segunda-feira, 27 de março de 2017

UM PROCESSO COM MILHÕES DE VOLUMES E SEM FIM À VISTA


       Hoje sei que  vou em contramão. Vou para a ilha. Para uma outra ilha, indiferente à paranóia ululante dos’ circos  quadrangulares’  onde é rainha uma esfera de couro. Quem for comigo tomará conta de um processo milenar que continua na barra do tempo.
Ele era um operário trintão, tisnado do sal e do sol  lá das bandas orientais. De palavra clara e olhares contraditórios, ora ternos como os de uma criança,  ora faiscantes como brasa, , arrastava as multidões. Chamavam-lhe até “O Sedutor”. Com ele, os mares abriam-se à passagem e os penhascos do medo sucumbiam de espanto. E tudo era caminho chão, tudo manhã de aventura nos corações insofridos. O povo adorava o seu líder operário, que dava voz e força a quem as não tinha.
Mas não era esse o seu tempo. A ditadura dos homens devorava ossos e cabeças, sobretudo dos que ousassem afrontar a lei, o império, o templo. E foi decretado: “Quem disser bem desse homem é preso e posto fora do povoado” .
Ora, um dia o ‘sedutor das multidões’ encontra um cego de nascença e abre-lhe os olhos. E começou a ver. Mas antes que a notícia corresse, era preciso afogá-la na fonte,  na própria boca do feliz contemplado, agora vidente. É arrastado clandestinamente ao tribunal do poder absoluto e apertado com uma lista de quesitos, tudo para convencê-lo a dizer que o suposto  benfeitor era um falsário, um impostor, um criminoso público.. E, “termos em que” não podia ser o autor daquela cura mágica. E se persistisse nesse  seu ‘ embuste’ seria expulso do povoado. Tudo  em vão. O rapaz só contava os factos. E daí não saía.
Já que as ameaças não  resultaram, os pais são intimados ao tribunal para jurar que  aquele não era o seu filho cego e que, ao menos, pusessem em causa o acontecido. “Não sabemos como aconteceu, perguntai ao próprio que ele já tem idade de responder”. Era asfixiante, inelutável, tenebroso,  o medo de reconhecer a verdade dos factos e atribuir o feito ao seu legítimo autor. Porque pairava no ar a inexorável  guilhotina  do momento: “Será réu quem disser bem desse revolucionário impostor”.
Novo interrogatório, pidesco e torturante, ao cego, agora vidente, sujeito ao massacre de lavagem de cérebro para negar a evidência. “Aos costumes, disse nada” e manteve a palavra dada.  À pergunta do réu – será que quereis ser adeptos do homem que me curou? – saltaram os magistrados  de toga,  vociferaram os ministros do templo e caíram como lava os anátemas, as pragas, todas as maldições em cima do pobre cego. Até que o expulsaram do local, enfim,  proscrito e corrido  do próprio templo.
O Templo era, então, mais forte que o Trono. Saiu, pois,  o pobre mendigo condenado no tribunal de  Deus e no Juízo dos homens. Mas a sentença capital tinha outro destinatário, era outro o réu procurado, “Vivo ou Morto”. Acabaram por achá-lo, denunciado por um pérfido  delator, suposto amigo seu . Chutado da terra, assassinado a céu aberto, como um bicho repelente. Ele, o revolucionário pacífico, solidário com os conterrâneos e vizinhos, o construtor de pontes, o Sedutor das multidões!
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 Foi isto que os Autos bíblicos apresentaram ontem oficialmente  a todo o mundo, em João.9, 1-41. Muitas foram as interpretações, umas místicas, outras metafóricas, outras poéticas e sociais.
Mas a rudeza dos factos não suporta mistificações. É nua e crua. O poder totalitário e o furacão do obscurantismo, quando revestidos da aura religiosa, não olham a meios para chegar aos fins, sempre de um requinte maquiavélico: calar ou manipular a notícia, arregimentar a Censura, distorcer a realidade, formatar e deformar quem se lhes opõe, vale tudo – marketing, palavras de ordem, ameaças, suborno, corrupção – vale tudo até à exaustão. E a exaustão  (antes eram as arenas selváticas, a fogueira da Inquisição, os fornos crematórios) ) hoje é a liquidação fria, o ostracismo social, o assassinato e depois…”quem é o senhor que se  segue?”…talvez um sindicalista, uma mulher activista, um professor, um profeta dos tempos presentes e futuros… e, quem sabe, um Francisco Papa!  
Porque o “Processo de Jesus”  não tem fim à vista, enquanto o mundo não acordar. Enquanto nós, também…

27.Mar.17
Martins Júnior