domingo, 23 de abril de 2017

MILITARES, HOMENAGENS, MONUMENTOS E CONTRADIÇÕES


Numa altura  em que a terra-parturiente  sente  chegarem  as dores do parto, que outra  atenção maior se achará  senão  falar do natal que nos bate à porta?.... Aqui e agora, esse natal tem por nome “25 de Abril”!
Falar de Abril é chamar à nossa mesa os militares de ontem e de anteontem. Quando digo “ontem” digo os 240 homens que saíram de Santarém, comandados por Salgueiro Maia. Digo também os 5.000 militares que em todos os quartéis de Portugal garantiram, em postos de chefia, o corajoso plano de operações delineado por esse estratega incontestável da Revolução dos Cravos - Otelo Saraiva de Carvalho – e seus camaradas, oficiais, sargentos e praças. Todos arriscaram a vida. Muitos, ao sair de casa, despediram-se de mulher e filhos, sem carta de regresso. A intuição abriu-lhes caminhos nunca dantes imaginados e o  amor pátrio, a libertação do Povo português,  impeliu-os para a luta com uma indomável  resistência, igual à  das ‘chaimites”  que os transportavam. Sem hipótese de comunicar com todo o país (os telefones eram fio de arame fatal, telemóveis nem havia) os militares chegaram lá até onde “mais que permitia a força humana”.
Tudo isto vimos hoje, na Casa do Povo da Camacha, contado na primeira pessoa pelo ‘alferes’ Clímaco Pereira e pelo ‘condutor-auto’ António Gonçalves, natural daquela vila. Adelino Gomes, com toda a justiça titulado de  ‘jornalista do 25 de Abril’, acompanhou todo o processo e hoje pôs diante dos nossos olhos os vasos comunicantes que levaram ao triunfo os perigosos canais da Revolução. A expectativa, a incógnita do sucesso ou insucesso, os curto-circuitos iminentes que podiam ter aberto um mar de sangue, as avarias da última hora, enfim, “o coração aos saltos”,
tudo desfilou como um filme ao vivo naquele auditório. A “invenção” do cabo telefónico entre os centros de decisão  (os quartéis  da Graça e da Pontinha) é algo que nos põe em sentido e faz irromper dentro de nós o magnânimo preito de gratidão e homenagem.
         No entanto, surgem também ciclicamente, por estes dias, outras homenagens de fino protocolo, a que dão o nome  de “monumento aos ex-combatentes”. Então lá se perfilam os figurões aperaltados, medalhados. É vê-los com parangonas guturais exaltando a “coragem heróica dos nossos combatentes do Ultramar”. Engomadinhos e fardadinhos, os hipócritas oradores das feiras – nenhum deles foi talvez  ao ‘tarrafal da guerra’ e outros meteram cunhas aos maiorais para fugir à mobilização   -  hoje  até vão  depositar coroas de  flores. Devo dizer (certamente não terei o consenso de quem me lê) mas digo em plena consciência que todas essas encenações não são para promover os que lá foram parar  como  “carne pra canhão”, condenados às galés, anónimos números mecanográficos à chamada na parada. O programa dessas inaugurações mais não faz senão   escrever no epitáfio: “Homenagem e glória  à guerra colonial”.
Página negra na história de Portugal e do mundo foi esse massacre terrorista que obrigou milhares de jovens, desde o Minho às ilhas, a destruir populações indefesas e a matar quem vivia pobremente na sua própria terra, a África.  Pior ainda quando sabemos que  cristãos e católicos de Portugal, os soldados, eram forçados a abater cristãos e católicos africanos. Sei do que falo e do que vi em terras de Moçambique, em 1967, faz agora 50 anos. Porque também interiorizei, durante e depois, este sentimento de revolta contra os ‘donos da guerra colonial’ e  porque sofri, como todos nós, os condenados à morte, a indescritível tragédia  de ver cair mortalmente à minha frente onze jovens meus amigos (e depois ter de sepultá-los em onze covas, diante dos meus olhos) por tudo isso, confesso que repudio liminarmente tais pseudo-homenagens.  Lágrimas pelos mortos e indignação pelos responsáveis dessa guerra vergonhosa – eis, na minha opinião, o que deveria constituir motivo de inspiração para tais monumentos. Melhor seria tratar com justiça os familiares dos  ‘desgraçados’ que lá ficaram e os que trouxeram, como prémio do Estado, braços e pernas partidas, traumas físicos e psicológicos que carregam toda a vida.
É a estes que eu chamo “os militares de anteontem”. Também eles contribuíram indirectamente para a Liberdade do “25 de Abril”. Foi o cansaço da luta, o depauperamento das finanças públicas e os consequentes impostos sobre o povo e, sobretudo, o descontentamento de oficiais, sargentos e praças em guerra que apressaram a implosão de um regime colonialista, obsoleto e tremendamente injusto. Só que, para os “militares de anteontem” a factura foi por demais pesada e amarga. Bem hajam! A estes, o Estado desprezou-os e aos bravos de Abril, se acaso falhasse a Revolução, o seu destino seria a condenação, o degredo e a deportação. Assim agia o Estado  salazarista.
A todos, Militares e Povo, o abraço de gratidão das gerações de agora, herdeiras de tão nobre património!

23.Abr.17

Martins Júnior