sexta-feira, 7 de abril de 2017

A CRUZ: SINAL E CONTRA-SINAL


É sexta-feira. De um tempo maior.
Ambos – tempo e sexta - trazem um estigma que marca e abarca templos, cidades, caminhos, lugarejos remotos, onde quem é crente reconstitui a chamada Via Crucis, memória evocativa de um percurso pedregoso, ingrato, lá para os lados de uma Jerusalém de há mais de dois mil anos. O estigma é o símbolo da Cruz, perante a qual o povo se comove, se entretem e, não raras vezes, se compraz, atribuindo-lhe uma conotação mítica, a roçar a magia e a superstição.
Se os meus acompanhantes dos ‘dias ímpares’ tiverem paciência e lugar, partilho a breve incursão que ensaiei, hoje mesmo,  nesta comunidade onde vivo. Chegaremos à conclusão de  que o sacralizado símbolo da Crus destrói-se a si próprio e torna-se o anti-símbolo. ´Contradiz-se a si mesmo, devido ao uso e abuso que dela se tem feito.
A Cruz domina a estatuária, a arquitectura soberana e entra no coração e na carne dos seus utentes. Ela pula, gigante e altaneira, para a ogiva das catedrais, guarnece os alçados palacianos, adormece na tumba dos cemitérios, emoldura a heráldica dos brasões monárquicos e os medalhões  dos laureados famosos,  Por fim, ela cola-se ao peito daquela jovem que mais prendada fica se a trouxer em fio de ouro puro. Chega a ser ‘chic’ usá-la e ostentá-la.
E há um mercado-super de matérias primas para construí-las, as cruzes. Há-as de pinho da terra, e  de ferro forjado; há-as de plasticina e de bronze cinzelado; há-as, ainda,  de marfim e porcelana. É um santuário de cruzeiros a sala de coleccionadores agnósticos. Incomoda-me mais, porque me repugna, ver gente veneranda e devota transportar, de semblante  compungido, um crucificado de prata banhada em ouro, arvorando-o em comemorações de calvário. Como se a carne e os ossos do martirizado Cristo se mudassem em metal precioso, após a sua morte.
Mas a Cruz . aquela que se conhece – nada tem de especioso, mítico ou espectacular. Pelo contrário, ela é a prova mais acusativa da violência dos poderosos, o simulacro horrendo do quanto é capaz a malvadez humana que sadicamente mata os inocentes. A Cruz é o equivalente à fogueira da Inquisição,  à guilhotina, à corda de enforcar, ao forno crematório, enfim,  ao gaz ‘sarim’. A Cruz nunca foi motivo de orgulho, porque  é o símbolo da nossa vergonha comum. Por isso que nunca será peça de adorno, muito menos joalharia sacra ou cereja altaneira no cimo dos campanários. É neste contexto que se interpreta o sermão que o grande Padre António Vieira fez na Capela Real, diante da corte imperial ali reunida, os fidalgos brasonados na primeira fila: “Antigamente, eram os ladrões que pendiam do alto das cruzes. Hoje são as cruzes que pendem do peito dos ladrões”.
Assim seria sempre o simbolismo da Cruz se não fosse o corpo que lá cravaram  os  poderes de então: o poder religioso do Templo, aliado ao poder político-judicial do governador Pilatos.. Absolutamente! Assim como aos grandes abismos correspondem grandes altitudes, assim o patíbulo da Cruz serviu para demonstrar a autenticidade e a palavra de honra de Alguém que pagou com a morte a factura da Sua palavra. Antes quebrar que torcer! Foi o Corpo agonizante do Mestre que, de coração benfazejo, destruiu a malvadez dos assassinos  que maquinaram e levantaram aquele instrumento de ignomínia. “Pai, perdoai-lhes, porque (os autores materiais, estes pobres soldados) não sabem o que fazem”.
Derrubar as cruzes, libertar os crucificados: quem quer alistar-se nesta campanha?...

   07.Abr.17
Martins Júnior