sábado, 25 de março de 2017

RENASCER AOS 60 ANOS: ALVÍSSARAS, VELHA E NOVA EUROPA!


Não podia fechar este 25 de Março europeu, prenúncio do 25 de Abril português, sem entronizá-lo dentro de mim. Porque eu também sou Europa. Queira ou não queira, ele mexe comigo. Mais que a Hora do Planeta, mais que todas as velas acesas no mega-apagão do mundo, a Criança-Infanta nascida em Roma no ano da graça de 1957 cresceu, fez-se jovem mãe, gerou no seu seio quase trinta rebentos de esperança, entrelaçando num mesmo abraço povos e línguas do norte ao sul, do nascente ao poente deste velho continente. Venceram-se barreiras atávicas de nacionalismos despóticos, abriram-se passagens de nível entre estados através do ‘espaço Shengen´, de uma família “a seis” evoluiu-se para a grande roda dos “vinte e sete” que fizeram crescer um aglomerado de 185 milhões para um total abrangente de 510 milhões de cidadãos-irmãos do mesmo tronco comum. De assinalar que o produto interno per capita subiu de 15.000  para 52.000 euros, segundo as estatísticas oficiais.
É verdade que nem tudo foi um mar de rosas. Por isso Charles Kupman, ex-assessor de Barack Obama, classificou esta comemoração como um “aniversário agridoce”. De  60 anos de progresso, é certo, sobrevieram 10  anos de crise, sobretudo desde 2007,  ao ponto de vermos proliferar o joio da desagregação iminente, a partir do mais recente  caso Brexit. Apesar de  nascida sob o firmamento da “Cidade Eterna”,  os sucessivos tutores têm-se desviado da matriz original impressa pelos seus progenitores. E de  um pacto de Europa Unida, foram-se degradando os seus genes, dando lugar a novos egoísmos centralizadores, a neo-nacionalismos exacerbados e à exploração do mais forte e mais rico sobre o mais fraco e mais pobre. Sempre o cancro insaciável do capitalismo, sobretudo o financeiro, a imperar, como outrora, num continente e num mundo que se previam igualitários e justos!... Neste parágrafo incluo uma outra vertente, a dos cidadãos – nós, os europeus – que deveríamos estar mais atentos e vigilantes nas decisões que, às ocultas, os presumíveis representantes nossos assumem  nos longínquos areópagos  ‘bruxelianos’ sem que deles tomemos consciência alguma. Refiro-me também, neste item, à aplicação dos chamados fundos comunitários que ficam quase sempre nas mãos dos mesmos comparsas do poder político de cada país-membro ou de cada região, com prejuízo do trabalhador anónimo, do camponês, do pescador, do funcionário público. Aqui, tem de haver quem desperte a vigilância popular, para que não se nos atribuam os baldões que o ‘super-tesoureiro’ da Eurogrupo, o holandês Dijsselbloem,  lançou contra os países do sul.
Não obstante este decénio de obstruções e perigos que, à semelhança de uma espada de Dâmocles, pairam sobre a Europa, há um recanto de ponderação e de conforto onde nos podemos abrigar e que se pode compor na seguinte reflexão: Só abraçamos decididamente um bem quando o comparamos com o mal onde vivíamos antes. E só o apreciaremos o suficiente  quando e se, algum dia, o viermos a perder. Aquela amálgama de territórios, separados como hordas ribais, de  ante-1945, essa Europa sangrenta e fratricida, NUNCA MAIS! Basta lembrar as duas grandes guerras (1914-1918 e 1939-1945) as quais  foram geradas dentro da própria Europa, com maior responsabilidade para o conflito franco-alemão. Adeus, guerras dos 10, dos 30, dos 100 anos! Saiam dos sepulcros os milhares e milhões de vítimas inocentes e bradem aos  eventuais povos delirantes,  desejosos de sangue!
Foi belo e comovente aos olhos de quem se sente tripulante destoutra “jangada de pedra” que é a Europa ver os novos timoneiros do Velho Continente -  herdeiros de Jean Monnet, Konrad Adenauer, Jacques Delors – voltarem  ao berço onde nasceu este sonho de uma Europa Unida, o Tratado de Roma! A coroar a Grande  Efeméride “agridoce” surge algo de novo: Francisco Papa, não tanto como o propagandista de uma Igreja, mas como intemerato e apaixonado bandeirante da Paz e da Fraternidade na Europa e no Mundo que, na sua exposição, apontou as pistas do futuro: Sarar as feridas do percurso e Marchar sempre em frente. Mesmo sabendo que o braço de ferro do capitalismo  financeiro não desiste de esganar os mais fracos, opúnhamos  a força maior do exército pacífico  de todos nós, participantes e construtores da enorme Família Europeia.  
A estes quatro parágrafos que, como o trevo das quatro folhas da sorte e da felicidade,  ofereço no 60º aniversário, junto mais uma  cereja  em cima do bolo – esta colhida no cerejal da minha crença bíblica:  o dia 25 de Março, no calendário litúrgico, celebra a Anunciação daquele que mais tarde surgiria como o Messias Libertador  da Humanidade. O voto que faço é que  o documento hoje assinado e reconfirmado pelos “27” em Roma  signifique o arcanjo anunciante de uma Europa Melhor  e de um outro Mundo Novo!

   25.Mar.17

Martins Júnior