sexta-feira, 3 de março de 2017

ESTE CARNAVAL NÃO DÁ PARA RIR


      À primeira vista não há quem duvide desta espécie de ‘travesti’ para o divertido ‘enterro do osso’ neste fim-de-semana. E diverte. É carnaval, ninguém leva a mal.  Decerto que já todos descobriram os reis da trupe, animadores do corso, mas ameaçadores deste mundo em que vivemos. Nada menos que o sr. Trump, paramentado de cardeal Burke e este, o cardeal Burke, mascarado de Trump. Ambos americanos, ambos poderosos. Ambos diferentes e ambos iguais. Os dois diferentes no ofício, um político, o outro eclesiástico.  Mas os dois iguais,  no poder e na ambição prepotente de controlo. Dois poderes que, apresentando-se diversos no objecto – um sobre o corpo, o outro sobre a alma dos povos – acabam por trocar de papéis e formar um só tronco bicéfalo, explosivo monstro de duas cabeças contra-natura.
         Mas a  partir daqui,  o “par carnavalesco” já não nos diverte. Pelo contrário, faz-nos pensar e indagar o porquê desta minha opção caricatural. Estamos perante um dos mais perigosos incestos que têm dominado o mundo: a fusão de dois interesses que, devendo ser independentes e, nalguns casos, conflituantes, afinal abraçam-se, coabitam no mesmo paiol e, pela febre de  domínio, aliam-se no mesmo programa totalitário e castrador de consciências, ambos carcereiros do pensamento e da liberdade.
         É do conhecimento público a obstrução que o cardeal Burke tem feito publicamente para manietar a mensagem libertadora do Papa Francisco.  É ele que, no seio do próprio Vaticano e em conluio organizado de quatro cardeais ultraconservadores (a que não seria temerário de classificar de ‘quadrilha purpurada’) tem  fomentado, de forma desrespeitadora e insultuosa, a rebelião contra o argentino Jorge Bergollio,  chegando a propor  a hipótese de levantar um processo canónico contra o seu superior hierárquico, acusando-o de heresia. Um cardeal chamar herético (herege) ao Papa!. Ao ponto a que isto chegou!!!... São deste teor os cartazes que apareceram nos muros de Roma, da noite para o dia.  A história repete-se desde o berço do Cristianismo: foram os Supremos Sacerdotes (hoje, ‘os cardeais´) do Templo de Jerusalém que chamaram a Jesus de satanás e O assassinaram por blasfémia. Prova manifesta e insofismável de que Francisco está no caminho certo!
         Falta, porém, entrar em cena o segundo figurante deste estranho carnaval que, como se vê, não diverte,  antes perturba e  oprime. Transcrevo o excerto de um texto do abalizado teólogo Prof. Dr. Anselmo Borges, em recente edição do DN/Lisboa: “Segundo o New York Times, o cardeal ultraconservador Burke e sectores fiéis a Donald Trump na Casa Branca, concretamente o conselheiro Steve Bannon, conspiram contra Francisco, esperando que, com a vitória  de Trump,  o Papa  fique um pouco isolado”.
         Para quê mais argumentos, para quê mais testemunhas? Aquilo que, não há muito tempo, era atirado à face de um cristão  anti-ditadura, de um padre operário, de um pastor de almas que lutava também pela salvação dos corpos, aquilo que se  criticava num teólogo interveniente na área da justiça social ou, mais raro, num bispo verdadeiramente cristão combatente por uma sociedade mais justa e igualitária – todos esses baldões deprimentes, aleives soezes, senão mesmo suspensões, excomunhões e toda a espécie de anátemas, tudo isso é agora lançado em rosto ao próprio Papa, e por quem?... Pelos da sua casa, debaixo do mesmo tecto, outros Judas Iscariotes interessados apenas na bolsa e no poder, capazes de vender o próprio Mestre ou, então, liquidá-lO. Onde o respeito pelo ‘Sucessor de Pedro’?... Onde a defesa da infalibilidade do Sumo Pontífice?… Onde a fidelidade ao ‘Representante de Cristo na terra’?...
Está visto que o Papa só merece esses títulos encomiásticos quando se coloca ao lado dos poderosos do mundo! Mas quando se posiciona ao lado do Mestre, despertador de mentalidades e portador da luz que destrói o obscurantismo reinante, então, adeus Sumo Pontífice, rua Sucessor de Pedro, enfim, tirem-no da nossa frente, crucifiquem-no.
Do carnaval satânico que nos sugere o título de hoje, fique aquela conclusão que sempre me tem acompanhado: Só os cristãos de base, esclarecidos e corajosos, poderão segurar o Papa Francisco e todos os que  o seguem!

03.Mar.17
Martins Júnior