sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

BIBLIOTECAS ‘LOW-COST’ - ENCICLOPÉDIAS UNIVERSAIS NA MÃO DE UMA CRIANÇA


Que bom chegar ao fim de cada dia ímpar e conversar com os meus amigos e amigas!  Porque ao escrever estas linhas, estou a ouvir a vossa voz e até imagino a expressão do vosso rosto, umas vezes aprovando, outras hesitando na sentença, outras talvez desaprovando, total ou parcelarmente.  Hoje, abertura de  mais um fim-de-semana , passo ao lado de “casos” obscuros e até traumatizantes, como seja o livro de Cavaco Silva, que aparece agora “como Pôncio Pilatos no Credo” ou como a bíblica “mula do profeta Balaão que falou sem ser interrogada”. (Núm.,22). O mais que se pode dizer é que a sua magra substância está lá  na proporção inversa da gordura das 600 páginas encadernadas. Outros “casos”,  o das 57 pistolas desaparecidas do depósito de armamento da PSP, ou o charquinho dos sms, tipo “guerras do alecrim e da manjerona” com que se tem auto-mimado a Direita continental do nosso país.
Saiamos por hoje –  sem lhes sermos indiferentes – destas galerias subterrâneas e respiremos ar puro. Ar puro que sopra da realidade empírica que se passeia diante dos nossos olhos, para confirmarmos o conhecido e comprovado axioma de que “a realidade ultrapassa a ficção”.
Aconteceu assim. Na última coluna de domingo de El País, M. Vicente titula desta forma o seu habitual comentário semanal: Erudiccion. Nele descreve, com mestria de forma e fundo, o perfil dos homens eruditos, lentes do saber, portadores de toneladas de conhecimentos, infatigáveis toupeiras das bibliotecas, de pestanas queimadas, caídas sobre os velhos alfarrábios. Constituíam o éden inalcançável ao comum dos mortais e, sempre que lhe pedíamos uma gota do saber, jorravam mananciais de citações, títulos, glossários, que nos deixavam tão absortos quanto inferiorizados. Mas hoje tudo mudou. Os contentores de vinte mil pés de cultura cabem agora na palma da mão  e  o que antes brotava de um cérebro do outro mundo hoje brilha instantaneamente nos dedos de uma criança. O colunista M. Vicente discorria  depois sobre os portentosos tesouros de ciência que nos proporciona um simples telemóvel, cujo mostrador deixa a léguas de distância os chamados velhos sábios das enciclopédias. Gostei de lê-lo, embora céptico, qual descrente desiludido com a sub-reptícia desvalorização do esforço porfiado dos mestres do saber.
Eis senão quando, a realidade “cai-me na sopa”. No intervalo de um dos ensaios da  tuna infanto-juvenil, fizemos uma deriva para a literatura, a propósito do próximo tema de carnaval, uma sátira a Trump. “Sabem o que é uma sátira?”, perguntei. Ninguém acertou. “Tirem o dicionário daquela estante e procurem o termo sátira”.  Os dedos dos jovens viravam, reviravam páginas, percorriam avidamente as “entradas” dos vocábulos, ansiosos por quem acharia primeiro e, com isto,  já lá iam uns oito minutos.
Eis senão quando – repito o estribilho – uma menina de 8/9 anos (que durante todo este tempo mantinha-se  calada, quase indiferente) aproxima-se de mim, mostra-me o telemóvel e com toda a naturalidade diz: “Está aqui”. E lá estava. “Sátira”.  Fecham-se os dicionários, arrumam-se na estante… e o saber brilhou num ápice sobre o mostrador do telemóvel.
 Confirmei então, com surpresa e com gosto,  que “a realidade ultrapassa a ficção”. Todos na sala possuíam telemóvel, mas nenhum teve a intuição da  ‘petiz de palmo e meio’. Uma biblioteca inteira, um dicionário gigante, abertos de relâmpago, numa superfície de escassos centímetros!  Milagre da inteligência humana, desde há séculos escondido, à espera de quem o descobrisse!
Para as novas gerações, nada disto surpreende. É a piscina onde nadam todo o dia como o peixe no mar. E é a prova de que as modernas tecnologias da comunicação, quando bem utilizadas, constituem alavancas preciosas para o enriquecimento holístico de todas as gerações. Depende tudo da condução inteligente e persistente com que a família, a escola e a sociedade  educarem aqueles que são a sementeira do futuro.
E isto é belo. Isto também é ar puro!

17.Fev.17
Martins Júnior