta porção do Povo de Deus. Agradecemos a sua disponibilidade sincera em participar e ensinar à nossa gente a Palavra nas celebrações festivas do Orago. Gesto nobre, eminentemente cristão, como o fez o falecido escritor Padre Alfredo Vieira de Freitas, como o fazem o Padre Tavares Figueira, o Prof. Dr. Pe. Anselmo Borges, o benemérito Padre Jardim Moreira, o teólogo Frei Bento Domingues, o Padre Armando Rodrigues.
No meio da apagada mediocridade da paisagem diocesana, a começar pela cúpula, a Madeira pode justamente ufanar-se de ter alguém que possui a estatura de  Moisés para subir à montanha e daí lançar sementes de estrelas e “canções ao vento que passa”!
Padre JOSÉ LUÍS RODRIGUES!  Que nunca a voz lhe doa nem essas mãos afrouxem na tribuna da palavra e no estendal da escrita! Ao Papa Francisco também o contestam. E ao Nosso Cristo os donos da religião disseram que tinha o demónio no corpo. O Povo esclarecido é quem vai segurar o inspirado “chef” do “BANQUETE DA PALAVRA”!

 09.Fev.17

Martins Júnior

terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

O CHORO DAQUELA CRIANÇA – Esboço de frustrações infantis…

       
      Embora  não praticante da escrita em cima  das águas correntes, hoje não escapo. Lá vai esta folha rolante , escrita  com a mesma transitória inspiração com que depressa vai diluir-se no fluxo breve do quotidiano. Mesmo assim, não posso deixar passar sem marcar na ponte um sinal, uma mensagem que perdure.
         Como eu, certamente não haverá aí ninguém que fique indiferente às lágrimas de uma criança. Seja por que motivo for. Já o nosso Augusto Gil, ao ver uma criança caminhando, descalça, sobre  a  vereda nevada, sentia uma infinita tristeza e uma funda turbação: “Cai neve na natureza e cai no meu coração”. O pranto de um menino que vai para uma cirurgia, uma menina vítima de bullying, uma criança que perdeu o ano escolar, outra que perdeu o pai, a mãe, um irmão. E, por todas, aquelas que procuram refúgio em terra estranha…
         Mas o choro que hoje vos trago deu-me para rir. E, logo depois, para mergulhar num mar de preocupações e de sofrimento até. Paradoxo! Decifro-o  em duas linhas. Sábado passado, entrávamos  num restaurante, quando subitamente demos com um petiz – não teria mais de 5/6 anitos – que saía da sala, com os seus familiares.  Encobrindo o rosto com o capucho de inverno, o miúdo arfava, aos soluços sufocados, escondidos, dentro do casaco do pai. E por mais carinhos que lhe dessem – não chores, amanhã  será melhor, p’rá semana vamos ganhar – nada estancava aquela dor indizível do menino, nervosamente abraçado ao pai. Perante o nosso espanto, o pai explicou-nos: “É que o Sporting acaba de perder com o Porto. E ele é sportinguista”.  Num primeiro impulso e porque nada de grave lhe tinha acontecido, sublinhámos a cena com uma saudável risada.
         Entretanto, o episódio trivial e, pode dizer-se,   humorístico, deixou-me perplexo. E tem-me acompanhado por estes dias. As mágoas, os desgostos, as frustrações das crianças!  Elas existem no seu subconsciente e, embora abafadas por timidez, de vez em quando vêm ao de cima entre lágrimas furtivas. Quem terá tempo, intuição e paciência para interpretar os silêncios doloridos de uma criança, nos recreios, nas aulas, nos amuos,  no isolacionismo instintivo ?...  Perscrutar o coração humano, muito mais o mistério da alma infantil, não é tarefa fácil. Digam-no os professores, os verdadeiros pedagogos. Eles sabem que um erro de cálculo na análise aos  anómalos comportamentos de um jovem pode ter consequências irreparáveis para toda a vida. Os professores, os pais, os colegas, os vizinhos, “uma aldeia toda”. Todos somos chamados a esta tarefa ingente, sempre inacabada.
         Por outro lado, subi a montante e tentei esquadrinhar as motivações do caso vertente. Um coraçãozinho recém-saído do berço e quanta convicção, quanta força, quanta paixão! A criança ama ou rejeita, liminarmente e sem sombras. Normalmente, não  teatraliza nem conhece os truques da prestidigitação adulta, matreira. Já o Mestre o reconhecia. “Se não vos fizerdes como crianças, não entrareis no meu Reino”.
         Aqui começa o Cabo das Tormentas, para transformá-lo no Cabo da Boa Esperança. Preencher o coração da criança, povoar a sua mente, introduzir no computador portátil, que é ela própria, os programas, os  ‘sites e megabites’, os conteúdos adequados à sua dimensão etária, mas sempre com a projecção do futuro, o seu futuro que chega a cada hora - eis o projecto ideal, a epopeia do amanhã. Quem se alista nesta cruzada?!
         Era neste segundo teclado que me propunha compor a partitura de hoje. Porque esta é a mais decisiva de todas: a programação do ensino, o código de estrada da vida, a sementeira de valores. Ficará para mais tarde. Recordo um pensamento da pedagogia infantil: “A alma da criança é como a cera mole. Qualquer vinco que se lhe faça ficará impresso para sempre”!
         Hoje é o Dia Mundial da Internet, do maravilhoso mundo novo que contém e, paradoxalmente, das múltiplas ‘overdoses’ que ameaçam sobretudo os mais novos. Na mesma linha vão certas nefastas  paranóias do futebol.  Nunca percebi aquela cena paternalista, tresandando a ridícula ‘pedofilia’ (entre comas) desportiva, que é  a de entrar em campo com crianças pela mão. Quem achar por bem, fique-se na sua. Só queria que me explicassem qual o simbolismo último daquele descabido teatro.
            

