quinta-feira, 13 de abril de 2017

UMA NOITE DE CONTRASTES


Escrevo no corredor da noite de Quinta para  Sexta-Feira. Noite branca. Noite negra. De suores frios e toalhas de linho sobre a mesa. De traições ocultas e sobre-humanos perdões. Tudo começou  num jantar clandestino de despedida, direta para o matadouro anunciado. A fatia do pão e a taça do vinho acabaram numa túnica embebida em sangue. Noite de contrastes, portanto. Não foi brinde amistoso o daquela noite.
Só Ele via, em grande e claro plano, o guião do trágico filme, em que seria protagonista e vítima indefesa, às ordens do potentado religioso do Templo de Jerusalém. Não obstante, no adeus final o ar pesado daquela sala, cedida gratuitamente para a “festa”, tornara-se  leve e transparente desabrochando em abraços sem palavras. Porque o ar puro, transcendente, chamava-se Perdão.
À distância de mais de dois mil anos, acompanhámo-lo, ao Mestre, nesta noite.  Aliás, foi Ele que veio ter connosco, sentou-se ao nosso lado na mesa rectangular coberta do linho da terra. E ficámos a saber que perdoar faz bem à saúde. Descobrimos que não se aguenta uma vida inteira com um revólver dentro do peito nem com um coração feito  pedra em vez de carne verdadeira, sensível, imune às arritmias fatais.  E, daí, aprendemos também que o perdão não é um acto estritamente  religioso mas uma proposta de educação cívica, porque ele só tem lugar no chão tangente da vida quotidiana e não nas paredes amorfas de um santuário, por mais sacrossanto que se apresente. Na enorme redoma planetária  em que nos meteram, marcada pelos ribombos de tudo arrasar, sentimos que somos capazes de enterrar machados de guerra sem nos demitirmos da luta franca e justa dos nossos ideais colectivos. E aí percebemos que no palmo de quarto que habitamos, rugem explosões de circunstância – palavras, olhares, gestos mútuos  -  que podem sufocar quem vive à nossa beira, provocando depressões tão corrosivas como as armas químicas.
Por outro lado, não foi difícil perceber que os auto-proclamados mestres de perdões oficiais apoucam a nossa visão e só se interessam em formatar-nos na ‘gravidade’ das minudências  ocasionais, nervuras, neuroses, beliscaduras individuais, enfim, o tecido curricular inerente à  comum fragilidade humana. Para os confessionários é isso que conta. E deixa-se de fora a grande criminalidade, a opulenta e sofisticadamente elaborada para melhor explorar o mais fraco, o mais pobre, o mais doente. Aos crimes ou pecados sociais que matam silenciosamente povos e gerações, a Igreja dos tronos e altares não tem formulários, pagelas ou penitências pias. Talvez  porque o seu escandaloso património terá sido fabricado também nos G8 de vários séculos!     Foi preciso que “um homem do fim do mundo” rompesse os oceanos e chegasse à Europa ‘cristã e ocidental’ para entender o rol doméstico dos nossos desacertos e apontar,  aqui e agora, os crimes sociais dos brâmanes, dos intocáveis, dos que ficam sempre no pódio dos vencedores.
Por fim, consolidámos a convicção de que a Deus ninguém rouba, ninguém mata, ninguém O leva à falência, ninguém O ofende, ninguém O engana. Tudo isso acontece - só e sempre -  quando o agredido, o lesado, o ludibriado é o nosso co-transeunte, que vive e viaja connosco, perto ou longe, um Ser:  humano, animal, vegetal, mineral, solar ou lunar, numa palavra, a Mãe atmosférica , telúrica  que nos deu o berço e um dia há-de recolhê-lo na sepultura.  Como viveu e sentiu Teillard de Chardin, nunca atingirá  o vértice do Espiritual  quem  não partir das raízes do Natural.
Assim também o pão e o vinho novo – o Perdão – desta histórica vigília de Quinta para Sexta-Feira.  Assim se canta o Perdão à mesa da Comunhão! 

  13.Abr.17
Martins Júnior