quinta-feira, 27 de abril de 2017

EM MACHICO, O DIA PLENO


Tão juntos  e tão distantes!... Enquanto Portugal cantava quatro décadas sobre a alvorada de Abril, em Espanha chorava-se o dobro sobre a noite trágica em que uma pequena cidade foi reduzida a escombros. Em “25 de Abril” soltaram-se 43 cravos de vitória no canteiro português. Em “26 de Abril”, os nossos vizinhos ‘hermanos’ sentiam repercutir-lhes no peito 80 batumes de dor, recordando o horrendo  bombardeamento  de Guernica pela aviação alemã, em 1937.  
Era este o paralelo que me propunha desdobrar neste fim-de-dia, inspirado no imorredoiro quadro de Pablo Picasso sob o mesmo título. Foi o bárbaro conluio entre dois ditadores, Franco e Hitler! Por onde se demonstra que são os homens – somos nós, o Povo -  quem transforma o riso em lágrimas e, paradoxalmente, o luto em cânticos.
           No entanto, optei por respirar o ambiente puro e pleno em que Machico viveu o Dia da Liberdade. Faço-o, por um impulso necessário, precisamente para consolidar essa convicção, tantas vezes esquecida ou indiferenciada, de que é nesse esquecimento ou nessa  indiferença generalizada que  a ditadura aproveita para gerar os monstros futuros, como os de Guernica e do Holocausto.
         O júbilo maior que se evola do ambiente vivido nestas comemorações  consiste na verificação ‘ao vivo’ de um dado firme, científico e promissor: o de que hoje como ontem, passados 43 anos, as pessoas recriaram instintivamente a pujança e o brilho com que viveram a primeira hora da primavera em Portugal, mais intensamente na sua freguesia. O local foi o mesmo, o Largo do Município, campo de lutas contra uma tropa capitaneada por um tal brigadeiro traidor dos ideais dos capitães de Abril. Ali, sendo o chão de sofrimento, foi também o palco da vitória. Por isso, a chama do amor mátrio, iniciada há 43 anos, continua viva e perene em avós, filhos e netos que, num abraço comum, voltaram a encontrar-se no centro da cidade. Ali, sente-se o “Dia inicial, inteiro e limpo”, de Sophia de Mello.
         É sintomático o teor do programa que alinhou, não apenas comícios de intervenção, mas todo um composto holístico de actividades culturais, lúdicas, musicais, sempre com a Ideia de Abril no horizonte. Desde o hastear das quatro bandeiras – da Europa, de Portugal, da Madeira e de Machico – acompanhado pelos respectivos hinos a cargo da Banda Municipal de Machico e da formação em parada dos Bombeiros Municipais, o dia começou com a ‘Corrida da Liberdade’ entre Machico e Santa Cruz, de mais de duas centenas de participantes (o presidente da edilidade machiquense, inclusive) e das mais diversas idades e  extractos sociais, numa co-organização da Câmara e da Associação de Atletismo da Madeira. Já na ante-véspera do dia 25, abriu-se uma expressiva Exposição de Abril em Machico, desde os primórdios até à actualidade. "Automóveis da Revolução" foi o título dado à apresentação de veículos da época, uma iniciativa apreciada por grande número de visitantes. Na véspera, um acontecimento notável abrilhantou o romântico Largo de São Roque. Foi como que uma reconstituição (em escala miniatural)  da Monumental Serenata da Sé Velha de Coimbra, toda ela preenchida com baladas do cantor de Abril, José Afonso. Dentro da vetusta capela dos séculos XVII-XVIII, soaram mais autênticas e plangentes as guitarras acompanhando as sonoras vozes de António Macedo, Luís Filipe Costa Neves, Jorge de Freitas e Carlos Bettencourt, com apresentação e condução de José Júlio. Simplesmente emocionante! E mais tocante foi a presença do jornalista de Abril, Adelino Gomes, quando se nos apareceu e começou por  abrir o livro da memória,   contando aos presentes os primeiros contactos com o autor da “Grândola, Vila Morena”. Memorável!

         Na tarde de 25, a chuva teimosa fazia prever o vazio no Largo das comemorações, o já mencionado chão de luta e palco da vitória. Eis senão quando, vimo-nos envolvidos num vasto círculo de gente de Machico (e não só) que, como por sortilégio, ali compareceu. Eram rostos de ontem e de hoje, adultos, jovens e crianças, movidos por uma alegria contagiante, libertadora. Ali recitou-se o “Operário em Construção”, de Vinicius de Morais, exaltação antecipada do Dia do Trabalhador. Suspenderam-se as intervenções programadas e, no intervalo da chuva, os grupos de bailados populares de Abril descreveram as danças e cantares de “Machico- Terra de Abril”, participadas pela população circundante. Foi esta, talvez, a maior surpresa do dia.
         Mas faltava, ainda, a cereja em cima do saboroso bolo de 43 velas. E aconteceu, à noite com a actuação do Grupo Coral de Machico, dirigido pelo maestro Nélio Martins. Inexcedível o cortejo de “Canções de Abril”, onde desfilaram Fernando Lopes Graça, José Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino, José Mário Branco, António Variações, aos quais o coro quis associar duas das minhas canções, já editadas, mas desta vez valorizadas pela excelente harmonização do maestro. O fórum, completamente cheio, manifestou calorosamente o seu apreço pelo precioso contributo do Grupo Coral de Machico neste inesquecível  concerto. Bem merecidos aplausos!
         Deixo nesta folha de calendário o presente registo para memória futura. Sobretudo porque a comunicação social ilhoa entendeu silenciar, mais uma vez, a vitalidade anímica de um Povo – o único na Madeira que nunca deixou de assinalar publicamente o Dia da Liberdade. Mesmo nos tempos em que os intrusos do 24 de Abril, herdeiros e beneficiários do Estado fascista, proibiram as comemorações oficiais, a população de Machico ergueu sempre a cabeça, fazendo jus ao seu título onomástico: “Machico-Terra de Abril”.  As rotativas e os microfones deste “reino”  quiseram abafar a vivência autóctone da Democracia na idade da ternura. É que não poisou aqui nenhum secretário regional nem caiu do céu nenhuma vedeta nacional. Tanto melhor, para ser mais autêntica e consciente a respiração da alvorada de outrora. Enquanto houver gente de Machico, a ditadura não passará nem fará covil por estas bandas!
         Força e congratulação aos organizadores desta magnífica jornada – a Câmara Municipal, a Junta de Freguesia e “Cidadãos por Abril” de Machico.
Tal como o rasto brilhante que o cartaz luminoso projectava na baía, assim continuaremos a tecer de luz os caminhos da existência marcada pela estrela da manhã que todos os dias renasce no horizonte português  –  o “25 de Abril”!   

27.Abri.17
Martins Junior