sexta-feira, 31 de março de 2017

ZECA AFONSO E EDMUNDO BETTENCOURT NA BAÍA DA CALHETA



Nada mais belo que atravessar a ponte nocturna de Março-Abril em terras da Calheta! Chamemos-lhe a ponte do amor e da saudade, iluminada pela força astral que nos uniu a todos : José Afonso.
Um grupo de amigos do Zeca - companheiros  na ‘Lusa Atenas’ - juntaram-se e, tocados pelo espinho doce da saudade, fizeram um pacto histórico e juraram: “Passados trinta anos da sua morte, temos de pagar-lhe condigno tributo”.  António Macedo, José Júlio, Luís Filipe, João Dionísio (dispensam o DR) mobilizaram-se nesta nobre cruzada, pediram o consenso da associação “Calheta-Costa do Sol”, do “Grupo Madeirense Fados de Coimbra” e o apoio logístico das entidades e, surpresa de sonho, abriram-se as ribaltas da “Casa das Mudas”. E o sortilégio aconteceu!
         Tecido de canto e poesia, o encontro atingiu o clímax com o esvoaçar romântico das guitarras coimbrãs, o fado clássico, as baladas, os textos e canções de intervenção, nas vozes de Luís Filipe, António Macedo, Jorge Abreu, Carlos Bettencout. Subimos todos ao Penedo da Saudade, descemos ao Choupal, ouvimos o repique da “velha cabra” da Torre da  Faculdade, enfim, regressaram ‘os Amores do Estudante’, vieram ‘O  Cavaleiro e o Anjo’ e nem faltaram ‘Os vampiros, que comem tudo e não deixam nada”. Foi um momento de catarse e libertação poder ouvir e acompanhar, de pleno direito, mensagens e canções nascidas nos subterrâneos da ditadura  cultural e política. Hoje, felizmente - sublinhava o José Júlio -  já ninguém nos virá prender.

         Noutro âmbito do encontro, sugiram os testemunhos vivos de quem conheceu pessoalmente o Zeca, inclusive da minha parte, evocando episódios marcantes da sua passagem pela Madeira, em 1976, e da repressão a que foi sujeito, mesmo após o ’25 de Abril’. Incrível, mas verídico!
         Uma nota singular marcou este tributo: a coincidência de realizar-se na Calheta. Foi desta freguesia e concelho que saiu o grande compositor e intérprete  do Fado de Coimbra, Edmundo Bettencourt,  cujas criações José Afonso, mais tarde, viria a reinterpretar na sua voz inconfundível. Enfim, duas almas gémeas e duas praias distantes – Aveiro e Calheta – entrelaçadas nesta noite memorável!
         Tudo muito terno e mobilizador, impecavelmente sentido e interiorizado pelo público que encheu o auditório das “Mudas”!
         A saudação que a AJA (Associação José Afonso) endereçou desde o Continente para ser lida no final, coroou este inestimável monumento de pura fruição espiritual, artística e social. À mesma hora, realizava-se em Santarém o mesmo evento com memórias e canções, por outros intervenientes, irmanados no espírito de  idêntica mensagem.

         A Fala do Zeca, na lousa nº 1606 do cemitério de Setúbal, em homenagem ao 30º aniversário da sua morte, poema já lido em Machico em 23 de Fevereiro de 2017, foi como que a trombeta de campanha mobilizando-nos a todos para a mesma causa. “Eu não morri, porque vivo em ti”.
         Na ponte pênsil de 31 de Março para 1 de Abril de 2017, prolongou-se o abraço de gerações que, de pé e em espontânea  apoteose, cantaram a alvorada de Portugal/74, enchendo toda a sala com o intemporal Grândola, Vila Morena.
         Valeu a pena!

31.Mar-01.Abr.2017
         Martins Júnior