         Moral da história e que me desculpem os amigos Sportinguistas: Que o Jesus, o Grande (o Jorge) de cabelos grisalhos, deite as mãos à cabeça e se debulhe em lágrimas como uma madalena perdida, aceita-se. Agora o “Menino” pequenino… é caso para acompanhar Augusto Gil: “… Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais tanta dor, porque padecem assim”?
         Aqui, o ‘Senhor’ somos nós!

         07.Fev.17
         Martins Júnior
         

domingo, 5 de fevereiro de 2017

O 4 DE FEVEREIRO FEZ 50 ANOS! – o bolo feito de lágrimas e cânticos


No mesmo dia, na mesma hora e quase no mesmo local, à beira-Tejo,  em que partia para  a África  o porta-contentores com gente dentro – o extinto navio “Niassa” – marcaram formatura os protagonistas de outrora no almoço de confraternização, juntamente com as esposas e familiares.  Cinquenta anos voltaram a sentar-nos em redor da mesa da saudade. Antes era a marmita do ‘rancho geral’ e das rações de combate, agora é o licor da alegria borborejando nos nossos lábios molhados. Antes, os lenços brancos do Cais da Rocha misturavam-se com os bonés castanhos acenando do convés do navio, enquanto as águas do rio, insensíveis e cruéis, separavam dos filhos os pais chorosos, apartavam das  esposas os jovens maridos, os namorados das suas apaixonadas namoradas.  Agora,  perguntar-se-á, como  o autor da ‘Mensagem’: Valeu a pena?
Maior, porém, que a voz interpelante do nosso subconsciente, foi ontem esse encontro memorável, organizado pela Companhia de Comando e Serviços, da sede do Batalhão 1899, e a que outros se seguirão, pelos ex-militares das Companhias Operacionais, espalhados por esse Portugal fora. Só quem lá esteve é capaz de entender o desfiar de recordações, umas felizes, outras dramáticas; este episódio picaresco, aquele mais interiorizado. “Lembra-se, capelão, daquela canção que cantávamos com os nativos – “Ah ma-i-má  eh  tantzamá” – e do aldeamento da Milamba onde ia dar escola à petizada… e do nosso grupo coral… e da peça “A Velha Senhora” que fizemos em Mocuba e levámos a Quelimane… e das tristes vezes que não vinha a avioneta com os aerogramas da família … e do cemitério de Mocímboa da Praia onde ficaram os onze que iam para Nambude”… E de tantas outras cenas que para outros nada dizem, mas para nós amaciam  e comovem o coração. Das melhores recordações guardo a solidariedade especial do único madeirense no Batalhão 1899, o tenente Aldónio Fernandes, oficial do Serviço de Transmissões Militares, presente e apoiado pela esposa no encontro de ontem.

Foram dois anos de comissão em Moçambique, regiões de Cabo Delgado e Zambézia. Cumprimos, embora forçados-carne-de-canhão. Sem glória e sem proveito para a Pátria Portuguesa. Daí, por diante, recomeçou a nossa verdadeira comissão existencial, esta já com quarenta e oito anos de vivência e mais determinante para levantar o esplendor do Povo Português.
Cabelos brancos, cabeças “descapotáveis”, vozes roufenhas, abdómens  dilatados, enfim, hoje, todos septuagenários, também já fomos jovens, robustos, bonitos, corajosos. Mas somos os mesmos! Tal como fomos há cinquenta anos. Os mesmos…menos alguns (e não são poucos) os que já partiram durante esta comissão de serviço à comunidade. Um abraço para eles, as praças, os furriéis, os sargentos, os médicos, quer milicianos quer do quadro. Para nós, o apelo quente e dinâmico para nos mobilizarmos a nós próprios e mobilizarmos os que de nós dependem ou connosco vivem, neste Plano de Operações: A nossa comissão ainda não terminou. Cumpramos o nosso lugar, cumpramos o nosso País!
Foi de lágrimas e cânticos o bolo do cinquentenário que, como mais veterano, fui chamado a cortar. Lágrimas de saudade pelos que já abalaram, cânticos de esperança por nós que levaremos até ao fim o glorioso estandarte do Batalhão da Vida!

05.Fev.17
Martins Júnior