sábado, 11 de fevereiro de 2017

DESALINHADO E ABUSADO – NO ENTANTO, DIVINO!


“Bom-fim-de-semana”… Normalmente é este o envelope com que endereçamos aos outros um voto repousante de higienização física e mental: uma paisagem, uma leitura, uma peça de teatro, um concerto de boa música, nalguns casos um jogo de futebol, uma corrida pedestre, enfim, um alibi para alívio da rotina habitual – cansativa por ser rotina. Na minha condição, tenho sempre à espera uma carta que vem de longe, de milhares de anos, sempre antiga e sempre nova: um texto bíblico que se me oferece para reflectir e, depois, para transmitir àqueles que me acompanham mais de perto na jornada da vida.
Não é meu hábito trazê-lo para esta página. Mas hoje não resisti. Precisamente porque vem na correnteza do escrito anterior, em que comentei a transparente coragem do Papa Francisco no seu magistério docente e, daí, as arremetidas, umas vezes surdas e baças, outras primárias e insolentes, vindas de colaboradores directos que, conhecendo a luz  da Verdade, tudo fazem para que os outros não a vejam. Acusam Jorge Bergollio de erro doutrinário, de tendencioso, desestabilizador, desalinhado e até de ter sido um “erro do Espírito Santo” a sua eleição para Pastor da Cristandade. O mesmo ‘destino’ tiveram e têm muitos teólogos, muitos sacerdotes, cujos nomes também citei.
Ora, nem de propósito. A literatura bíblica deste  Domingo traz-nos a resposta, o esclarecimento iniludível, a síntese que define toda a dialéctica. O Logos, a Palavra por excelência, o Mestre J:Cristo foi considerado pelos Sumos ‘Pontífices’ de Jerusalém como um  marginal incorrigível, um perigoso agitador da ordem pública. Para comprometê-lo perante as instâncias políticas acusaram-no de rival de Herodes e Pilatos, representantes do Império Romano. Para condená-lo no Sinédrio (a Inquisição de então) não fizeram por menos: “Ele é um blasfemo, um bêbedo, o pecador, o da má-vida. Ele é o Belzebú, príncipe dos demónios”.  Enfim, um desalinhado, repudiado pelos senhorios da lei e da opinião pública. Amado e apaixonado pelo Mestre, o Povo, só o Povo.
Mas o que mais me perturba e revolta é que, além de “desalinhado” para o seu tempo, Ele foi e continua a ser “o abusado” pelos que tomaram conta do seu legado e dizem-se seus representantes. Leio o excerto do texto de Mateus, 5, 13-16, indicado oficialmente para este domingo:
“Se o vosso código de justiça não superar o dos escribas e fariseus (os ‘Doutores da Lei’) não podeis pertencer ao meu reino… E tu, se vieres trazer uma oferta ao altar e, aí, te recordares que o teu irmão tem alguma coisa contra ti, vai lá fora (sai do templo) reconcilia-te com o teu irmão (fala com ele, pede-lhe perdão) e só depois disso é que estás apto a entregar a tua dádiva”  (só então, estás absolvido).
Onde está aqui a inauguração da confissão eclesiástica?... Quem vê neste normativo as tabuinhas de pinho e as misteriosas grades dos confessionários?... Afinal, quem é o juiz desta causa?... Um personagem estranho, um terceiro que não é parte no processo?...
Como foi possível decretar (e mais lamentável) aceitar tamanho atestado de irresponsabilidade  criminal, impunidade gratuita  e  humilhante inimputabilidade?!... Compulsando o Livro do Ben-Sirá (a primeira leitura de hoje), escrito duzentos anos antes de Cristo, aí se afirma que “Deus concedeu ao homem  o dom da liberdade e pôs nas suas mãos o poder (a responsabilidade) das suas decisões”.  Como foi possível, então, entortar a Verdade original?
Este é apenas um caso entre muitos, trazido hoje à colação por se me afigurar oportuno para este fim-de-semana. E em forma de desabafo, apetece-me dizer: De que serve, ó Cristo, te cansares tanto com quem não quer ver nem aprender?... Mas sempre  vale a pena seguir-Te as pegadas:  a vida é tão breve que seria um crime enchê-la de cegueira e escuridão.

11.Fev.17
Martins Júnior