quarta-feira, 1 de março de 2017

CINZAS E CINZEIROS, SURDOS E CARNÍVOROS, BULAS E PERFUMES

                                             

Mas que enorme confusão  é esta,  qual “salada russa” destemperada,   que  trago para a ceia de uma quarta-feira, chamada “de cinzas”. Porque é destes ingredientes (e outros mais) que se compõe a tradição “cristã e ocidental” em que fomos moldados. Milénios de estereótipos ancestrais formataram gerações sem conta e das quais comodamente partilhamos, como se de uma segunda natureza se tratasse.
         Nas vinte e quatro horas de quarta-feira,  os sinos  tangendo quase  a finados,  gravaram aos ouvidos dos crentes a inexorável sentença: Memento, homo, qui es pulvis et in pulvere reverteris – “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás-de tornar”  - encenada com a deposição de umas cinzas de palmitos na cabeça dos utentes e a que se pretende adicionar uma espécie de mítico talismã carregado de um ímpeto divino para melhor entrarem  no consciente o peso e a profundidade da pena capital, sem apelo nem agravo. Da minha parte, desde há muitos anos deixei essa cinzenta tradição, pela conclusão clara  de tratar-se de um sinal, outrora desenhado no cérebro do crente, mas que hoje apresenta-se-nos tão evidente e tangível que basta ver o fumo esvoaçante da chaminé crematória para concluirmos que aquele ou aquela a quem tanto amámos, a sua beleza, o seu talento, a sua força física, tudo ficou guardado numa minúscula caixinha que trouxemos para casa e que um dia será também  o cinzeiro da nossa frágil grandeza.  Aos surdo-mudos falamos por sinais, mas ao cidadão normal, os sinais são excedentários e, por isso, inúteis, senão mesmo prejudiciais.  Chega bem ouvir a voz de Vieira, o mestre da língua e do pensamento: Hoje és pó erguido, amanhã serás pó caído.
         Do manual de instruções desta Quarta-feira consta também um receituário original, a que se atribui uma carga devocional armadilhada de preceitos ultra-terrestres, divinos: o jejum e a  abstinência, sobretudo a carne e a sua interdição temporária. Deduzo, porém, que não é preciso altear tanto a joeira para trazer lá do trono sagrado aquilo que qualquer nutricionista/dietista nos descreve  sob os nossos olhos e na palma da nossa mão, isto é, que uma alimentação equilibrada, promotora da saúde estrutural do ser humano,  decreta militantemente a ingestão abusiva de carnes  e gorduras saturadas. Mesmo que renegues o cardápio quaresmal, não te inquietes por isso: no consultório médico lá o terás, sem cinzas nem mistérios. Em tempos de obscurantismo retardatário, Moisés pretendeu aplicar a famosa medida terapêutica – não comerás carne de porco – pelos suas nefastos efeitos na saúde pública, em climas quentes. Ele conhecia bem a índole daquele povo ignorante e rebelde, que só tinha medo do chicote  do seu  Deus justiceiro. Daí, a única estratégia para salvaguardar a saúde colectiva e evitar a lepra contagiosa, recorreu a um subterfúgio (hoje, manifestamente abusivo), o de sacralizar uma  natural medida profiláctica, colocando-a no altar de “mandamento divino”.  Não estamos  na Judeia de há quatro ou cinco milénios, para interiorizarmos inteligentemente que  os abusos alimentares não são ofensa a Deus, são antes suicidários atentados a nós próprios. Ademais, a ironia ou cinismo dos auto-proclamados representantes de Deus ensinaram ao povo um truque para  subornar  e fugir ao castigo sobrenatural,  como hoje se foge ao fisco: se pagares uma bula na igreja,  já podes refastelar-te de carne à vontade. Como foi possível chegar a esta barbaridade de considerar Deus como um ser venal, aparentado  aos banqueiros,  procuradores e governantes, a contas na barra da justiça, por suborno?!
         Onde quero chegar com todo este arrazoado?
         Muito longe – e muito perto! Longe, para despirmos os crepes bafientos e rasparmos as camadas de tinta grossa com que pintaram, caiaram, rebocaram a cantaria pura e bela do nosso intelecto, incomodando Deus – para  cómodo da nossa preguiça mental -  e fazendo-O legislador implacável de normas que já estão inscritas dentro de nós, da nossa condição de possuidores transitórios do mundo em que vivemos. Perto, quero chegar muito perto e aspirar o perfume do espírito em tudo quanto existe na natureza. Aspirar o espírito das coisas é  respirar Deus plasmado na atmosfera, no fruto, na água, na Terra  que é o melhor consultório e a melhor farmácia para a saúde universal.  Assim entendeu Teillard de Chardin. Assim nos aponta o Papa Francisco  naquele poema-panegírico à ecologia, intitulado “LAUDATO SI”. E assim nos ensina  o  Mestre, no texto de hoje: “Quando jejuares, lava o teu rosto, perfuma a tua cabeça” (Mt.6,17).  subtendendo-se nas entrelinhas: sê saudável, transborda de graça e alegria.  
É assim que vejo o Tempo de Quaresma… Quaresma é quando o homem quiser. É sempre! Como o Natal.

         01.Mar.17

         Martins Júnior